quinta-feira

men at work

é, pessoal. resolvi mudar o visual. peço desculpas pelos transtornos de cor. nossos funcionários estão desenvolvendo pesquisas na complicadíssima ciência do html para melhor atendê-la-lo. enquanto isso, vai dando aí os seus palpites...

angeli: a biografia não autorizada de fhc

a biografia não-autorizada de fhc feita pelo angeli é um grande marco da literatura contemporânea. está disponível neste endereço : www2.uol.com.br/angeli/fhc
pra que serve? para a gente poder se lembrar o que foi o governo anterior, já que temos tão pouca memória.


vai haver a luta contra o m.a.l (movimento anti-lula)?

podem falar o que quiserem, entre todas as opções que estão aparecendo no mercado, cada vez mais eu reafirmo: voto no lula este ano se ele sair mesmo como candidato.
da imprensa, os jornais apontam seus mísseis. usam cada palavra dele contra ele mesmo. as manchetes não perdoam. e eles usam de todos os recursos visuais e outros mais para pintá-lo como um verdadeiro demagogo-populista.
o curioso é que o arroz hoje custa R$8,00 e no governo fhc custava R$13,00. o dólar caiu sem ser indexado. o povão está feliz com ele. e eu acho q os mísseis não alcançarão a meta.

quarta-feira

lubricidade

quizéra ser a serpe venenosa
que dá-te medo e dá-te pesadelos
para envolver-me, ó Flor maravilhosa,
nos flavos turbilhões dos teus cabelos.

quizéra ser a serpe veludosa
para, enroscada em múltiplos novelos,
saltar-te aos seios de fluidez cheirosa
e babujá-los e depois mordê-los...

talvez que o sangue impuro e flamejante
do teu languido corpo de bacante,
da langue ondulação de águas do rheno

estranhamente se purificasse...
pois que um veneno de aspide vorace
deve ser morto com igual veneno...


esse poema-angorô, sonata serpeante em 's' e 'z' é do cruz e sousa,
que comemora seus 145 aninhos esse ano.

segunda-feira

direito autoral: seja criativo

uma das questões que mais têm me interessado recentemente é a dos direitos autorais. como e o que fazer do copyright, do copyleft. que tipo de relação os autores têm com a sua obra e como é possível buscar uma saída alternativa à mera proibição de reprodução que aprendemos a ver nas capas de discos e começos de filmes de locadora.
daí, na semana passada, o marcelo terça-nada, meu amigo do vírgula imagem colocou no seu blogue uma dica ótima: o site do creative commons, que tem um filme bem legal explicando de uma maneira ótima o que se pode fazer quanto a isso. o site, aliás, é bem rico em informações. para quem quiser saber mais os detalhes: é só clicar na logomarca da creative commons. não me demorarei muito explicando, pois lá já diz bastante.

quinta-feira

dansa é com “s” ou com “ç”?








os dicionários grafam sempre com ‘ç’. mas gosto de escrevê-la com ‘s’, dansar. segundo o houaiss, esta palavra vem do francês (“danser”) que já a escrevia assim, no ano de 1170. na língua portuguesa, também era assim até a primeira reforma ortográfica do século xx, em 1944.

porém, guimarães rosa, que publicou seus escritos somente a partir de 1954, sempre grafou o vocábulo assim: dansar. “uns mosquitnhos dansadinhos, tanto de se desesperar”.

a explicação que mais gosto está no livro de antônio risério, o oriki orixá: “numa conversa, a bailarina suki [villas boas] me disse que achava uma contradição escrever “dança” com “ç” e não com “s”, já que o “ç” era uma letra visualmente capenga, desengonçada, enquanto o “s”, em seu desenho sinuoso é uma letra danSarina.”

risério, que, como eu, é filho da deusa da dansa e do vento, achou que suki estava com a razão. e eu também acho.

quarta-feira

a divertida história do padre que se pintou

o padre pinto pintou a cara na bahia. o vaticano não gostou. mandaram ele descansar. acho que só os padres jesuítas se deram o direito de dansar com os índios no brasil. será que só no brasil é que já se viu um padre dansar?

