terça-feira
imprensa de rapina é o mais inalterável vestígio da ditadura militar ou eu também vou reclamar
as réplicas do marcelino
clique aqui para ler a carta do marcelino (mais um tiro certeiro na cara do jt) publicada ontem no era-o-dito.
segunda-feira
à boa teta
teta nova, mais branca que ovo,
poema de clément marot (1496-1544) publicado em à boa teta [tradução de andityas soares de moura]. crisálida, 2005.
teta de cetim branco novo,
teta que faz a rosa corar,
teta de beleza sem par,
teta firme, não teta, enfim,
pequena esfera de marfim,
no meio da qual se fareja
uma framboesa ou uma cereja,
que ninguém vê, tampouco toca,
mas assim é descrita em doce fofoca.
teta, pois, da pontinha vermelha,
teta que sempre imóvel semelha,
no ir e vir de seu caminhar
ou para correr, ou para bailar.
teta esquerda, teta sozinha,
teta separada da sua irmãzinha,
teta que é grande homenagem
para o resto da personagem.
teta, que desperta em moço e ancião
um grão desejo lá dentro da mão:
de te provar, de te possuir.
mas é preciso refrear o sentir,
o achegar-se assim tem que ser,
senão outras vontades verás florescer.
ó teta nem grande nem pequena,
apetitosa, desenhada a bico-de-pena,
teta que noite e dia implora:
“casa-me, casa-me agora!”
felizardo, eis como se chamará
aquele que de leite de t’encherá
fazendo de teta de donzela
teta de mulher inteira e bela.
cicciolina
you said everything revolves around a certain principal
you said everything depends upon our understanding of the political
my Cicciolina everything is physical
my Cicciolina everything's political
you're the butterfly goddess floating down
streams of love's jetting sperm fountains
everyone wants to consume you cicciolina
why should I be any different?
my cicciolina everything is physical
my cicciolina you fill me with a boa constrictor love
love like a fire
love like a flame
but you eliminate
there she goes again floating down those lovely streams of
those lovely streams of
my cicciolina everything is physical
it's all political
my Cicciolina
é uma musica do machines of loving grace
sexta-feira
cicciolina, la diva futura
sagitariana como eu, a oxigenada escandalizou a itália com uma meia dúzia de deliciosos atentados po(rno)é(ro)ticos. foi presa várias vezes e foi processada inúmeras vezes por atentado ao pudor.
por exemplo: nos anos 70, ela apresentava um programa de rádio onde ela dava conselhos sexuais de deixar qualquer penélope de cabelo em pé. uma noite, recebeu uma ligação de um adolescente que queria aprender a se masturbar. ela deu todas as instruções e a garota teve um orgasmo em cadeia nacional. audiência nas alturas. no dia seguinte, processo por perversão de menores.
cicciolina fundou na itália o partito dell'amore e foi eleita de-puta-da depois de mostrar a boceta pra todo mundo. ela explica que somente através do amor, digo: o amor!, as pessoas vão se tornar mais dignas e a violência diminuirá. "não é verdade que o sexo desperta a violência nas pessoas", ela insiste.
ela também dirigiu alguns filmes. il telephone rosso e la diva futura são dois verdadeiros clássicos. este último, de vanguarda, com maravilhosos elementos porno-dadaístas. quem quiser saber mais, leia a autobiografia dela, o livro confessions.
imprensa de rapina
só pra fechar, a revista óia se gaba ter sido a heroína que primeiro lançou a bomba sobre o Bob Jefferson. anda dando uma de heroína salvadora da lavoura. ninguém contesta os fatos em torno à corrupção nacional. mas ignoramos a maior parte das entranhas desse assunto. o que não acontece com o movimento literatura urgente. quem estiver afim de saber tudo sobre o assunto, as propostas e tudo mais, tá fácil fácil. então fico pensando cá com meus botões. se com a gente eles fazem isso, não quero nem ver o que fazem para foder a turma lá que já tá mesmo toda suja até o queixo! o brasil está viciado em heroínas!?
ainda sobre ontem...
um último comentário: o texto da veja realmente me deixou chateado. não apenas por causa da maldade inerente aos semanários nacionais, mas porque eu sei que no brasil essas idéias são bastante respeitadas. afinal, esse é um país onde os escritores são funcionários públicos que enquanto ficam morcegando, vão escrever uns livros clássicos aí tipo "a rosa do povo" e "memórias póstumas de brás cubas". eu só fico achando é que a revista dessa vez brincou com fogo, eles não deviam ter feito uma tolice dessas. escritor não é corrupto que fica abusando do dinheiro público não. é gente muito mais perigosa. desestabiliza a ordem. fica brincando... mesmo assim, eu deixo aqui uma nota triste e mudo de assunto.
