segunda-feira

as destrezas do amor

o amor é o alcance da mão
é tudo aquilo que ele roça
quando estica os braços
quando estica os dedos

produtos importados direto
do país das surpresas do país dos medos
delícias sobre a mesa ou ao contrário
melecas em geléia para o piquenique

o amor é tudo aquilo que a mão toca
seja com a destra seja com a sinistra
seja com a boca seja com a orelha
seja com a luva seja com a vista

ninguém reclama quando o amor ama
no meio da praça não é atentado
se o beijo escandaliza a massa
ou se o fogo incendeia o ministério público

ninguém se mete quando a moça
extasiada pela língua do poeta
inaugura uma estátua fátua
o beijo de rodin na praça principal

ninguém se liga quando a eletricidade
da cidade se embanana porque
o camarada ama ou porque a menina
agora toda nua é a culpada do apagão

o amor é um camarada raro
que brinca com ratos pela calçada
e caça palavras pelos cruzamentos
quebrando cabeça no meio dos carros

o amor com seus desastres
derrama o chocolate sobre a roupa dos amantes
obrigados a matar serviço reinventam
a manhã agora num brinquedo novinho em flor

são as destrezas do amor
tropeça todo dia nos seus próprios mortos
bebe ri dança e balança e até morre com eles
é por isso que ele nunca está só

os desastres do amor

o amor está ao alcance da mão
então você estica os braços
tenta colhê-lo e ao fazê-lo
o empurra para mais distante

a distância te ajuda a compreendê-lo
quer dizer, a tê-lo entre os dedos
mas entre os dedos não basta
então você estica os braços, quer acolhê-lo

e ao fazê-lo, empurra ainda
para mais distante: a distância
te completa de angústias
você tem que declarar seu desespero

o amor quer ser cantado a cântaros
você se derrama nas águas do amor
e o amor é tudo ao redor
você é rio você é vento luz do sol você é ar

e te pedem que brilhe
como ao meio dia
então você brilha
e a sua luz ofusca os olhos do amor

agora é guiar aquele que você procurava
você cego procura o caminho certo
e guia quem tem os olhos foscos
mas não há mais tempo:

você defendeu o amor em todas as guerras
travou lutas contra ele em favor dele mesmo
e da única causa na qual pôde crer
e assim o deixa cada dia mais distante

mas isso não é tudo
o amor está em toda parte, você
quer amá-lo quer beijá-lo degustá-lo
no entanto, você está só

domingo

uma mulher com movimentos de rio

uma mulher com movimentos de rio
com transparentes trejeitos de água
uma menina de água
onde se lê o que passa e não retorna
um pouco de água onde os olhos bebam
onde os lábios de um só trago bebam
a árvore a nuvem o relâmpago
eu mesmo e a menina.


poema de octavio paz, em "semillas para un sueño"

terça-feira

poesia & cidade: formas de reconfiguração do espaço urbano

e na última edição da zip: zona de invenção poesia &, um assunto que dá o que falar. teremos a ilustríssima presença dos nossos camaradas renato negrão, mara de aquino, rita medeiros e waldemar euzébio. artistas que pensam a cidade, o espaço urbano de maneiras muito diferentes entre si. o jaguadarte anuncia que tão cedo não rola outra. quem quiser ver mais sangue na discussão, clique aqui.

quarta-feira

poesia & tecnologia: o racionalismo sensível

na próxima sexta, dia 23, às 18:30, acontece mais uma edição da zip: zona de invenção poesia &. no comando: ricardo aleixo. os convidados: álvaro andrade garcia, antônio sérgio moreira, benjamin abras, marcelo dolabela & oficina de experimentação poética e grupo oficcina multimédia. o tema: poesia e tecnologia: o racionalismo sensível.
ah, e o local: foyer do teatro francisco nunes, no parque municipal. imperdível.

