terça-feira

article 17 de la constitution française de 1958

"le président de la république a le droit de faire grâce."

eu sei que aqui não está dizendo que o presidente da república tem o direito de fazer graça e sim de perdoar. então, por que será que eu não estou conseguindo traduzir de outro jeito?

sexta-feira

crise nacional: psdb quer roubar sozinho, sem concorrência com o pt

li hoje que o psdb quer a cabeça do lula. o psdb perdeu as eleições e continua fazendo inferno. faz isso porque tem a imprensa do lado dele. tenho em minhas mãos uma lista de políticos mineiros (infelizmente ela não cabe aqui) que receberam grana das empresas do marcos valério para as eleições. tem muita gente do pt na jogada, sim. mas nesta lista constam 22 de-puta-dos do psdb e apenas 4 do pt (que sequer fazem parte da cabeça do partido - parece que o careca está mais ligado aos de sp). dentre os psdbistas, além do eduardo azeredo, encontro pimenta da veiga, o atual vice-governador clésio andrade, amilcar martins e muitos outros. só de minas. pelas informações que vi na tv globo, o psdb parece ser o mais assíduo cliente do pessoal (o que pegou mais grana), mas também parece que eles são menos inadimplentes que o partido do governo.

quinta-feira

:: outros bárbaros :: para quem estiver em sampa ::

semana que vem tem a mostra "outros bárbaros", no Itaú Cultural, de 17 a 20 de agosto, sempre às 19:30h. saca só a turma: ricardo aleixo, ademir assunção, frederico barbosa, chacal, rodrigo garcia lopes... e outros! entrada franca. vale a pena. olha aí o endereço:
av. paulista, 149 - sala itaú cultural
veja a programação aqui.

a mídia de rapina e a ficção (entenda-se, realidade)

essa semana eu me enchi o saco de toda a baboseira nacional em torno ao escândalo marcos jefferson x josé dirceu (porque a lama se resume a isso, com um careca enfeitando no meio). mas me interessa acompanhar palmo a palmo a novela que a mídia vai conseguir fazer a esse respeito. em qual conto eles pretendem fazer a gente acreditar. e o que é pior: a gente vai acabar por acreditar, porque a cultura nacional associa o termo realidade ao que é dito na imprensa e na televisão. por isso, me interessa por demais essa ficção.

enquanto isso, fico de olho no que a "outra imprensa" diz a esse respeito. anteontem, o marcos valério entregou para o relator da cpi uma lista de 79 nomes de pessoas e empresas que receberam grana para a campanha do psdb em 1998. pensei logo: tá aí uma lista que não vai ficar à disposição do povo, pois a imprensa não vai dar nenhum destaque. mas se você quiser saber, clique aqui e saberá. mas se você quiser saber mais detalhes sórdidos, pode também clicar aqui que tem uma longa reportagem explicando tudinho.

mas a minha nota estarrecida não é sobre nenhum escândalo, nem sobre nenhum marcos jefferson, nem sobre o josé dirceu que tá ferrado, todo mundo sabe. nada disto. é que eu ainda não tinha me atentado para um detalhe: o relator da cpi é ninguém menos que o deputado ibrahim abi-ackel. para quem não se lembra, ele foi o ministro da justiça do general figueiredo. o ministro da justiça. na época houve um grande escândalo em torno ao desaparecimento de pedras preciosas e ele era o principal envolvido. o minstro da justiça. hoje deputado e relator da cpi. dá o que pensar.

terça-feira

ibrahim ferrer cantava com os olhos



silencio, que están durmiendo los nardos y las azucenas

morreu anteontem o cantor cubano ibrahim ferrer. o único cantor que já ouvi que sabia cantar com os olhos. a síncope da canção cubana delirava na boca do negão, canção de olho pra olho. olho no olho. olho por olho. foi cantar com o compañero compay no outro jardim. valeu.