o padre pinto pintou a cara, pintou o corpo, cantou com o povo, fez dansa de roda no dia de reis, desmunhecou como no carnaval. foi jurado no concurso de beleza negra, passeata beneficente pela rua. um verdadeiro herói. merecia ser celebrado num livreto de cordel, cantado pelas bandas de axé e de hip hop, virar samba de enredo. um ícone do terrorismo poético. uma verdadeira lenda viva. deveria ser canonizado pelo povo.

que a igreja católica mande ele passear, não assusta a ninguém. afinal, o sonho da maioria dos padres era fazer o mesmo, não? só não fazem por medo do papa. e o medo, todo mundo sabe, é uma das drogas mais pesadas.

e ele ainda disse, com aquele arzinho de pessoa ingênua e do bem: “é melhor se pintar por fora do que se manchar de hipocrisia por dentro”.

segunda-feira

tem kafka no kafé k

tá rolando lá no francisco nunes. além da excelente peça "a acusação", tem o kafé k. e nele, uma exposição-instalação onde você encontra trabalhos, entre outros, do michel (o dos olhos de mel) mingote. para ver a programação, procure aí nos linkes o site do "grupo oficcina multimédia". se vira, pô, você não é quadrado (a). mas vá rápido, porque é só até o dia 22 de fevereiro.

quinta-feira

áfrica, essa desconhecida

é o poeta antônio risério quem lembra a imensa dificuldade que há em se falar da áfrica. nossa ignorância sobre o assunto começa em nós mesmos. por mais óbvio que seja, sempre que falamos de coisas d’áfrica, pensamos a partir dos preconceitos e dos desvios que a história deixou. seria ocioso ficar lembrando as inúmeras vezes que falamos desse continente demonstrando profunda falta de conhecimento sobre o assunto.

recentemente incluído nos programas do ensino fundamental do mec, a história da áfrica é agora um assunto urgente e a nossa ignorância precisa acabar. nesse sentido, o livro que a editora crisálida publicou recentemente é uma lamparina no meio da escuridão. nele, os autores (uma angolana radicada no brasil e um brasileiro) demonstram extrema paixão pelo tema e se a obra peca em algum sentido, é porque o caráter introdutório não permitiu que os autores se prolongassem nos detalhes. adianto que cumpre bem o papel de história crítica.

“usualmente, associamos idéias e noções estereotipadas que constroem e são construídas por uma imagem de uma áfrica tribal, tradicional, arcaica, com negros em trajes pré-industriais e armas primitivas, buscando seu alimento nas savanas. nestas representações, a áfrica aparece como distante, como separada de nós por alguns séculos. sugerem que nós, (os tupiniquins) participamos da civilização ocidental e nisso nos distinguimos dos “negros-africanos-tribais”. procuramos buscar elementos que mostrassem os limites dessa simplificação e que colaborassem para pensarmos o continente em outros moldes.”

é o que os autores dizem na introdução à introdução. de minha parte, gostaria que muitas coisas ainda neste mundo começassem a ser pensadas em outros moldes. mas se começarmos apenas por esse, já será um grande começo.

terça-feira

deu ontem no O (perda de) Tempo



o jornal o (perda de) tempo publicou ontem no seu caderno magazine uma excelente matéria assinada por bruno loureiro. nela, aparecem comentários de makely ka, zéfere, alguns editores e este salamalandro que vos fala. o assunto é o mercado editorial e sua difícil-dificultosa relação com os poetas nascentes (e/ou vice-versa).

