quinta-feira

a poesia de juan gelman no brasil (atualizado)

isso. unb, 2004

o livro "isso" não é uma antologia. gelman o havia publicado pela primeira vez no livro "interrupciones II", reunião, além deste, dos livros "bajo la lluvia ajena (notas al pie de una derrota)", "hacia el sur" e "com/posiciones". ou seja, é a única não-coletânea de gelman publicada no brasil. foi traduzido por mim e por andityas soares de moura, a convite de henryk siewierski, da editora unb e publicado em 2004. trata-se de um trabalho apaixonado que teve a grande honra da leitura do próprio autor no ato da tradução. como a visão dos tradutores sobre a poesia é bastante díspare, acabamos por travar um interessante embate, o que fez com que o trabalho tomasse um caráter todo especial de comunhão (no bom sentido, não no sentido que o papa dá para esta palavra) democrática, vindo à tona, tanto na tradução quanto na introdução, um pouco da poética de cada um. o livro integra a coleção "poetas do mundo" que já trouxe para o nosso idioma poetas como tahar ben jelloun, czeslaw milosz, miodrag pávlovitch, francis ponge, lucian blaga e edwin morgan.



amor que serena, termina? record, 2001
"amor que serena, termina?" é uma belíssima mostra do que há de bom na poesia de juan gelman. foi traduzido por eric nepomuceno que já nos trouxe ninguém menos que julio cortázar, gabriel garcía marquez, carlos fuentes, jorge luís borges e eduardo galeano, entre outros inúmeros prosadores de primeiríssima qualidade. nepomuceno é responsável pelo que de melhor já foi publicado em termos de literatura latino-americana no brasil. neste livro, ele se entrega a um desafio inédito, para ele: traduzir poesia. conta-se que a record relutou por algum tempo até se convencer a publicar este livro, afinal livro de poesia não vende no país da batucada. o livro ainda tem um requinte: contou com a revisão de chico buarque de holanda, um poeta da batucada que vende.



puentes/pontes. fce, 2004

este é um interessante projeto da editora fondo de cultura económica, organizado por heloísa buarque de holanda, jorge monteleone y teresa arijón. o propósito: pensar a poesia como ponte que une mundos. trata-se de uma alentada antologia (537 páginas) que inclui poetas brasileiros e argentinos. na lista: paulo leminski, lamborghini, affonso ávila, bayley e, é claro, juan gelman. a tradução deste está por conta do poeta e tradutor sérgio alcides e nos dá um ótimo panorama das faces do poliedro que é a poesia de juan.



poesia argentina - 1940/1960. iluminuras
esta antologia foi organizada pela acadêmica bella jozef, que além deste livro, é autora também de alguns estudos sobre a poesia latino-americana contemporânea. esta antologia é um panorama da poesia argentina de uma época criativa e febril na poesia daquele país. mostra o aparecimento do surrealismo, da poesia beatnik, por exemplo. além da poesia do juan (apenas 2 poemas, maravilhosos e muito bem traduzidos, por sinal), tem lá uma boa seleção de outros poetas.

sobre a poesia, um poema de juan gelman

haveria um par de coisas por dizer/
que não é muito lida por ninguém/
que esses ninguém são poucos/
que estão todos preocupados com a crise mundial/ e

com o assunto de comer a cada dia/ trata-se
de um assunto importante/ me lembro
quando tio juan morreu de fome/
dizia que nem se lembrava de comer e que para ele não tinha problema/

problema veio foi depois/
é que não havia dinheiro para comprar caixão/
e quando finalmente o caminhão municipal passou para levá-lo/
tio juan parecia um passarinho/

o pessoal do municipal olhou para ele com desprezo ou com desdém/ murmuravam
que eram sempre incomodados/
que eram homens e enterravam homens/ e não
passarinhos como tio juan/ especialmente

porque o tio foi cantando piu piu a viagem inteira até o crematório municipal/
e sentiram-se desrespeitados e estavam muito ofendidos/
e quando davam-lhe um tapinha para calar a boca/
o piu piu voava pela cabine do caminhão e eles sentiam que ouviam um piu piu na cabeça/ tio