mídia brasileira começa a querer a cabeça de lula/ lula oferece a cabeça para a mídia de rapina

até certo momento, a imprensa de rapina parecia querer poupar o presidente lula no meio das denúncias e armadilhas. agora, o quadro está mudando. lula está na mira dos jornalistas. a revista veja é o grande panfletão na jogada anti-pt, mas não só. quem, como eu, é leitor de entrelinhas (além das linhas de fato), poderá enxergar puro discurso na foto que saiu hoje no jornal Estabulo de Minas onde aparece o presidente no meio de um imenso bololô de aeroporto. o segurança que aparece de costas ao lado do de lula é um careca que dá a impressão de ser o marcos valério.
ilusões de ótica à parte, já começa a me irritar a falta de atitude do barbudão, que tem feito uma peregrinação bonita pelo brasil afora, mas está se esquecendo que política é articulação (que é, aliás, o nome da tendência dele dentro do pt) e que enquanto ele não faz nada, nem toma postura, nem coordena as movimentações e, o que era mais urgente, não dá satisfações à população, as coisas vão ficando cada dia mais sujas. a articulação está na mão de apenas um: o que assumiu ser fedaputa mesmo, o roberto jefferson (está conseguindo a cabeça de todo mundo que ele quer). e em breve, a mídia de rapina acabará por ter razão no meio da confusão.

domingo

ptm (política tradicional mineira) ou para que serve manter a imagem da tradição?

o jornal estábulo de minas, o grande curral dos mineiros, publicou hoje, domingo, no seu editorial (estampado na primeira página) uma imensa nota repudiando a constante presença de minas gerais entre as listas do marcos valério e no escândalo nacional. eles querem fazer a gente acreditar que a velha tradição política mineira é a grande maravilha do brasil. fazem uma lista que inclui o bias fortes, o antônio carlos e mais uma corja de fedaputas que sacanearam o brasil durante muitos anos achando que isso é alguma vantagem.

esqueceram de falar que foi por causa da imprudência do magalhães pinto (governador de minas gerais) que a ditadura militar começou. aliás, falaram em um político supertradicional: o aureliano chaves (era o vice do general figueiredo). então, eu fico aqui pensando cá com os meus botões como que o famoso ptm é, na verdade, um jeito de camuflar toda a corrupção de que esses caras são capazes. samba é sempre a mesma história, já dizia o macalé. aí vai uma pequena lista dos mineiros que estão sendo investigados pela cpi dos correios e que a mídia não diz nada a respeito. (quem quiser, me escreva para maiores detalhes). paulo menicucci (psdb), pimenta da veiga (psdb), cristiano paiva neves (psdb), josé luiz alves (psdb), cantídio cotta de figueiredo (ptb), nestor francisco de oliveira (pfl), ademir lucas (ex-prefeito de contagem, psdb) a lista é longa. com tudo isso, dá pra notar que a mídia brasileira se tornou um grande panfleto anti-pt. por que ninguém fala nesses caras, só em pt? eu, que sou desconfiado, fico achando que tem ainda algum coelho escondido nessa cartola. e é contra a mídia.

sexta-feira

câmara setorial do livro

e afinal, como eu disse no outro dia, na videoconferência da semana passada ficaram escolhidos os representantes da região sudeste. escolha dos representantes das cinco macrorregiões do país será anunciada em agosto pelo ministro gilberto gil. esta foi a forma encontradapara evitar que fossem indicados representantes de um único segmento nas regiões, o que poderia gerar um desequilíbrio na composição de câmara, que terá 44 membros do estado, setor privado e terceiro setor.
os representantes da região sudeste são: Maria Antonieta Cunha, de BH, Sílvio Dante Folli do ES e Vânia Rezende, do RJ. SP abriu mão do seu representante em favor de BH. a escolha não foi muito favorável para o povo do literatura urgente, do qual faço parte, mas também, os caras não colaboraram muito.

quarta-feira

] ao meu redor [ andityas soares de moura

o estudo me fez espirituoso


E todos os dias parecem reclamar
seu quinhão de sombra e de desassossego,
enquanto nós, com o silêncio de gestos
muitas vezes repetidos, construímos o
torpor, a catatonia de um mundo que se entrega.