é preciso dizer que loureiro merece louros pelo trabalho. enquanto conversávamos, pude ver que ele perscrutava o assunto com curiosidade, levantando as questões primordiais, como um detetive, e pelo resultado, deu pra ver que ele correu atrás. é raro um jornalista que faz isso. normalmente, eles estão apenas preocupados em reafirmar o que já sabem ou que estão engastados num não-saber-agindo- como-quem-sabe-porque-a-verdade-jornalística-é-eterna-e-única-acima- de-todas-as-outras.

mesmo assim, na página impressa, aparecem equívocos e distorções. na legenda sob a minha foto, o editor declara que estou “desiludido com as leis de incentivo e os concursos literários”. ora bolas, eu jamais diria uma bobagem dessas. as leis de incentivo são uma excelente conquista para quem produz e vive de bens culturais. são passíveis de críticas, é claro, como tudo nesta vida (e especialmente no nosso país da batucada). mas eu não diria propriamente que estou “desiludido”. na verdade, podem achar paradoxal, mas eu nem mesmo lamento o estreito espaço que existe para os “neófitos”.

o que eu queria dizer, e não está expresso no artigo, é que o poeta iniciante que se ilude com a idéia de recorrer à lei pode ficar decepcionado com o resultado. e que, se o escritor pretende realmente publicar suas palavras, que recorra a algo mais certo, e isso em linguagem poética quer dizer que ele deve “fazer justiça com as próprias mãos”. é assim há muito tempo, não há nada de mais. pelo contrário, é sinal de a(r)titude. e o papel do artista na nossa sociedade não é o de sair publicando livros por aí: é fazer com que a bomba exploda em algum lugar. e isso não acontece se não houver atitude.

eu poderia ficar aqui citando uma imensa lista de nomes: borges, juan gelman, manuel bandeira, drummond, paul éluard e por aí vai. infelizmente (ou felizmente) todos eles tiveram que bancar o seu primeiro livro. c’est la vie. é como me disse o meu amigo ian guest: “não adianta ficar lutando contra os buracos na calçada”.

concordo com o juan: o simples fato de existir pessoas fazendo poesia já é um ato subversivo, mas isso não quer dizer que essa pessoa vai arranjar editores da noite pro dia porque revelação é uma coisa e subversão, outra muito diferente. e, não dá pra esperar que aconteça como na música, na prosa e nas artes dadas ao consumismo: o escritor precisa mesmo é ralar ralar ralar. não apenas para ser um bom escritor: alguns dos nossos melhores poetas, de pedro kilkerry a sebastião nunes, quase não são lidos.

a lista dos mais vendidos é uma das manifestações do que eu chamo de “desvios psíquicos da imprensa de rapina”: só tem serventia na sociedade consumista. e o público leitor de poesia (multidão de sanchos panças), no momento em que estão procurando versos para ler, não se encaixa nessa dita sociedade. “o sucesso não vem por acaso”, não é seu lair?

mas, enfim, podemos sobreviver a esse jornal. afinal, imprensa é assim mesmo. não se preocupa muito com a exatidão das palavras, muito menos com o que vão pensar (d)os seus entrevistados. e pra terminar bonito essa bonita postagem, vou citar o jorge luís borges (quem diria!) que diz: “passemos à poesia; passemos à vida. e a vida, tenho certeza, é feita de poesia.” (atenção: feita de poesia, não de jornalismo) e para completar os dizeres do velho jorge: “livros são apenas ocasiões para a poesia”. precisa dizer mais?

domingo

campanha de popularização do teatro

em belo horizonte, todo mundo sabe: para quem não sai para a praia no verão, tem a campanha de popularização do teatro. há pouca movimentação cultural para além disso na cidade. os artistas esquecem a existência, as galerias fecham (a maioria), os músicos vão para o litoral baiano, só alguns poetas ficam por aqui fazendo o mesmo de sempre: reclamar e tomar café. uma cervejinha de vez em quando também.

mas a campanha de popularização do teatro, também conhecida como campanha das kombis, é um projeto interessante. não é um festival. não é uma celebração. não é uma iniciativa governamental. tenho a impressão de que é quase um protesto público dos atores que dizem “hei, nós existimos”. e, vendendo seus ingressos a um preço único e módico (este ano está custando R$7,00), o teatro mineiro contemporâneo, pouco a pouco, acabou por tomar um fôlego, produzindo peças que vão além das meras comédias de pornografia para a família e piadas baratas sobre o homossexualismo com péssimos atores.