juan era assim/ adorava cantar/
e não via por que não cantar depois de morto/
foi para o forno cantando piu piu/ as cinzas saíram e ainda deram uns pios/
os companheiros do municipal se deram com os sapatos cinzentos de vergonha/ bem mas

voltando à poesia/
agora os poetas passam muita dificuldade/
não são muito lidos por ninguém/ esses ninguém são poucos/
o ofício perdeu prestígio/ para o poeta está cada dia mais difícil

conseguir o amor de uma menina
ser candidato a presidente/ ser patrocinado por um mecenas/
que um guerreiro faça façanhas para que ele as cante/
que um rei lhe pague cada verso com três moedas de ouro/

e não se sabe se é porque acabaram as mulatas/ os mecenas os guerreiros/ os reis/
ou simplesmente os poetas/
ou foram as duas coisas e é inútil
quebrar a cabeça com uma coisa dessas/

bonito é saber que a gente pode cantar piu piu
nas horas mais estranhas/
tio juan depois de morto/ eu agora
para que me queiras/


esta tradução foi publicada pela primeira vez em 1998 no www.tanto.com.br. lá você encontrará o original. o poema faz parte do livro hacia el sur

outras partes

juan gelman
¿ouviste/ coração?/ vamos
com a derrota a outra parte/
com este animal a outra parte/
os mortos a outra parte/

que não façam ruído/ calados como estão/ nem
se ouça o silêncio de seus ossos/
seus ossos são animaizinhos de olhos azuis/
sentam-se mansos à mesa/

roçam dores sem querer/
não dizem uma só palavra de seus balaços/
têm uma estrela de ouro e uma lua na boca/
aparecem na boca dos que amaram/

passam notícias de seus sonhos/
arrastam suas lágrimas com uma toalhinha atrás como que varrendo o padecer/
como que não querendo molhá-lo/
para que o padecer estale e arda e faça assento aonde se sentar e pensar outra vez/

vamos/ coração/ a outro canto/
é ruim que não possas tirar os pés da tristeza/
embora seja tristeza que beija a mão que empunhou o fuzil e triunfou/
e tem coração e guarda em seu coração uma mulher e um homem passando como tigres pelo céu do sul/

uma mulher e um homem como tigres enjaulados na memória do sul/
beijando filhinhos que nunca mais irão crescer/
companheiros que nunca mais vão crescer a agora cosem
a terra ao ar/ cosem teu coração/ coração/ seus animais/

vamos com esta cadela a outra parte/
não temos direito de incomodar/
nosso único direito é começar outra vez
sob a luz do sol sereno/

os limites do céu mudaram
agora estão cheios de corpos que se abraçam
e dão abrigo e consolo e tristeza
com uma estrela de ouro e uma lua na boca/

com um animal na boca olhando o cintilar
dos companheirinhos que semearam coração
e levantam seu coração ardente
como uma aldeia de beijos/

(tradução: leo gonçalves)
olha aí o original:

otras partes

¿oíste/ corazón?/ nos vamos con la derrota a otra parte/ con este animal a otra parte/ los muertos a otra parte/ que no hagan ruido/ callados como están/ ni se oiga el silencio de sus huesos/ sus huesos son animalitos de ojos azules/ se sientan mansos a la mesa/ rozan dolores sin querer/ no dicen una sola palabra de sus balazos/ tienen una estrella de oro y una luna en la boca/ aparecen en la boca de los que amaron/ pasan noticias de sus sueños/ arrastran sus lágrimas con un pañuelito detrás como barriendo el padecer/ como no queriendo mojarlo/ para que el padecer estalle y arda y haga asiento donde sentarse a pensar otra vez/ nos vamos/ corazón/ a otra parte/ hace mal que no podrás sacar los pies de la tristeza/ aunque es tristeza que besa la mano que empuñó el fusil y triunfó/ y tiene corazón y guarda en su corazón una mujer y un hombre pasando como tigres por el cielo del sur/ una mujer y un hombre como tigres enjaulados en la memoria del sur/ besando hijitos que nunca más van a crecer y ahora cosen la tierra al aire/ cosen tu corazón/ corazón/ sus animales/ vámonos con esta perra a otra parte/ no tenemos derecho a molestar/ nuestro solo derecho es empezar otra vez bajo la luz del sol sereno/ los límites del cielo cambiaron/ ahora están llenos de cuerpos que se abrazan y dan abrigo y consolación y tristeza con una estrella de oro y una luna en la boca/ con un animal en la boca mirando el centellear de los compañeritos que sembraron corazón y levantan su corazón ardiente como un pueblo de besos/