do livro FOMEFORTE

tem um comentário do poeta irlandês w. b. yeats sobre pound, onde ele diz: “esse é um poeta de cuja teoria eu discordo completamente, mas que a ele estou ligado por questões que ultrapassam a estética” (estou citando de cabeça). agora já deve ter passado uns oitenta anos desde que yeats escreveu isso, e olhando de outro continente, em outro contexto histórico (livre dos fascismos que iludiram os dois grandes camaradas de que eu falei), posso agora brincar de gente grande e falar o mesmo sobre este meu parceiro. e falarei em forma de relato.

andityas soares de moura é um poeta português, filho de pais brasileiros e nascido em barbacena, interior de minas gerais, estado onde sempre viveu. como estrangeiro que é, onde quer que esteja, vive assumindo em sua poesia uma persona nova, que inclui uma língua e uma forma específicas. mas que ninguém se engane: todas elas transitam num mesmo espaço, onde a realidade é apenas um elemento em meio aos diferentes artifícios aos que ele se apega para os seus versos.

certa vez, num sarau que fizemos numa livraria onde trabalhei há muitos anos atrás, o andityas, tendo lido alguns dos meus poemas, me veio com a seguinte resposta: “estás compromissado com a modernidade”. pouco depois, pude ler o seu primeiro “poemário” (como ele o chama), Ofuscações. achei, e ainda acho, extremamente romântico, deslumbrado com rimbaudismos, traklismos, vangogoghismos, delírio verbal sem artifício, um tanto quanto retórico. pensei: “esse cara está compromissado com o passado.”

lentus in umbra

quando o reencontrei, anos depois, ele tinha nas mãos o seu mais novo livro, cujo título confirmava a minha suposição: lentus in umbra (imagina! se fosse dos meus, não pensaria duas vezes em meter o título em língua brasileira. brasileiríssima, aliás: tranqüilo na sombra. mas o fato é que gosto do livro, e talvez não gostasse se tivesse o título que sugiro). o título, tirado da écloga I das bucólicas de virgílio. nesse livro, aparecia algo de novo: o elemento ezra pound, make it new. lentus in umbra foi logo traduzido na espanha e publicado pela prestigiosa editora trea. havia-se acrescentado ao caldo, uma imensa paixão pelos cantares d’amigo medievais em todos os seus desdobramentos: galaico-português, provençal, francês, catalão, castelhano e o que daí surgiu em termos de poesia nas línguas neo-latinas.
PAX ROMANA Tu, deitada no templo, decifrando as escuras pilastras da casa, ouve minhas palavras metálicas. Ainda hoje saborearei teu corpo, quer m’ofereças, quer não. Jasmins tenho em minha carroça para impressionar teus gostos arrojados; serei um afável salteador, roubando-te as mais pecaminosas excitações cerebrais. Ainda hoje tu te deitarás comigo no prado. Afastemo-nos da cidade. Então apresentar-te-ei vários elixires, temperos raríssimos. Os milênios serão nossos confessores. (de lentus in umbra)

OS enCANTOS

daí, em 2002 conspiramos e acenamos com uma possibilidade (hoje concretizada): publicar pelo selo in vento o seu livreto outsider OS enCANTOS. como leitor, considero este livro uma grande homenagem ao mestre pound (andityas é hoje um dos poucos poetas, talvez o único, que puderam se arriscar na empreitada de ser poundiano em terras brasileiras, o que só é possível com muita erudição).

OS enCANTOS é o livro dele pelo qual tenho maior simpatia. é que nele a ousadia é deslavada. faz jus ao verso de um poema de lentus in umbra: “o estudo me fez espirituoso”. fica numa fronteira idiomática própria de momentos sociais de tensão. guerra. festa. fresta. fantasmagoria. carnaval. é a veia janequiniana do andityas.

daí pra frente, estreitamos a amizade. tive a honra de revisar ponto por ponto a sua inventiva tradução da poeta galega rosalía de castro, o recém publicado a rosa dos claustros (crisálida, 2004). pouco depois, fizemos contínuos trabalhos em torno à poesia de um argentino que ambos admiramos muito (todo mundo já o sabe), juan gelman, grande parceria! o a.s.m. publicou ainda o livreto à boa teta, com poemas licenciosos do século XVI francês.

continua...