este ano a campanha está na 32ª versão. pouca coisa dura tanto tempo nesse país da batucada. a cena belorizontina fica fria o ano inteiro. então, no calor do verão, os atores se empenham e apresentam dezenas de peças que atendem a todos os gostos e de todas as qualidades. a idéia é tão interessante que não entendi ainda por que os artistas das outras áreas não criaram algo parecido para eles. imagino que um projeto assim voltado para a música, a poesia, mesmo para as artes plásticas, poderia ser o princípio de um acontecimento inédito no país: a possibilidade real de interação entre artistas e público.

já ouvi dizerem que na verdade esta é uma “campanha de vulgarização do teatro”. mas mesmo isso acabou por tornar-se uma desculpa esfarrapada. é certo que a maioria das peças primam pelo mau gosto, a falta de preparação dos atores, enredos e temas apelativos e comédias de riso tragicamente fácil. mas pude ver algumas peças nesta temporada que me reafirmaram o que eu já sabia: existe teatro bom em bh (eu não era capaz de dizer isto há dez anos atrás). ainda não é a maioria, infelizmente. mas com três grandes escolas na cidade e alguns grupos premiados, como é o caso do galpão, giramundo, luna lunera e cia espanca, podemos finalmente esperar fortes emoções. mas independente da qualidade, precisamos jogar fora os preconceitos e constatar ao menos esta verdade: a iniciativa da classe teatral é um grande exemplo a se seguir.

luna lunera e a peça "não desperdice sua única vida ou..."

patrícia me levou para ver essa peça na semana passada e desde então não me sai da cabeça. até pensei em escrever algumas palavras inteligentes sobre o assunto, mas o editor-chefe da revista veja achou que pegaria mal. “não é bom oferecer coisas inteligentes para as pessoas”, ele me disse. e o jerônimo ainda acrescentou: “além do mais, não se deve falar bem de peças de teatro. falar bem não vende nem balinha na esquina. bom é quando você fala mal da peça, que aí causa polêmica e vende muito mais.”

mas como eu não queria vender nada, só queria puxar assunto com os leitores, achei que pelo menos podia colocar aqui nesse blogue um convite para vocês irem assistir. está na campanha de popularização do teatro até o dia 19 de fevereiro. assistam e comentem comigo.

segunda-feira

fórum social mundial


começa hoje o 6º fórum social mundial. o evento acontece a cada ano e tem um repercussão cada vez mais contundente no cenário internacional. é a mais interessante resposta ao fórum mundial econômico. de caráter puramente popular, teve suas primeiras versões aqui no brasil: em porto alegre. mas diferente dos outro anos, o encontro será policêntrico: acontece ao mesmo tempo no Paquistão, no Mali e na Venezuela.

meu amigo e ídolo pop marcelo terça-nada, como nos três últimos fóruns, já está em Caracas. e quem quiser saber notícias, aconselho que não siga o noticiário da rede bobo ou da revista (in)veja. procure a “outra imprensa”. se estiver em bh, poderá sintonizar na rádio ufmg, que também dará alguma cobertura. é só ficar ligado.

domingo

em 2006 ou é sempre bom dar uma reclamadinha

maiakovski, gertrude stein, pedro kilkerry, léopold sedar senghor, wisława szimborzka, ocatavio paz, anne sexton, aimé cesaire, francisco urondo, marcelo companheiro, césar vallejo, paul verlaine, adam mickiewicz, pushkin, paul éluard, robert desnos, josé lezama lima, rubén darío, sor juan inés de la cruz, antonio machado, stephane mallarmé, ovidio, chuang tse, sá de miranda, macedonio fernandez, heredia, verhaerhen, john donne, s. t. coleridge, issa, edmund spenser, johann wolfgang goethe, gérard de nerval, andré breton, raul gonzalez tuñon, jorge guillén, miguel hernandez, tristan tzara, wlademir dias-pino, oliverio girondo, sebastião nunes, w.b.yeats, tadeusz rożewicz, pier paolo pasolini, swinburne, sousândrade, luiz gama, langston hughes, allen ginsberg, gregory corso, lawrence ferlingetti, e. e. cummings, george trakl, aleksandr blok, hölderlin, iessênin, marianne moore, jules laforgue, tristan corbière, friedrich nietzsche, miodrag pávlovitch, jacques prévert, jiri wólker, samuel beckett, li tai po, tu fu, roberto piva, czesław miłosz, claudio willer, juan gelman.