leo gonçalves e juan gelman na unipac

no próximo sábado, dia 16 de junho, o poeta leo gonçalves estará na unipac de congonhas, a convite das professoras juliana leal e karla cipreste, para uma conferência-leitura da e sobre a poesia de juan gelman. aproveito para começar a desenvolver uma proposta que venho pensando de unir uma performance poética a uma apresentação conceitual da poesia. vamos ver no que dá. exílio aqui/palavra que foi cão pela cavala que dizia/ já não há nada a fazer/ está a luz/que tanta sombra fez/ por isso você dói tanto/ beleza?/me bate como se fosse seu irmãozinho?/ boca de seu arrabalde?/ o que é você?/quem é você?/diga-me um pouco?/ já não será daqui quando nos fomos/ nem me deixa tirar a mão do fogo de não ser/ (do livro isso. unb, 2004)

samba do compositor recebe nei lopes [atualizado]





os freqüentadores do salamalandro sabem o quanto admiro esse sambista lingüista historiador da negritude brasileira, uma das melhores cabeças que já apareceram no país. quando postei esse cartaz da turma do samba do compositor, estava decidido a ir. mas chegado o dia, descobri que infelizmente não vai rolar. muito trabalho a fazer. uma pena.

que os deuses da áfrica tragam de volta uma outra chance boa de vê-lo cantar.

e peço a todos que puderem, que vão. e me contem

imperdível.
salve nei lopes!


segunda-feira

centro cultural banco do brasil itinerante - inscrições abertas para a etapa bh

o centro cultural banco do brasil itinerante está com inscrições abertas para etapa belo horizonte. o evento acontece na cidade de 3 a 15 de julho e o período de inscrições vai até a próxima sexta-feira.
há vagas para as áreas de artes cênicas, plásticas, música, idéias (palestras e encontros, etc) e programas educativos (oficinas, cursos, etc).
clique aqui para conhecer o regulamento: ccbb - etapa bh

domingo

sem medo de ser feliz

notas sobre a vanguarda distraída

depois de escrever o post anterior, recebi inúmeros emails, cartas e mensagens de celular me criticando pelo termo criado para designar a poesia do meu amigo. a linha principal da crítica, (a única que acho pertinente) propunha que, sendo vanguarda, ninguém poderia ser distraído. era, portanto, uma contradição em termos. um dos meus críticos mais duros, inclusive, fez questão de ressaltar que numa guerra, a vanguarda exerce um papel essencial: é sempre o primeiro batalhão a enfrentar o inimigo e que portanto ninguém podia estar neste posto distraído.

isso tudo me divertiu muito. e resolvi, como resposta, acrescentar algumas notas:

1. não se trata de contradição. como vocês puderam notar, a poesia do anderson é mordaz e atenta ao melhor do que acontece ao seu redor. alguém terá notado também que a minha geração cresceu sob o poder daquilo que chamam "cultura de massas" ou "entretenimento" (vulgo xuxa, fausto silva, ana maria braga e outros lixos enlatados). vocês não queriam que eu dissesse: "vanguarda entretida", queriam?

2. jerzy grotowski foi um importante teórico do teatro que nos anos 60 propunha que a ação teatral se fazia graças a uma difícil tensão que ocorre entre o ator e o espectador, sendo que este ocupa um papel opressor por não se ver, na maioria das vezes, preparado para curtir uma peça e sim para consumi-la. no começo dos anos 70, cansado desta tensão, grotowski decidiu abrir mão dela para produzir um teatro total. ao final, ele diz: se vocês quiserem considerar isto teatro ou não, pouco me importa.

grotowski é um precursor da vanguarda distraída.