sexta-feira

zip: zona de invenção poesia &




Hoje, sexta-feira, 16/6, às 18h30, no foyer do Teatro Francisco Nunes, acontece a segunda edição da Zona de Invenção Poesia & (ZIP). Estruturada como um programa de auditório, a ZIP, nesta semana, tem como tema “Poesia & Prosa: James Joyce, Guimarães Rosa”, como forma de homenagem a esses dois prosadores-poetas.
a dica é do jaguadarte. para mais informações: www.jaguadarte.zip.net

segunda-feira

eu imagino ou sonho de menina

imagino que você está ali
tem o sol
e este pássaro perdido de trinado tão estranho
diríamos uma tarde de verão
clara. sinto que estou ficando tola, tão tola
tenho imenso desejo de me deitar entre o feno,
com manchas de sol sobre a pele nua
asas de borboleta em largas pétalas
e toda espécie de insetos do planeta
ao meu redor

este é mais um poema de léopold sédar senghor

sexta-feira

semana cultural do senegal

chico césar já dizia: ser negão no senegal deve ser legal!
bem, na semana que vem começa a semana cultural do senegal. o evento acontece no centro cultural ufmg, de segunda a sexta com programação intensa. haverá uma comemoração do centenário de cimento do poeta e estadista léopold sédar senghor. o salamalandro se apresenta na segunda no sarau de abertura. e na terça, participa de uma mesa redonda sobre a vida e a obra desse poeta excepcional, criador de muita coisa bacana no século xx. além disso, a casa áfrica comemora os 25 anos da mazza edições. confira a programação:
De 22 a 26 de maio
Centenário de Nascimento Léopold Sédar Senghor & 25 anos Mazza Edições
Local: Centro Cultural da UFMG (av. Santos Dumont, 174, centro, BH)
DIA 22/05 – SEGUNDA-FEIRA19 h - Abertura Oficial da Semana e da exposição “Os Dentes do Leão e o Sorriso do Sábio” (Gueule du Lion et Sourire du Sage). Entrada franca.
20 h – Sarau poético em homenagem a Léopold Sédar Senghor, com os poetas e artistas Waldemar Euzébio, Benjamin Abras, Leonardo Gonçalves, Renato Negrão, Dóris Santos, Sérgio Fantini, Sérgio Pererê, Makely Ka, Grupo Poesia Hoje e a Orquestra de Berimbaus Capoeira Raízes. Entrada Franca
DIA 23/05 – TERÇA-FEIRA10h – Palestra Hora do Griot para as escolas , com Ibrahima Gaye (Economista/ Universidade Cheikh Anta Diop–Senegal / Fundador Centro Cultural Casa África). – Inscrições de grupos infanto-juvenis pelo telefone (31) 2127-0301 / 3344-1803. Entrada Franca
15h - Palestra Hora do Griot para as escolas, com Ibrahima Gaye.
16h - Mostra de Cinema Africano - Cine Casa África: A Negritude na Tela. Entrada franca
DIA 24/05 – QUARTA-FEIRA
10h - Palestra Hora do Griot para as escolas, com Ibrahima Gaye. Entrada franca
15h - Palestra Hora do Griot para as escolas, com Ibrahima Gaye. Entrada franca
16h - Mostra de Cinema Africano - Cine Casa África: A Negritude na Tela. Entrada franca
DIA 25/05 – QUINTA-FEIRA
10h - Palestra Hora do Griot para as escolas, com Ibrahima Gaye. Entrada franca
11h30 a 13h - Palestra A Representação do Conto e do Mito na Organização Educacional Senegalesa - Uma Leitura do Conto L´Os de Mor Lam, do poeta-contista senegalês Birago Diop com o prof. Amadou Abdoulaye Diop. Entrada franca
15h - Palestra Hora do Griot para as escolas, com Ibrahima Gaye. Entrada Franca
16h - Mostra de Cinema Africano - Cine Casa África: A Negritude na Tela. Entrada franca