são alguns dos poetas que eu gostaria de ler em 2006. mas "nesse brasil que canta e é feliz feliz feliz" (como diria augusto de campos), não se encontra. uma pena.

quarta-feira

nei lopes e as áfricas em nós

se formos acompanhar os fenômenos que acontecem na cultura brasileira, pouco a pouco veremos o quanto somos pobres de conhecimento de nós mesmos. opostos costumam ser afirmação do mesmo. sobre a presença negra no brasil, eu chamaria de colonização passiva. colonização porque o alcance da implementação dos hábitos e costumes dos africanos foi muito maior do que supomos. passiva... bem, todo mundo sabe. foi enquanto eu pensava nisso que eu tive acesso a um mundo inteiramente novo que pra mim começa num excelente trabalho de nei lopes chamado “novo dicionário banto”. fiquei fascinado ao saber nele que boa parte do vocabulário brasileiro se formou a partir das línguas da áfrica austral, hoje oficialmente lusófonas.
a palavra “cara”, usada sem limites em todo o território nacional, no masculino (o cara), por exemplo, teria vindo de uma língua banto: “okala”, que significa homem. a etimologia dada pelos dicionários é um pouco diferente: houaiss (que inclusive aceitou muitas entradas no seu dicionário monumental) defende que teria vindo do latim, através do grego “kara”, significando rosto (a fonte sendo a mesma da palavra feminina).

agora, pesando os dois lados da balança, não seria mais óbvia a suposição de nei lopes? afinal, já temos tantas palavras bantas no nosso vocabulário corrente e oficial! samba, bunda, dendê, inhame, mulungu, zumbi, cochilo... e por aí vai.

só nos resta concluir que os nossos aplicados filólogos mergulham desesperados nos tratados de latim e grego, procuram saber sobre nossas origens indo-européias, acham fontes em tudo quanto é lugar, mas se esquecem de algo muito simples: o brasil é quase a áfrica.

nei lopes é sambista, parceiro de martinho da vila, autor de diversas canções populares. lançou recentemente um cd, coletânea de alguns dos seus maiores sucessos. de letra e música (para ouvi-lo, clique aqui). fez o grosso (porém caro, uma pena!), “enciclopédia brasileira da diáspora africana”. e é o autor de “bantos, malês e a identidade negra”, lá nos anos setenta. sobre este, ainda voltaremos a falar, que vale a pena. mas como eu já falei demais, por hoje, vou ficar por aqui.

ah, ele tem também um blogue: meu lote, visite, vale a pena..

terça-feira

jacques prévert

três poemas que traduzi de j.p.

dedicados ao meu amigo eclair antônio almeida filho



um homem e uma mulher
nunca se viram
vivem muito longe um do outro
e em cidades diferentes
um dia
eles lêem na mesma página de um mesmo livro
ao mesmo tempo
no segundo segundo
do primeiro minuto
de sua hora derradeira
exatamente


.......

um único pássaro na gaiola
a liberdade está de luto
oh, minha juventude
deixa para minha alegria de viver
a força para te matar


........

o tempo
traz a vida dura
àqueles que querem matá-lo

sábado

fim do ano
somente nuvens brancas
passam em brancas nuvens

cântaro dos cântaros

achei aqui, entre outros cântaros

quinta-feira

a decisão

então reuniram-se todos os homens da cidade – os melhores. e então reuniram-se todos os homens da cidade – os piores. estava armado o quiproquó. “devemos matar o mais burro”, um falou. “devemos matar o mais pobre”, o outro falou. e um outro ainda disse: “devemos matar todos eles. comê-los não nos serviria de nada. amá-los não nos faria bem. é melhor acabar com isso e partir de uma vez por todas.”