3. me diverte muito a idéia de que alguém venha a levar a sério o título que dou aos meus contemporâneos (incluindo-me a mim mesmo). onde já se viu... vanguarda distraída.

4. podia escrever um manifesto. até mesmo porque manifestos já estão fora de moda. por isso mesmo. cairia bem.

5. enganam-se redondamente aqueles que (como o frei betto) ficam por aí dizendo que a minha geração só possui alienados despolitizados que só querem fazer parte do sistema mundial de competitividade proposto pelo capital tio sam. o que nós queremos é comer todo mundo. discretamente, como bons mineiros. numa grande mordida de prazer (se o prato for nutritivo) ou num grande bocejo (se o prato só tiver carboidratos - como o frei betto).

6. fico triste de ver como que toda e qualquer subversão é rapidamente assimilada pelo sistema mundial de consumo. che guevara, lenin, leon trotsky, jozef stalin, marilin monroe, john lennon, jim morrison, bob dylan, cicciolina, andy warhol. todo mundo pode ser tranquilamente jogado na mesma lixeira. por outro lado, vejo que o pessoal até que ganha um dinheirinho com isso. o que não é nada mal. contanto que sobre um pouco também para os poetas. um leitinho de vez em quando, as crianças agradecem.

7. para o meu amigo guerrilheiro, com seu papo de inimigos, eu confesso: fui eu que matei paulo leminski. e enquanto agonizava com ar divertido, ele me explicava a doutrina dos epicuristas e me repetia sempre como num refrão: "distraídos venceremos"

sábado

anderson almeida e a vanguarda distraída



o poeta anderson almeida (na foto lendo o livro de léopold sédar senghor) é um cara curioso. muito vivo, exageradamente discreto. quando nos conhecemos, ele não gostou dos meus poemas: ficamos grandes amigos. lembro que em 1997, quando bh se preparava para uma celebração dos seus 100 anos, tínhamos o hábito de freqüentar os bares da "poesia orbital". na ocasião tinha sempre algum poeta orbital falando versos em algum palco. certa vez ele me disse: "cada vez que vejo um ator global falando versos de um poeta orbital, tenho mais certeza de que palcos não são o meu forte..." ou algo assim.

nessa época a gente vivia intesamente este poema dele:

curtametragem

o homem pulou da ponte
e ao erguer a vista
e contemplar o horizonte
amou a vida e não viu por onde
retomar a subida


desde então, a gente cometeu muita vida. um dia ele me aparece com um calhamaço de uns 200 haicais completamente originais e inesperados. o silêncio dele nos últimos tempos me faz pensar neste haicai dele:
estou mudo
como borges era cego
e beethoven era surdo


ele é um dos caras mais originais da minha geração. nunca fez muita questão de mostrar o que escreve. esconde dos holofotes, descansa no liso. ele faz parte de uma vanguarda que chamo de "vanguarda distraída". linguagem urbana, vitalidade em cada vírgula. no meio da distração, ele cisma de vez em quando de enviar um poema para algum concurso. ganha, claro. lembro até que quando o conheci, tinha ganhado um prêmio de honra ao mérito num concurso de poesia latino-americana realizado na alemanha.
depois ele ficou entre os 5 melhores de uma revista chamdada ipsis-literis. quando li os versos que ficaram em primeiro, gostei mas não amei. apenas confirmei a insuficiência desses concursos. os poemas que ficaram em primeiro lugar tinham todo um clima de aplicação das teorias aprendidas na academia, enquanto que nos poemas do anderson (que mereciam de longe o primeiro lugar) parecia que a língua estava acabando de ser inventada, sem compromisso com a história da literatura, sem compromisso com ninguém, originais e consistentes. uma pena eu não estar com eles aqui (no meio de muitas mudanças, meus livros ficaram dispersos e não encontro mais nada).