19h - Lançamentos Mazza Edições 25 Anos: Coleção Olerê, com o livro “O Congado para Crianças” (Edimilson de Almeida Pereira/Ilustração: Rubem Filho); a Coleção Griot Mirim, com “Koumba e o Tambor Diambê” (Madu Costa/Ilustração: Rubem Filho), “Meninas Negras” (Madu Costa/Ilustração: Rubem Filho) e “Que Cor é a Minha Cor?” (Martha Rodrigues/Ilustração: Rubem Filho), e os livros “Becos da Memória” (Conceição Evaristo) e “A Fuzarca de Noé” (Ronaldo Simões Coelho/Ilustrações: Rubem Filho). Entrada Franca
DIA 26/05 – SEXTA-FEIRA
12h30 - Projeto 12:30 com a Companhia Baobá de Arte Afro-brasileira. Entrada franca
SEMINÁRIO: Leopold Sedar Senghor + Pensamentos e Movimentos da Afro-Diáspora
Debates sobre vida, obra e influência de Senghor na afro-diáspora. Coordenação: Prof. Amadou Abdoulaye Diop (Doutorando em Literatura Comparada na UERJ) - Inscrições pelo telefone (31) 2127-0301 / 3344-1803. Entrada franca
23/05 – 19:30h - Mesa-Redonda 1: “Vida e Obra do Bardo e Imortal Léopold Sédar Senghor”Composição: George Souza Cardoso, Ousmane Sane (Mestre em Comunicação Social/UFMG) e Leonardo Gonçalves (Poeta e Tradutor da obra de Senghor). Marcos Cardoso
Mediador: Amadou Marcos Cardoso (Mestre em História/UFMG)
24/05 – 19:30h Mesa-Redonda 2: “A Negritude e Suas Representações no Espaço e no Tempo “Composição: Maria Mazarello (Editora, Mestre em Editoração e Comunicação Visual pela Universidade Paris 13/França), Benilda Regina Brito (Psicopedagoga, Gerente de Educação Regional Norte de Belo Horizonte e Coordenadora da ONG Nzinga) e Eurico Josué Ngunga (Doutorando em Antropologia - IUEA/EUA).
Mediador: Amadou Abdoulaye Diop.
25/05 – 19:30h - Mesa-Redonda 3: “Senghor e a Crítica Literária”
Composição: Maria Nazareth Fonseca (Doutora em Literatura Comparada/UFMG), Íris Amâncio (Escritora, Doutora em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa/UFMG), Amadou Abdoulaye Diop e Ricardo Aleixo (Poeta, Escritor, Músico e Curador do Festival de Arte Negra - FAN).
Mediador: George Cardoso (pós-graduando em Estudos Africanos e Afro-brasileiros pela PUC Contagem e Diretor de Comunicação do Centro Cultural Casa África)
Minicurso História da África + Palestra sobre História do SenegalPeríodo: 23 a 26 de maio (terça a sexta-feira)
Professores senegaleses: Ousmane Sane (Mestre em Comunicação Social/UFMG) e El Hadji Diallo (Jornalista/Universidade Gama Filho – RJ)
Nº vagas: 30 alunos por turma
Turmas:
Manhã – Terça e quarta-feira - 9 às 13 horas; quinta e sexta-feira – 9 às 11 horas Tarde – Terça e quarta-feira - 15 às 19 horas; quinta e sexta-feira – 15 às 17 horas
Carga horária: 12 horasInvestimento: R$ 120,00 (inteira) e R$ 60,00 (Meia-entrada para universitários ou mediante doação de um livro de temática afro)
Inscrições pelo telefone (31) 2127-0301 / 3344-1803
7° Festa de Independência do Senegal
Sábado dia 03 de junho, a partir de 22h – Local: Gonguê
Ingressos antecipados: R$ 15,00 – Portaria: R$ 20,00Informações e vendas: (31) 2127-0301 / 3344-1803Informações: (31) 3344-1803 / 2127-0301 (Casa África) 3238-1078 / 3238-1079 (C.C. UFMG)

domingo

autofagia

está chegando na praça a revista autofagia. para saber mais informações, consulte o blogue do bruno brum (www.saborgraxa.blogspot.com). é isso aí. a programação você vê aqui mesmo.


programação - lançamento da revista de autofagia

18/05 [quinta] – 19h

debate: “a produção contra-industrial”
com estrela leminski [PR], luciana tonelli [MG], marcelo sahea [RJ] e nicolas behr [DF]

centro de cultura de bh [r. da bahia, 1149 - centro]

19/05 [sexta] – 19h

lançamento da revista e dos livros “cupido: cuspido e cscarrado”, de estrela leminski; “leve”, de marcelo sahea e “umbigo”, de Nicolas Behr.

