quarta-feira

"formigas egoístas morrem no pão." ditado encontrado na entrada de um formigueiro I. os mortos estão no chão? ou são as andorinhas? II. poemas vazios não me transportam dentro de um ônibus III. sua ironia lançada sobre a grama matou todas as formigas

a namorada afirma ser: brasileira negra cidadã bricabraque duralex ave leve inexata contra a moral e os bons costumes.

música

tocar fogo nos próprios cabelos
ao som de uma música
de haendel

tocar fuga aos quatro ventos
tilintando oratórios e cervejas
num bar

blandir bandolins
numa tarde infinitiva sobre o mar

(oxum cantará para me proteger)

repetir este brilho
aos dedos e raios
dansantes de iansã

pois choverá a cântaros

domingo

assoviando blake [visões]

assoviaria blake por ruas mapeadas/ nas muradas do arrudas/ de concreto armado/ as ruas da cidade têm dono/ as putas da cidade não têm dono/ caminharia pelas ruas/ putas da cidade da moral concreto armado/

diria à mendiga e ao mendigo que eles são amados/ na minha orgia por poetas e baratas/ e eles se levantariam de suas calçadas/ e me beijariam/ e com meu beijo/ se sentiriam nutridos/

orgias de poetas, palavras/ gravadas no papel/ como palavras gravadas nas cascas/ das árvores/ ou como palavras gravadas/ nas cascas do corpo/ ou como corpo gravado no tempo/ ou como o tempo gravado no nada/ como um copo vazio/

assoviaria blake/ solitário/ ouvindo o poeta guarani nascido agora aqui/ há duzentos e cinqüenta anos/ e que não está na história/ não quis se chamar árcade ou clássico ou poeta ou romântico/ ou esdrúxula do gênero:/ mas árvore cético mágico cínico/ ou único libertador/ porque não escrevia a liberdade tardia/ onde o prazer amanhecia e entardecia sem dono/

assoviaria blake pelas ruas sem nome/ aspirando o mesmo lugar dourado/ e um girassol/ limitado-ilimitado/ à margem do rio podre/ sem nunca debruçar sobre sua murada/