mas a cidade era deles e eles não podiam partir. a cidade era deles – os melhores. a cidade era deles – os piores. então eles se reuniram no centro e disseram:

– morrem os mais mudos.

e todos se calaram.

domingo

no dia 04 dezembro (atualizado)



hoje, 04 de dezembro, dia de sua mãe oiá-iansã, o escrevinhador deste blogue completa trinta anos. para brindar, caetano veloso. só conheço duas versões dessa canção que o antônio risério considera o mais arrojado oriki que ele conhece. quem quiser ouvir, é só clicar aqui ó. sugiro a versão de gilberto gil, que parece quase um mantra.


senhora das nuvens de chumbo
senhora do mundo
dentro de mim
rainha dos raios
rainha dos raios
rainha dos raios
tempo bom - tempo ruim

senhora das chuvas de junho
senhora de tudo
dentro de mim
rainha dos raios
rainha dos raios
rainha dos raios
tempo bom - tempo ruim

eu sou o céu
para as tuas tempestades
o céu partido ao meio
no meio da tarde
eu sou o céu
para as tuas tempestades
deusa pagã dos relâmpagos
das chuvas de todo o ano
dentro de mim

rainha dos raios
rainha dos raios
rainha dos raios
tempo bom - tempo ruim


nesse mesmo dia, também é aniversário de rainer maria rilke. o namorado da louca lou que nasceu em 1875. exatamente cem anos antes de mim. fiquei sabendo há pouquinho tempo. eu nem gostava do rilke, mas desde que ouvi o jorge mautner recitando o começo das suas “elegias duinenses” comecei até a achar bom. vou colocar aqui um trecho da tradução feita pela dôra ferreira da silva. aquele mesmo que o mautner gosta de falar.


quem, se eu gritasse, entre as legiões dos anjos
me ouviria? e mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. pois que é o belo
senão o grau do terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos?


tem ainda um outro chegado que comemora anos no mesmo dia que eu: andrade muricy. esse, tenho certeza, pouca gente conhece. é que ele não era poeta não. era crítico. e os críticos morrem mudos. principalmente no brasil. gosto dele porque foi o corajoso que fez a melhor antologia de poesia simbolista brasileira, levantando nomes conhecidos e desconhecidos e provando pra nós que o brasil é moderno desde o simbolismo. e que os cascorentos parnasianos não conseguiram ofuscar com seu poder positivista o surgimento da “fraternidade de poetas” de que fala octavio paz. a nossa. é nessa geração que surgem os nossos primeiros poetas críticos (tirando sousândrade, que veio antes), porque até então, não éramos mais que pirralhos byronianos ou hugoanos com pobríssimas reflexões mais sérias. em homenagem a ele, um poema do bom e velho pedro kilkerry. é um soneto com um fantasma no meio. sempre que o leio, penso na patrícia, minha namorada. e hoje tudo o que escrevo aqui é dedicado a ela.


é o silêncio...

é o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
olha-me a estante em cada livro que olha.
e a luz nalgum volume sobre a mesa…
mas o sangue da luz em cada folha.

não sei se é mesmo a minha mão que molha
a pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
penso um presente, num passado. e enfolha
a natureza tua natureza.
mas é um bulir das cousas… comovido
pego da pena, iludo-me que traço
a ilusão de um sentido e outro sentido.
tão longe vai!
tão longe se aveluda esse teu passo,
asa que o ouvido anima…
e a câmara muda. e a sala muda, muda…
afonamente rufa. a asa da rima
paira-me no ar. quedo-me como um buda
novo, um fantasma ao som que se aproxima.
cresce-me a estante com quem sacuda
um pesadelo de papéis acima…
…………………………………………………………………………

e abro a janela. ainda a lua esfia
últimas notas trêmulas… o dia
tarde florescerá pela montanha.

e oh! minha amada, o sentimento é cego…
vês? colaboraram na saudade a aranha,
patas de um gato e as asas de um morcego. (kilkerry)