quinta-feira
povim
só hoje é que fui ver a revista veja que publicou a infeliz matéria sobre o movimento literatura urgente assinada pelo jornalista jerônimo teixeira. o texto só veio comprovar o meu descrédito com a revista. da forma como está dito, faz parecer que o movimento visa um benefício do tipo que anda circulando por "malas" e "cuecas" para uma meia dúzia de escritores que, em sua maioria, não têm nem tanto espaço quanto o desperdiçado pelo ilustríssimo nazista que assinou o libelo. chegando na rede, fiz questão de dar uma olhada geral e ver o que os "acusados" por ele dizem, e gostei. dêem uma olhada aqui e aqui. comentário: nesse país de imprensa marrom não se pode nem ser escritor sem ser visto como um tolo ridículo. para quem não sabe, fomentos nacionais em favor da produção literária são prática salutar e muito bem vista. os mais pacientes, procurem pelas experiências bem sucedidas de países como a espanha, a frança e a irlanda, e me diga o que devemos fazer com jerônimos teixeiras e revistas óia. em tempo: é sempre bom lembrar que a revista veja, assim como todas as revistas brasileiras se encaixa também na lei que a torna isenta de qualquer imposto sobre impressão e sobre o papel onde ela imprime as suas falcatruas. confira na constituição brasileira. art. 150. sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à união, aos estados e aos municípios: VI. instituir impostos sobre: d. livros, jornais, periódicos e o papel destinado à sua impressão.
sexta-feira
projeto sertão mineiro
terça-feira
o bom menino
não saberei desamarrar os sapatos e deixar que a cidade me morda os pés,
não me embebedarei sob as pontes, não cometerei faltas de estilo.
aceito este destino de camisas engomadas,
chego a tempo nos cinemas, cedo meu assento às senhoras.
o longo desregramento dos sentidos me vai mal, opto
pelo dentifrício e as toalhas. me vacino.
olha que pobre amante, incapaz de jogar-se numa fonte
para trazer-te um peixinho vermelho
sob a raiva de meganhas e babás.
poema de julio cortázar. olha aí o original:
el niño bueno
no sabré desatarme los zapatos y dejar que la ciudad me muerda los pies,
no me emborracharé bajo los puentes, no cometeré faltas de estilo.
acepto este destino de camisas planchadas,
llego a tiempo a los cines, cedo mi asiento a las señoras.
el largo desarreglo de los sentidos me va mal, opto
por el dentífrico y las toallas. me vacuno.
mira que pobre amante, incapaz de meterse en una fuente
para traerte un pescadito rojo
bajo la rabia de gendarmes y niñeras.
sábado
céu e inferno (mirabilibus ex auditis et visis)
daí por diante, escreveu uma vastíssima (mais de 40 títulos), obra que fez a cabeça de uma pequena ralé literária: kant, goethe, balzac, dostoievski, william blake, charles baudelaire, w. b. yeats, s. t. coleridge, ralph w. emerson, henry james, august strindberg, é elogiado por paul valéry, aclamado por jorge luís borges e tema de uma das obras principais do poeta polonês czesław miłosz: ziemia ulro/land of ulro. no brasil exerceu influência apenas sobre um único poeta, o mais original dos românticos brasileiros: sousândrade. ele aparece no começo do inferno de wall street.
1. (O GUESA, tendo atravessado as Antilhas, crê-se livre dos XEQUES e penetra em NEW-YORK-STOCK-EXCHANGE; a Voz dos desertos: )
Desceram; o Inca há de subir...
Ogni sp'ranza lasciate,
che entrate
Swendenborg, há mundo porvir?
essa obra teológica deu origem à igreja swedenborgiana que, teologicamente, parece ter incentivado as incursões espirituais do francês allan kardec. segue aí o endereço do site brasileiro sobre a obra de swedenborg, organizado pela sua igreja brasileira (sede no rio de janeiro desde os anos 40!). vale a pena conferir: www.swedenborg.com.br
emanuel swedenborg
mais alto do que os outros, caminhava
aquele distante homem entre os homens;
chamava, apenas, por secretos nomes
os anjos. com sua visão mirava
o que não miram olhos terrenais:
a ardente geometria, o cristalino
edifício de Deus e o torvelino
nefando dos deleites infernais.
conhecia que a Glória e o Averno
estão na alma e suas mitologias;
sabia, tal como o grego, que os dias
do tempo são espelhos do Eterno.
em árido latim foi registrando
últimas coisas sem por quê nem quando.