FOMEFORTE

“um homem fica muito aterrorizado por uma fome forte; e esse terror é a raiz de toda crueldade.” (d.h.lawrence)
tudo isso pra dizer que acaba de chegar o mais novo livro da imensa prole de andityas: FOMEFORTE. também faz parte do selo in vento e esta edição tem a parceria da editora crisálida. a palavra dele amadureceu, as ilusões se acalmaram no peito, as amizades se firmaram. t.s.eliot, rûmi, laforgue, molière. o verso duro é saudado por ninguém menos que glauco mattoso e o nosso grande mestre: juan gelman, que assinam orelha e contra-capa.

a dureza dos poemas é um contrapeso diante de uma coisa incerta que cerceia todo o “poemário”, a insegurança causadora de tensão. como o andityas é um poeta partidário da razão, dá uma puta tentação de enfileirá-lo na turma dos limpinhos e higiênicos poetas da minha geração (não vou citar nomes aqui). mas a verdade é que a poesia desse português das minas (lembrem-se da fama de barbacena torno aos hospícios) respira a uma vivacidade incomodante, misturada com o pedantismo próprio das línguas românicas. pensamento conciliador, o demônio das coisas concluídas e bem arranjadas, a voz dos ofendidos na guerra. vida atual. tempo atual. em cumplicidade com o tempo insistentemente obsoletizante, desobsoletizando-o. contra uma mera moral. a favor de outro tipo de bons costumes.

não é um poeta para escolinhas de adolescentes. não é nenhum partidário da certeza, como tantos. é um cara vivo e atento. antenas viradas para um outro lado sem o grande bocejo da vida dita “real”.

quem quiser encontrar as obras de a.s.m na internet, está fácil: OS enCANTOS e lentus in umbra estão disponíveis na web. leia os livros do andityas aqui.

3 poemas do livro FOMEFORTE

AUDIÇÃO PARTICULAR 2
Violin-Sonate nr: 9 in A-Dur [Opus 47]

já te disse:
lambuza-te de
mel
e terás minha atenção

e t’encontrava
nas plácidas
horas digestivas
(após o almoço)

nada poderia
ferir mais que
a ponta dos joelhos

talvez somente o
1° movimento
da sonata Kreutzer

e tu soavas
a cada gemido

as molas: piano
o gozo: violino


A CAPA DO CRITÉRIO (ESTUDO 2)

mulheres de plástico
é do que precisamos

com seus dedos de plástico
cheiroso transparente (vítreo)
lustroso (vinil) virgem
pisariam as
ruas

haveria delírio frenesi
ruptura

Tiradentes

3.
(excursus)

cravei a memória
do meu sono
neste sino
e perguntei:
é 1 real a entrada?

não, não,
fio,
só si a
pessoa quisé
ajudá
explicit canto

telesur

entrou no ar no último domingo a telesur. a belíssima iniciativa tem sua base na venezuela e estará no ar em toda a américa latina. incluindo o brasil, é claro. o objetivo é uma emissora de tv para uma integração entre todos esses países, facilitando o contato e a irmandade. uma emissora assim já vinha sendo idealizada há muitos anos por intelectuais de grande importância como eduardo galeano (uruguai) e fernando solanas (Argentina). entre os organizadores, tem também o walter salles e o fernado morais. o canal promete. para se ter uma noção melhor da iniciativa, clique aqui. o endereço do site da emissora é www.telesurtv.net

descoberto uso do valerioduto por eduardo azeredo

deu ontem na primeira página do "o globo" mais um furo jornalístico: encontraram documentos que informam sobre o uso do valerioduto na campanha de 1998 para governador do atual senador eduardo azeredo. a notícia não circulou em minas gerais. os jornalistas mineiros têm medo de noticiar qualquer informação que possa denegrir a imagem do atual governador, o nosso queridíssimo aécio neves que tem o displante de conseguir a demissão de qualquer um que se aventurar a fazer isso.

segunda-feira

piores poemas

essas traduções ganharam "menção honrorosa" na bienal dos piores poemas, em 2004. parabéns. os autores? claro, eu, a letícia féres e o anderson almeida.

