sexta-feira

medusa

Cortei a cabeça da Medusa
por inveja. Quis eu mesmo o olhar
sem olhos que vê e se recusa
a ser visto e desse modo faz
das demais pessoas pedras: pedras
sim, preciosas, da mais pura água,
onde o olhar mergulha até a medula,
diáfanas, translúcidas, cegas.
Refleti muito, antes. Na verdade
estes meus olhos provêm de carne
de mulher, não do nada imortal
da divindade. Como encarar
com eles a Górgona? Mas mal
pensando assim, lembrei ser mortal
ela também: e seu pai é um deus
do mar mas eu sou filho de Zeus.
Mesmo assim não quis enfrentá-la olhos
nos olhos. Peguei emprestado o espelho
da minha irmã e adentrei o cômodo
da Medusa de soslaio, vendo
tudo por reflexos: o seu corpo
em terceiro plano, atrás de heróis
de pedra e dos meus olhos esconsos
em primeiríssimo. Eis o corte
da lâmina especular: do lado
de cá eu, sem corpo, a olhar; do outro
lado eu, olho olhado, olho enviesado
e rosto e corpo entre muitos corpos,
um dos quais o dela. A mesma lâmina
decapitou-a também: do lado
de cá guardo seu olhar e faina;
e lá jaz seu vulto desalmado.
Mas nada é tão simples. Do pescoço
cortado nasceu um cavalo de asas
(é que o deus do mar a engravidara)
e mergulhou no horizonte em fogo
crepuscular. Dizem que, no monte
Hélicon, seu coice abriu uma fonte.
A ser não sendo, de madrugada
levanto com sede dessa água.


é um poema de antônio cícero, que esteve em bh na última terça-feira para as terças poéticas. achei no blogue da letícia

quarta-feira

semana desligue a sua tv

domingo

novas aventuras

aí estão os meus amigos com novas perspectivas bloguísticas. aliás, de um tempo pra cá tem uma turma bacana mudando de endereço pra melhor. primeiro a lenise regina, o george cardoso, a letícia féres (confiram aí do lado na sala de blogues). e agora mais o renato negrão (www.nocalo.blogspot.com) e o marcelo terça-nada (www.virgulaimagem.redezero.org). se me baixasse o telê santana hoje, eu montaria um time com essa turma. então: saravá!

coisas que têm feito a cabeça do salamalandro

oriki orixá. antônio risério.

antônio risério é um baiano retado capaz de conciliar extremo rigor com paixão fulminante. antropologia? filosofia? poesia? o livro trata de tudo isso sem perder a profundidade em nenhum instante.
alguém pergunta: e o que é um oriki? o mais fácil seria dizer que são poemas de elogio de uma entidade, personalidade ou (no caso dos traduzidos neste livro) um orixá. mas se isso respondesse a tudo, nada justificaria o longo e curioso comentário que precede os poucos e exemplares orikis que aparecem ao final do livro.
o assunto faz o leitor curioso se lembrar da faceta mais esquecida da nossa formação enquanto povo: a áfrica. e aqui ela aparece em trono de brilhos e cores.


bantos malês e identidade negra. nei lopes
e por falar em áfrica, em se tratando do segundo maior continente do planeta, pode-se dizer que sabemos ainda menos da nossa origem banto. aliás, não sabemos quase nada sobre os povos africanos em geral. acho que eu já disse isso por aqui.
este livro elucida coisas que eu nunca supus:
1. dos negros que vieram para o brasil, boa parte era de origem muçulmana (conhecidos como malês).
2. os povos bantos são considerados povos inferiores pela historiografia brasileira.no entanto, representaram, na história, uma das maiores resistências ao poderio europeu. (destaque para a rainha que ficou conhecida por nzinga. reinando desde matamba, angola, foi o osso duro que portugual nunca conseguiu roer de todo).
3. se a nossa fala se distingue da fala de portugal, o principal motivo, ao que parece, é a presença dos povos banto no brasil.
de modo que este livro tem me oferecido um novo tempo mítico para as minhas concepções de mundo. (quem quiser saber mais sobre o camarada nei lopes, procure por aí. já postei outro dia um comentário sobre ele).

detalhe: este livro encontra-se esgotado em todo o brasil. mas sei de uma promessa do autor de uma edição revista. saravá!


personas sexuais - arte e decadência de neffertiti a emily dickinson. camille paglia.
este é um desses livros bons para derrubar conceitos fáceis e pré-estabelecidos no ocidente. de fato, em geral, a tendência é escolher por uma saída racional para as questões que angustiam o ser humano. mas camille é seguidora de sade. propõe uma solução dilacerante e dionisíaca para o famoso sonho de rouseau de que "homem é bom por natureza, é o meio que o estraga" - origem de todas as utopias modernas. história da arte. história da sexualidade. história da literatura. antropologia. psicologia. personas sexuais é tudo isso e ainda mais.
deixo aqui apenas uma frase, que aliás, gosto muito: "o dionisíaco não é nenhum piquenique."
detalhe: para variar, o livro encontra-se também esgotado em todo o brasil.