mas em todo caso, vou deixar dois outros, publicados no jornal estilingue #3 em 2004 enquanto ficamos na torcida para ele lançar logo um livro:

as ruas em alta velocidade se estraçalham em esquinas
as estradas não têm quinas

as ruas e as estradas tentam todos os meios de despitar-se
em curvas, em pontes, em bifurcações

as ruas de mãos dadas
uma rua sem saída é uma rua só

há poemas pobres e planos como ruas

o poema é uma rua fantasma
que atravessa uma cidade fantasma
onde passam navios fantasmas
que deixam garrafas com manuscritos

e que manuscritos
enchem de amantes submarinos
as cidades em ruína


durmo de olhos abertos
meu irmão e seus brinquedos de guerra
minha irmã e suas guerras de brinquedo
disputo com os escorpiões meus sapatos
pendurei o espelho e caíram todos os quadros
vasculho cabides e gavetas
mas nada de meu
infilitra na solidão uma calma cotidiana
chove
moro em um morro forte onde uma árvore grande foi derrubada por um raio
ter uma moto e acelerar sem temer a árvore atravessada
chuva que diz sim em clarões


p.s.: atualmente ele comanda o blogue: periféricos & distraídos

e. m. cioran

"a verdade não sonha jamais", disse um filósofo oriental. é por isso que ela não nos interessa. o que faríamos nós da sua miserável realidade? ela só existe na cabeça dos professores, nos preconceituosos escolares, na vulgaridade de todos os ensinamentos.

mas no espírito ao qual o infinito dá asas, o sonho é mais real que todas as verdades. o mundo não é; ele se cria cada vez que o entusiasmo do começo atiça a brasa da nossa alma.

segunda-feira

diálogo infinito


- te amo.
- eu também.
- mas você tem medo de mim.
- não. só não gosto que brigue comigo.
- prometo não brigar mais.
- ótimo.
- e você?
- eu o quê?
- promete que não vai fazer mais aquilo?
- aquilo o quê?
- aquilo.
- aquilo? ah, sei. prometo. não farei mais aquilo.
- vai sim. você vai fazer tudo de novo. você não muda. você é sempre igual.
- não vou não.
- vai sim. eu te conheço. você sempre faz aquilo. eu te odeio.
- mas você não tinha dito que me ama?
- sim. te amo.
- mas você disse que me odeia.
- não. eu te amo.
- eu também.
- mas você é esquisito comigo.
- só não gosto que você brigue comigo.
- prometo não brigar mais...
- promete?
- prometo. e você?
- prometo.
- promete? aquilo?
- é. aquilo.
- duvido.
- não duvide. detesto que você duvide de mim.
- mas eu duvido. duvido mesmo. você não muda. você é sempre igual. você não muda.
- não mudo é?
- não.
- então?
- sim?
- não.
- ah! não falei? você é sempre o mesmo.
- e você não?
- eu... eu não suporto mais isso.
- então pare.
- não me mande parar. detesto que me mandem parar...
- então não pare.
- também não diga isto. detesto que finjam as coisas apenas para apaziguar.
- e eu detesto que você brigue comigo.
- não estou brigando!
- está sim.
- não. não estou.

ad infinitum.

sexta-feira

um de mim

um livro inaugurador


"fique este dia e esta noite comigo e você vai possuir a origem de todos os poemas vai possuir o que há de bom da terra e do sol....sobraram milhões de sóis, nada de pegar coisas de segunda ou de terceira mão....nem de ver através dos olhos dos mortos....nem de se alimentar dos espectros nos livros, e nada de olhar através dos meus olhos, nem de pegar coisas de mim, você vai escutar todos os lados e filtrá-los a partir de seu eu."


estas são palavras mágicas de um poeta que inaugurou a modernidade norte-americana (não apenas por causa do verso livre, como muita gente poderia superficialmente supor) em 1855, ou seja, 54 anos antes do movimento futurista italiano e 67 anos antes da semana de arte moderna de são paulo. o abalo que whitman provocou na literatura só se compara ao de rimbaud.

o livro em questão se chama: Folhas de Relva. meu amigo oséias silas ferraz, editor da crisálida, já há algum tempo me falava desta obra. ele chamava a atenção para o fato de que a obra de whitman é uma imensa constelação cujo ponto de partida é a edição de 1955, que trazia apenas 12 poemas. mas 12 poemas que dão melhor do que nenhum outro uma visão do verdadeiro poeta de paumanok [nome indígena de manhatan]. oséias já tinha até começado a realizar o seu projeto de traduzir esses poemas e eu mesmo já havia revisado o belíssimo "grandes são os mitos", poema que fecha o récueil. mas eis que no princípio de 2005 temos notícia do monumental projeto da editora iluminuras. depois, conversando com o meu amigo (que confessou certa frustração), concordamos que não poderia ter havido melhor trabalho nem melhor tradutor.