o soneto é de jorge luís borges (swedenborges?). aí está o original:
más alto que los otros, caminaba/
aquel hombre lejano entre los hombres;/
apenas si llamaba por sus nombres/secretos a los ángeles. miraba/
lo que no ven los ojos terrenales:/
la ardiente geometría, el cristalino/edificio de Dios y el remolino/
sórdido de los goces infernales./
sabía que la Gloria y el Averno/
en tu alma están y sus mitologías;/
sabía como el griego, que los días/
del tiempo son espejos del Eterno./
en árido latín fue registrando/
últimas cosas sin por qué ni cuándo./
segunda-feira
cogito
eu sou como eu sou pronome pessoal intransferíveldo homem que iniciei na medida do impossível
eu sou como eu sou agora sem grandes segredos dantes sem novos secretos dentes nesta hora
eu sou como eu sou presente desferrolhado indecente feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou vidente e vivo tranquilamente todas as horas do fim.
20.10.70 torquato netodos sofrimentos cotidianos
Tricas...Nadinhas mil... Ridículos extremos... Enxame atroz que em torno à gente esvoaça. E disto, e só por isto envelhecemos... Nem todos podem ter uma grande desgraça!
poema do Mário Quintana
quinta-feira
Sobre tigres, lobos e cordeiros
Marcelo Coelho
Folha de S.Paulo, 22 de junho de 2005
Indicações de livros são sempre coisa arriscada; a rigor, só deveriam ser feitas a amigos próximos, a pessoas cujos interesses conhecemos bem. Mas quem atualmente se decepciona com o governo, quem já está decepcionado há tempo e quem nunca teve ilusão nenhuma a esse propósito talvez tire proveito de um pequeno e clássico livro de poemas de William Blake (1757-1827) que, pela primeira vez, é traduzido na íntegra para o português.
Trata-se de "Canções da Inocência e da Experiência", livro lançado neste ano pela editora Crisálida, de Belo Horizonte, com tradução de Mário Alves Coutinho e Leonardo Gonçalves.
Alguns poemas de Blake estão presentes em todas as antologias da literatura inglesa. São simples de ler, difíceis de entender e quase impossíveis de traduzir: é o caso de "O Tigre", texto hipnótico, obsessivo, que parece perseguir o seu leitor.
"Tyger Tyger, burning bright,/ In the forests of the night;/What immortal hand or eye,/Could frame thy fearful symmetry?" A estrofe inicial se repete no fim, como que "enjaulando" o poema, e as traduções não conseguem domá-lo completamente. "Tigre, tigre, flamante fulgor/ Nas florestas de denso negror,/Que olho imortal, que mão poderia/ Te moldar a feroz simetria?" – assim era a tradução de Paulo Vizioli, numa coletânea publicada há 20 anos.
Mário Coutinho e Leonardo Gonçalves mantêm a exótica ortografia do original e buscam seguir o ritmo de tambor na selva: "Tygre, Tygre, fogo ativo,/ Nas florestas da noite vivo;/ Que olho imortal tramaria/ Tua temível simetria?".
Melhor; ainda assim, parece mais fácil entender "in the forests of the night" em inglês mesmo, do que acompanhar a pirueta do "nas florestas da noite vivo"...
O poema, em todo caso, continua encadeando suas perguntas: "Que profundezas, que céus,/ Acendem os olhos teus? (...) Que martelo? Que elo? Tua mente/ Vem de qual fornalha ardente?". Em inglês: "In what distant deeps or skies,/Burnt the fire of thine eyes? (...) What the hammer? what the chain,/ In what furnace was thy brain?".
As seis estrofes repetem a mesma inquietação: de onde vem, quem criou, quem forjou esse animal terrível? O tom de ameaça culmina numa última questão: "Did he who made the Lamb make thee?" ("Quem te fez, fez também o Cordeiro?", traduz Paulo Vizioli).
O clima de terror romântico, a concisão e a eletricidade de alguns versos tornam "O Tigre" um poema inesquecível. Mas, de minha parte, sempre me pareceu que havia algo de inconvincente, não sei se de exagerado, de sensacionalista, naquilo tudo... Talvez porque um tigre não me pareça o animal mais terrível, mais demoníaco de toda a criação. A beleza do felino depõe, a meu ver, bastante a favor do Pai Celeste – que talvez não estivesse tão inspirado quando fez o cordeiro. De qualquer modo, um poema sobre o lobo, ou o chacal, talvez funcionasse melhor... Preferências zoológicas à parte, para mim é como se o poema de Blake estivesse tentando dizer uma "outra coisa" que não se revela; sua simplicidade não se entrega, parece fechar-se em si mesma.