el arco y la lira. octavio paz.
quem me conhece já sabe: este livro me acompanha há pelo menos uns cinco anos. é meu livro de cabeceira. o maior e melhor testemunho de um apaixonado pela linguagem das linguagens que já tive em mãos. perto dele, o abc da literatura do ezra pound fica no chinelo. afinal, estamos falando de um dos maiores intelectuais da américa latina. no tratado, paz concilia densa poesia com profunda dissertação. como as outras coisas que mexem comigo, nele também você encontra: poesia, filosofia, antropologia, crônica de costumes, teoria literária. e pora aí vai.
a primeira edição deste livro foi escrita em 1955. desde então, octavio paz fez algumas atualizações, mas creio que as principais idéias não mudaram muito. e é de uma atualidade desconcertante.
como encontrar? a edição castelhana encontra-se com facilidade. a brasileira não. publicada há uns 20 anos pela nova fronteira, está hoje completamente esgotada. aquele que a encontrar terá nas mãos uma raridade. agora, para os apaixonados pela linguagem, um conselho: leia o livro no original.

da série poetas que possuem luz própria

álvares de azevedo

da série poetas que vivem do que fazem (reprise)

carlos drummond de andrade

sábado

da série poetas que acreditam num mundo melhor (reprise)

vladímir maiakóvski

da série poetas que acreditam num amanhã melhor (reprise)

torquato neto

sexta-feira

da série poetas que recebem a visita do cobrador

arthur rimbaud

pranto para comover jonathan

os diamantes são indestrutíveis?
mais é meu amor.
o mar é imenso?
meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
ama e nem sabe mais o que ama.

é um poema da adélia prado e está no livro "bagagem". para ser comido com broa de fubá e cafezinho no final da tarde.

quinta-feira

30 anos do golpe militar na argentina

no último dia 24 de março, 10 mil argentinos foram às ruas em protesto pelos 30 anos do golpe militar no país. a ditadura sangrenta (mas não menos que as outras ditaduras latinoamericanas financiadas pelos estados unidos) deixou milhares de mortos, desvalidos e desaparecidos. juan gelman, uma das vítimas mais célebres, teve filhos e neta desaparecida, além da filha torturada e da mãe atormentada.
o exemplo dos argentinos na rua no último dia 24 me deixou pensativo. agora, no próximo dia primeiro de abril completam 42 anos do golpe militar no brasil, e a ditadura que daí decorreu durou ainda mais tempo do que a ditadura argentina. os números que nos chegam e a nossa apatia faz com que tenhamos a impressão de que a ditadura argentina foi muito pior, mas ainda hoje colhemos frutos abundantes-envenenados desse período de pobreza espiritual. cito, apenas a título de exemplo, a ditadura da burrice e a insistência na falta de educação (em todos os campos possíveis).

germaine tchourai

vergonha e apatia na reunião do bid

começou ontem a reunião do bid - banco interamericano de desenvolvimento. para vergonha de belorizontem, não houve nenhuma explosão, nenhum carro bomba explodiu na porta do othon palace, nenhum protesto significativo, nenhuma bomba de gás lacrimogênio. uma vergonha!

Roda - Arte e Cultura do Atlântico Negro

para quem não foi no lançamento no dia 21 de março, apenas o toque: esteve belíssima a festa, com grandes apresentações. destaque para a performance dadaísta de renato negrão e o mini-espetáculo-fetichista de benjamin abras. grande brinde: ricardo aleixo e rui moreira lendo alguns dos poemas de léopold sédar senghor traduzidos por mim e publicados na revista. saravá!
agora, aos vivos: a revista está circulando. para conseguir, é necessário contactar a fundação municipal de cultura. Roda - Arte e Cultura do Atlântico Negro é uma das revistas mais interessantes que tive em mãos nos últimos tempos. a considero um importante marco na cultura belorizontina. uma revista futurista. parabéns para os editores. tomara que não chegue ao fim depois do fan. e re-saravá!

saravá, malandro

na próxima terça, dia 21 de março, acontece o saravá de celebração do dia mundial da poesia e do dia internacional de combate à discriminação racial, como mais um episódio do 3º FAN - Festival de Arte Negra. conforme nos explica o jaguadarte, saravá é o nome que haroldo de campos dava aos saraus que ele freqüentava. no palco: grupoPOESIAhoje, benjamin abras, ricardo aleixo, maurício tizumba, renato negrão & mônica aquino, rui moreira.

após o saravá, haverá o lançamento da revista Roda - Arte e Cultura do Atlântico Negro. o salamalandro colabora com uma homenagem ao centenário do poeta senegalês Léopold Sédar Senghor. na revista, ainda: entrevista exclusiva com Moniz Sodré, dossiê do artista plástico Antônio Sérgio Moreira, reportagem sobre a presença das mulheres no funk e no hip-hop.

dia: 21 de março (terça-feira) às 20h

local: centro cultural ufmg - av. santos dumont, 174 - centro

e saravá!