trata-se de rodrigo garcia lopes (que já nos deu outras grandes maravilhas como a melhor tradução brasileira das Illuminations, de Jean-Arthur Rimabaud). por aqui, no país da batucada e da bundocracia, eu vi aparecer muito poucos trabalhos com esse fô(le)go e essa paixão. a tradução caprichosa e um ensaio-biografia tornam o livro uma obra-prima e um puta exemplo a ser seguido por quem escreve e traduz. rodrigo teve até o fôlego de traduzir (poucos tradutores brasileiros se animariam a isto) o prefácio-manifesto que precede a obra. um maravilhoso serviço, não só aos apaixonados por poesia, mas também para a própria obra de whitman. são 320 páginas elétricas que nos introduzem a um universo pouco conhecido por aqui (por increça que parível).

saravá rodrigo!

por esta porta estar fechada, as outras tiveram que se abrir

apontamentos de arte radical

está lá no karl marx: "ser radical é tomar as coisas pela raiz. E a raiz para o homem, é o próprio homem". tomar as coisas pela raiz! pois é. depois vieram os marxistas, os esquerdistas entre aspas e cismaram de usar o termo para designar aquelas pessoas que ficam no polo extremo, de um lado ou de outro. mas radical, não me esquecerei nunca, é tomar as coisas pela raiz. e não gosto mais de gostar de nenhum tipo de arte que não seja radical.

estou falando de arte viva. estou falando de makely ka, renato negrão, ricardo aleixo, marcelo terça-nada! e brígida campbell, zé celso martinez corrêa, juan gelman, marina abramovic. porque ninguém vai me convencer que se faz arte para os mortos. que os mortos governam os vivos. nada disso. mas nesse delírio, encontrei uns caras que vão servir de modelo para a minha arte radical. faço questão de colocar o nome deles aqui.

estou falando de oswald de andrade. eu podia simplesmente não concordar com o pirado do haroldo de campos, que escreveu sobre ele um texto chamado "uma poética de radicalidade". mas o fato é que ele está certo. oswald é o fundador da modernidade no brasil. e como ele já dizia: "só a antropofagia nos une". é ela que nos torna brasileiros. é ela que nos permite essa constante transformação do tabu em totem.

o outro radical é também um antropófago. só que italiano. pier paolo pasolini. sendo ele italiano, a antropofagia tem outro sentido: ela não o une a nenhum italiano, mas a todos os homens que vêm do terceiro mundo. daí existir uma puta relação entre pasolini e um outro radical: glauber rocha. pasolini era socialista roxo, mas não concordava com as concessões em favor de um autoritarismo primitivo que se faziam sempre os socialistas. então ele se lembra da oréstia, de ésquilo:
você leu a oréstia, de ésquilo? há pouco traduzi a peça. o contraste entre um estado democrático - mesmo que toscamente democrático e o outro tirânico e arcaico. o ápice da trilogia é o momento em que a deusa atena, a razão, institui a assembléia dos cidadãos que julgam com direito a voto. mas a tragédia não acaba aí. depois da intervenção racional de atena, as erínias - forças desenfreadas, arcaicas, instintivas, da natureza - sobrevivem - são deusas, são imortais. não podem ser eliminadas, não podem ser assassinadas. devem ser transformadas, deixando intacta a substancial irracionalidade que as caracteriza, istó é, mudando as "maldições" em "bênçãos". os marxistas italianos não se propuseram esse problema, e acho que os russos também não.
e eu concordo com o pasolini. mas hoje estou brincando de citar. e cito outro radical genial, nelson rodrigues: "o ser humano só tem salvação se tomar consciência das suas próprias misérias."