O Mar Português
Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.


.................

Omar, Português

Mar Morto, Mar Mita, Mar Mota

Omar Salgado, quanto do teu sal
Veio salgar meu bacalhau!
Por nos cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantas noivas na mão ficaram!
Quantas moças estão a navegar
Para que fosses o meu Omar!

Foi bom pra você? Se a sardinha não for pequena
Ainda vale a pena!
Quem quer passar a mão no beijador
Tem que pegar no trovador.
Dei, Omar, para o Pedrinho e pro Francisco dei,
Mas como você jamais provei.

.......................

Alma minha gentil, que te partiste

Luiz Vaz de Camões

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.


E se vires que pode merecer-te
Alg?a cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

.....................

Ó maminha gentil, que te partiste

Para Glauco Mattoso

Cecil B. DeMilus, Sophia DuLoren, Laurinha Trifil

Ó maminha gentil, que te partiste
Tão cedo deste corpo adolescente,
Lembra da tua irmã, discretamente,
E viva eu aqui, sem ti, em riste.

Se lá no lado esquerdo já caíste
E sonhas em voltar aqui pra frente,
E com vergonha a sua dona, deprimente,
Não tem como esconder e fica triste.

E se ainda quiseres reerguer-te
Pois arranjes reforçado sutiã.
Dou-te com bondade esse macete.

É de graça. Mas já sei, caída irmã,
Que por enquanto só vou ver-te
Indo à puta-que-pariu de rolimã.

Poesia aqui e agora

Estado de Minas, Caderno Pensar (19/02/2005)

por Mário Alves Coutinho


Leo Gonçalves, em idade cronológica, é um poeta novo; mas como as vias e os caminhos da poesia são mágicos (mas não só; a poesia é magia, mas realismo também), ele tem um conhecimento e uma sabedoria do mundo que vão além dos anos vividos. Quando ele escreve, num de seus poemas de das infimidades que “um poema bonito/ seria assim assim como um poema conflito”, ele já intuiu, mas provavelmente já deve ter vivenciado, algo que William Blake, já sabia: “Sem opostos não há progresso. Atração e Repulsão, Razão e Energia, Amor e Ódio, são necessários para a existência humana” (O casamento do céu e do inferno).

Para ele, a beleza não existe somente no ideal, no etéreo, no excepcional, mas na realidade, no cotidiano, no dia-a-dia. Leo Gonçalves é daqueles poetas que procuram pensar e falar da sua experiência, por mais pequena e ínfima que seja, e daí extrair conhecimento, sabedoria, música, quer dizer, poesia. Do etéreo, ele também trata, só que com ironia: “Até gosto às vezes/ de brincar de anjo/ do que não gosto/ é da tremenda dor/ que me fica depois/ nas asas”.

Assim é a poesia de Leonardo Gonçalves: minimalista, reduzida ao essencial, preocupado em extrair beleza (e conhecimento) da vida mesma que ele leva, em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Pois, como escreveu Octavio Paz, em O arco e a lira, “o poeta escuta o que o tempo diz, ainda que ele diga: nada”. O tempo pode dizer o amor (“deve ter algo no céu/ da sua boca/ que me faz brilhar”, que lembra outro poema em prosa de Blake, “aquele cuja face não ilumina, nunca se tornará uma estrela”) ou, talvez, o desespero (um poema em que repete os refrões, “e você ria”, “você não vinha”, “você mentia”). Mas o tempo, através de Leonardo Gonçalves, está sempre dizendo que a vida é horror e delícia, claridade e escuridão, noite e dia, tudo junto, inseparável (e é isto que, finalmente, faz a sua beleza): “Quando eu morrer/ favor anotar no final da minha paixão:/ morreu de tanto viver”.