terça-feira

revista etcetera #19 já está no ar




está no ar a revista etcetera#19. belíssima como sempre, traz artigos, poemas, contos e entrevistas sempre de ótima qualidade. para acessá-la, o endereço é www.revistaetcetera.com.br. em outros números, o salamalandro colaborou com poemas. desta vez, tem o artigo "william blake hoje". mas a revista traz muito mais: artigo sobre o "new journalism", entevista com o cineasta sérgio bianchi e mais e mais.

domingo

podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano

eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano

paulo leminski

notas sobre a realidade

podem dizer o que quiserem, aconteça o que acontecer, a realidade vai continuar sendo o maior enigma da humanidade. por isso, nunca entendo bem o que querem dizer quando falam “cai na real!” ou o famigerado “sejamos realistas!”

daí fui procurar uma meia dúzia de escritores pra tentar entender melhor. encontrei o cioran, que diz: “somente um monstro pode se permitir o luxo de ver as coisas tais como são. mas uma coletividade só subsiste na medida em que cria para si ficções".

o julio cortázar falou numa entrevista que é completamente apaixonado pela realidade, e isso é bastante significativo, em se tratando da fala de um cronópio. allen ginsberg achava que os seus escritos eram “sanduíches de realidades” e que ninguém estranhe o uso de alucinógenos para se enxergar melhor o tal do mundo, pois um sujeito que se achava mais sério já tinha tentado isso antes, o walter benjamin.

camille paglia, a contro(di)vertida filósofa norteamericana faz dessas palavras de george eliot as suas: “se tivéssemos uma aguda visão e sensação de toda vida humana comum, seria como ouvir a relva crescer e o coração do esquilo bater, e morreríamos desse rugido que está do outro lado do silêncio. na verdade, mesmo os mais rápidos de nós andam por aí bem acolchoados de bastante estupidez".

será por isso que shakespeare acha que “há mais coisas entre o céu e a terra do que vossa vã filosofia possa imaginar”? e o t.s.eliot, aquele inglês americano, em seu primeiro dos quatro quartetos acrescenta:

“vai vai vai disse o pássaro

o gênero humano não pode suportar

tanta realidade”

será que ele está falando da mesma coisa que a sua xará de sobrenome?

eu ouvi dizer que o freud, o nietzsche e o marx fizeram uma teorias bastante engenhosas sobre o assunto. se ninguém tivesse falado em realismo, ninguém falaria em surrealismo nem em realismo fantástico e nem em realismo mágico.

tudo bem, mas aqui no brasil, realidade quer dizer (pode perguntar para o senso comum) “aquilo que se lê nos jornais. e alguns se crêem informados sobre a “realidade” quando se dizem pessimistas ou mesmo quando falam de política.

mas o jogo da imprensa é tão ridículo como qualquer novela da globo: sem querer, ou às vezes querendo, a imprensa canoniza idéias mal-formuladas que se tornam grandes preconceitos para o populacho. populacho que, aliás, não está quase nunca preparado para assimilar conceitos, mas quase sempre está em ponto de bala para proferi-los como quem sabe da “realidade” (afinal, eu leio a veja toda semana)

dizem que a poesia é delírio. mas em meados do século xx, em lugares mais precários do nordeste onde não chegava a imprensa escrita (ou o povo não sabia ler) e mesmo o rádio só chegava cheio de chiado, ninguém acreditava em nada enquanto não vinha o cordelista com a sua rabeca e versejava as notícias tintim por tintim.

o conceito de realidade está muito ligado a seus inversos: ficção (que é a vida) e auto-engano. e eis que aparece eduardo giannetti dizendo “só engana a si mesmo quem não quer fazer isso.” e é por esse meio que acabamos por nos esquecermos de que a origem da incapacidade brasileira para falar de política não está na decepção, como supõe a maioria, mas por causa do medo (essa droga pesada): “se cumpade fala mau do patrão, o patrão vem e ouve e mata, sô!”

e assim a teoria da realidade acaba por engolir o próprio rabo, nos colocando de novo e sempre diante das velhas questões: o que é? quem é? como é? de onde emana? para que serve? somos nefelibatas então? é esse o enigma? a realidade é o jardim dos sendeiros que se bifurcam?

terça-feira

o jaguadarte nas terças poéticas



a notícia vai meio em cima da hora. mas ainda dá tempo: o ricardo aleixo se apresenta hoje lá no palácio das artes, às 18h30 no projeto terças-poéticas. falará poemas do seu livro mais recente: o "máquina zero", além de poemas de sebastião uchoa leite, falecido em 2003, o homenageado da vez. nos vemos lá. ah, uma dica: o livro estará à venda por apenas R$10,.

quinta-feira

men at work

é, pessoal. resolvi mudar o visual. peço desculpas pelos transtornos de cor. nossos funcionários estão desenvolvendo pesquisas na complicadíssima ciência do html para melhor atendê-la-lo. enquanto isso, vai dando aí os seus palpites...