quarta-feira

o cheiro do ralo

dia desses, eu e patrícia fomos assistir a dois filmes brasileiros no cinema. do primeiro eu já me esqueci o nome. o outro se chama "o cheiro do ralo". sobre o primeiro, não há muito o que dizer, a não ser que está em cartaz no usina neste momento, dividindo (infelizmente) a sala com "o cheiro". aliás, tem mais uma coisa. me irrita muito uma linha de filmes que sai no brasil já há muito tempo: são filmes bobos, moralistas, que trazem discussões como "onde vai parar esta juventude", filmes onde se nota claramente que o diretor "queria" dizer algo, filmes com uma fotografia péssima, sem intenção no desenho da imagem. filmes ingênuos, enfim.
já o cheiro do ralo não. é um filme cruel e engraçado como deve ser. as cenas são simples, o "cenário" sem grandes invencionices e mesmo assim, maravilhoso. ouvi dizer que a galera que fez o filme teve que ralar pra fazê-lo, porque faltou grana, porque faltou de tudo. isso me impressiona, mesmo.
no dia que fomos assistir, a sala estava lotada. todo mundo anda falando deste filme. mas agora, já passadas duas semanas que esteve em cartaz (na primeira semana na sala 2, segunda maior do cinema; na segunda semana na sala 3, uma das pequenininhas) o filme já divide um ambiente com uma bijuteria qualquer, de lata, sem vida, prestes a morrer antes que qualquer comercial de tv. uma pena.
"o cheiro do ralo" é um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. e olha que tenho visto muitos e de tudo quanto é lugar. quem puder, não deixe de ir. ainda tem tempo.

sumido

para os 987.725 leitores que freqüentam este sítio, devo uma satisfação: meu sumiço (o mais longo desde o nascimento deste blogue) não é porque parei de escrever, onde já se viu? não sou desses que escrevem quando tem tempo. escrevo porque preciso, escrevo porque impreciso. e meu silêncio é meu melhor poema. mas na internet eu entro (isso sim) quando me sobra um instantinho, nos intervalos entre o aqui e o ali.

os primeiros meses do ano foram repletos de acontecimentos e trabalhos, o que me tem impedido de parar para dar notícias por aqui.

mas diz aí pro pessoal da redação que eu tô voltando. com novas notícias novas. as idéias mais afiadas. o sangue fervendo na veia. paganismos. o kaos e o kosmos. papeizinhos crepitando na fogueira da alma, loucos para virar poesia.

quinta-feira

Senhora liberdade

(Wilson Moreira e Nei Lopes)

Abre as asas sobre mim
Oh senhora liberdade
Eu fui condenado
Sem merecimento
Por um sentimento
Por uma paixão
Violenta emoção
Pois amar foi meu delito
Mas foi um sonho tão bonito
Hoje estou no fim
Senhora liberdade abre as asas sobre mim
Senhora liberdade abre as asas sobre mim

Não vou passar por inocente
Mas já sofri terrivelmente
Por caridade, oh liberdade abre as asas sobre mim
Por caridade, oh liberdade abre as asas sobre mim

terça-feira

manifesto nº1 para 2007

eu não preciso de muito dinheiro, graças a deus, mas se quiserem me pagar um salário de R$ 3.000,00 por mês para que eu fique escrevendo meu livro, não vou reclamar.

sábado

ao som de maria bethânia

dia do meu aniversário, fui passar ao lado dela em salvador. tava bonita a festa. e agora sigo ao som de maria bethânia.

dia 4 de Dezembro
(letra e música de tião motorista)

no dia 4 de dezembro
vou no mercado levar
na baixa do sapateiro
flores pra santa de lá

bárbara santa guerreira
quero a você exaltar
é Iansã verdadeira
a padroeira de lá

tirirê, tirirê, relampejou
oh, tirirê, relampejou

tomara que chegue a hora
quero seguir procissão
vou com meu "liforme" branco
levo o meu chapéu na mão

as ladainhas cantadas
pelas beatas de véu
os homens cantam mais forte
pedem proteção ao céu

logo que a santa retorne
eu vou pro samba correndo
vou na barraca da Ornela
tomo uns limão, vou dizendo

pego Antenor, meu compadre
deixa essa cara de bicho
não vou sair desse samba
só saio se for no lixo