Aí está toda a magia da poesia, em sua beleza e completude: até mesmo o ato de morrer, pode ser, contradição suprema, uma afirmação, na verdade e ainda um ato de vida. Pois, como escreveu William Blake, “tudo que vive é Sagrado”. Ou, como afirmou Octavio Paz, “poesia, momentânea reconciliação: ontem, hoje, amanhã; aqui e ali; tu, eu, ele, nós”. Poesia, como bem sabe Leo Gonçalves, é conflito, mas também reconciliação.

o mal da imprensa ou o jornalismo transgênico

aqui no brasil, é a imprensa quem define os destinos que iremos tomar. o discurso é o seguinte: o povo tem direito de saber tudo o que acontece. é dever da imprensa divulgar o que se passa nos bastidores de tudo. temos o dever de informar a verdade para as pessoas. blablabla. e assim, eles nos informam da verdade deles. porque o problema é que nem todo mundo sabe que a verdade é adaptável para as diferentes necessidades. e então, cada jornal e cada emissora de tv adapta a verdade a favor de alguém. os jornais têm os mesmos problemas que os transgênicos: ninguém sabe a quem eles estão servindo. por isso, deveria vir na primeira página de cada jornal, algo parecido com os rótulos avisando sobre os produtos transgênicos. imagina se viesse escrito nos jornais, como O TEMPO, por exemplo, o seguinte aviso: "este jornal é imparcial em favor dos interesses do psdb." ou ESTADO DE MINAS, "o grande jornal dos mineiros sempre a favor do governador." acho que assim estaríamos melhores. na história da histeria atual em torno à corrupção, deveríamos agora lutar por algo como uma CPI da imprensa brasileira ou a criação de mecanismos que obriguem os jornalistas a se tornarem mais sérios. afinal, algo precisa ser feito. e com urgência.

quinta-feira

literatura de bordel

para cicciolina e marcelo companheiro
o jornalista fotografa
a boceta filet-mignon da prostituta
aqui tudo pode
(ensaio com 75 poses caras e bocas e perversão)

de longe vem o rugido da horda
alegria um velho safado
consolo no rabo
porta aberta em senhorita lusbel

o guarda no batente se levanta
aponta o cassetete pra fazer seu certo
dá revista completa no sujeito
e termina pagando boquete
o ensaio sai no jornal nacional

nessa orgia deslavada
todo coitado quer meter o pau
repórter mariquita recatada
quis mamar na teta seca dessa vaca
cobriu a batucada na semana passada
voltou prenhe de um casal de maritacas

por aqui, tudo é amor
aqui todos tomam nos cus
seu tião faz sacanagem pura
pra avisar que o que é bom se faz aqui
o buraco não é só embaixo
& a festa é na coluna social
todos os direitos reservados:
conversa de microfone, classe média no mediano
grana jogada de grila, verdinhas, verdinhas e verdões

mas quem mais ganha nessa brincadeira
é a puta e o delegado, o programa do jô e o jornal nacional:
glória à audiência nas alturas,
e putaria aqui na terra, amém.

rapidinhas

mais sobre a imprensa de rapina

soube ontem que o financial times, um jornal altamente capitalista, levantou a discussão do problema da mídia brasileira. segundo eles, passados os vinte anos do fim da ditadura militar, a imprensa brasileira ainda continua tentando levantar estratégias para engambelar o leitor e não ter que responder por supostas acusações que faz inadvertidamente. de fato, a luta pelo "furo" de reportagem é um dos maiores males da cultura brasileira e chega a ultrapassar os limites da mídia. a suposta "novidade" é o nosso fetiche maior, não nos preocupando nunca em ter bases firmes para agüentar problemas realmente graves.
zona de invenção poética &
saravá! o puxador da bateria, ricardo aleixo, voltou a entoar o bordão: datas alteradas, a notícia é boa. o zip, que aconteceria no ano que vem, agora acontece em setembro deste ano, em belo horizonte, com os poetas da linha de fronteira. a bienal de poesia, que aconteceria neste setembro, fica remarcada para o ano que vem. mais notícias, no jaguadarte. revista mondana
seja benvinda! para quem se lembra e já se deliciava com o fanzine idéias bizarras, começa a circular de maneira igualmente deliciosa (e gratuita!) a revista mondana, em formato grande e repleta de novidades e curiosidades interessantes. como avisa a editora christina castilho, variedade no melhor sentido da palavra. ah, se toda mídia fosse assim...