Mas "O Tigre" pertence à segunda parte do livro – as "Canções da Experiência". Daí a vantagem da edição completa: é que na primeira parte, as "Canções da Inocência", pode-se ler o poema que faz par com esse. Trata-se, é claro, de "O Cordeiro" e imita a mais boboca e fofinha canção de ninar que alguém possa querer: "Cordeirinho, quem te fez?/ Pois tu sabes quem te fez?/ Deu-te a vida e deu-te pasto,/ Ribeirinho e largo prado;/ Lã macia e sem malícia (...)".
Em inglês, chama a atenção a mesma rima em "ight", que era tão sinistra no caso do tigre: "Little Lamb who made thee/Dost thou know who made thee/ Gave thee life & bid the feed,/ By the stream & o'er the mead; /Gave thee clothing of delight/ Softest clothing wooly bright (...)".
Com esta edição bilíngüe, o leitor pode então apreciar o paralelismo, as simetrias entre os poemas da primeira parte e os da segunda. Nas "Canções da Inocência", lemos versos otimistas sobre um limpadorzinho de chaminés que cumpre, feliz, o seu dever e vai para o Céu. Nas "Canções da Experiência", a realidade é bem outra. O prefácio de Mário Coutinho e Leonardo Gonçalves acrescenta informações importantes sobre aquele ofício, uma das mais horríveis modalidades de trabalho infantil inventadas pelo homem. Só crianças muito pequenas, é claro, podiam entrar nas chaminés para limpá-las; "seus joelhos e cotovelos, usados para subir, sangravam e ficavam em carne viva".
Blake, dizem os prefaciadores, foi sempre considerado um místico, um louco, um ingênuo pelos seus contemporâneos. Há, aliás, uma frase linda da sra. Blake a respeito dele: "Convivo muito pouco com meu marido. Ele está sempre no Paraíso". Gonçalves e Coutinho ressaltam a exatidão convicta com que o poeta denunciava os horrores do capitalismo inglês. Citam, por fim, o crítico Northrop Frye, para quem Blake pode ser lido em qualquer época e parecerá sempre estar se referindo às questões da atualidade.
Questões da atualidade? Não gosto de pensar que a velha "inocência" petista deu lugar à "experiência" destes dias de Delúbio e Marcos Valério. Seria nobilitar, como feitos de maturidade política, os entendimentos estarrecedores do partido com o fisiologismo. Não é também "maturidade", entretanto, o que se elogia quando Palocci e sua equipe recebem o assentimento do mercado? Quem fez Delúbio não fez Palocci?
Mas o poema de Blake, com seus cordeiros e tigres, não me parece vir tão a propósito agora quanto a frase de outro poeta, Paul Valéry: um lobo, diz ele, nada mais é que um cordeiro assimilado.
terça-feira
é bom demais ver os amigos se dando bem
saiu a lista dos vencedores do projeto arte no ônibus. um viva especial para Letícia Féres, Júlio César de Abreu e Silva, Leonora Weissmann e Sílvia Amélia
domingo
olha o blog do POESIAhoje de cara nova aí gente!!!
sexta-feira
a moda da moça bonita
querida mulher
sempre às sete da manhã
cheiro tanto o seu chulé
que às oito em ponto
estou completamente tonto.
nove horas: você me dá um fora
e noves fora
passa as dez e passa as onze
numa armadura de bronze
meio dia e meia
você ainda está de cara feia
e assim passa a sua tarde
com uma cara toda emburrada
enquanto o sovaco arde
decorando tabuada.
chega a hora do recreio
aí você se lembra de mim:
eu sou um cara manero
mas eu fui ao banheiro
e o banheiro estava cheio
uma fila enorme
todo mundo de uniforme.
quando toca o sinal,
é a hora final
pra fazermos as pazes
vou fazendo umas frases
de efeito garantido:
“só vivo contigo,”
“só penso em você,”
“dó lá si dó”
“sol fá mi ré”
“ré ré ré ré.”
mas você não dá bola
nem olha pra mim
um beijo de esmola
que é quase sem fim.
mas nem ligo pra isso
eu sei que você me ama
eu sei que você me quer
e um dia ainda me chama
pra cheirar pra sempre o seu chulé.
quinta-feira
novo porto
o salamalandro acaba de chegar a novo porto. depois de ficar de saco completamente cheio do uol, que cismou que meu blog alcançou o limite máximo, o salamalandro atravessa as barreiras do seu próprio incêndio e vem aportar aqui. mas vamos com calma. tenho ainda que aprender a usar.