Livraria Quixote [R. Fernandes Tourinho, 274 - Savassi]


20/05 [sábado] – 20h

Sarautofágico – outras deixas de música e literatura
Música e poesia com participação de músicos e colaboradores da Revista de Autofagia

Pastel de Angu [R. Alphonsus Guimarães, 62 - Santa Efigênia]

sexta-feira

negritude césaire, negritude senghor

minha negritude não é uma pedra, sua surdez gritada contra o clamor do dia
minha negritude não é uma nódoa de água morta no olho morto da terra
minha negritude não é nem uma torre nem uma catedral
ela mergulha na carne rubra do chão
ela mergulha na carne ardente do céu
ela perfura o golpe opaco de sua destra paciência

aimé césaire – do cahier d’un retour au pays natal


minha negritude não é sono da raça ela é sol do espírito, minha negritude é ver & viver
minha negritude é enxada na mão, lança em punho
recado. não é questão de beber de comer o instante que passa
azar se me enterneço sobre as rosas do cabo verde!
minha tarefa é a de despertar o meu povo aos futuros flamejantes
minha alegria de criar imagens para nutri-lo, oh luminosidades ritmadas da Palavra!

léopold sedar senghor – élegie des alizés

domingo

notas sobre a negritude

pode procurar por aí. o termo negritude é encontrado por toda parte. uma banda de pagode, um portal de web, uma linha fashion, coluna reservada para assuntos afro no jornal. poucos sabem que a palavra se espalhou por todo o mundo por causa de um movimento literário ocorrido nos anos 30, sob a tutela de três grandes escritores: aimé césaire, leon gontram damas e léopold sédar senghor.

tudo começou assim: um jovem estudante estigmatizado pela cor da pele publica no jornal l’étudiant noir um artigo defendendo a beleza e o valor de sua ‘negritude’. uma atitude repleta de mandinga e de gingado, pois estava usando um termo pejorativo a seu próprio favor. quando léopold sédar senghor leu o artigo, ficou empolgadíssimo, pois ninguém conhecia melhor do que ele a nobreza do seu povo. sintetizou: ‘negritude: o conjunto dos valores de civilização do povo africano.’ o termo transformou-se num conceito. e léopold foi quem levou a expressão às suas mais profundas conseqüências.

senghor nasceu em 1906 e publicou muita poesia, muita pesquisa em diversas áreas (lingüística, antropologia, sociologia, teoria literária) entre os anos 30 e os anos 50. em 1960 recebeu uma proposta dos líderes políticos do senegal: que se tornasse o presidente do país. e com uma vantagem: poderia governar enquanto quisesse. entre 1961 e 1980, quando já era um grande intelectual e poeta, senghor se tornou um dos maiores estadistas que o mundo já conheceu. e qual era o primeiro e grande conceito teórico que o norteou como político? quem responder marxismo, leninismo, maoísmo, castrismo, estará perdendo tempo: o conceito mestre da política senghoriana se chamava ‘negritude’.

a essas alturas, a ‘negritude’ já havia se transformado e crescido a proporções fenomenais. o termo, com o tempo, deixou de ser a afirmação de uma raça pra ser a exaltação de uma postura universalizante. o africano está em toda parte. o conceito se desdobrou depois em ‘mestiçagem’, ainda com o caráter inicial de afirmação dos valores de um povo estigmatizado pela história, mas com ênfase cada vez maior na questão cultural. e já começavam a surgir na própria áfrica movimentos e manifestações que contestavam a ‘négritude’. é o que fez por exemplo wole soyinka, autor nigeriano, hoje prêmio nobel de literatura: “um tigre não precisa declarar sua tigritude, ele salta sobre a sua presa”. o que em todo caso não é senão, um desdobramento da idéia inicial, agora interiorizada no movimento do corpo.

homenagens

no mês de março deste ano, publiquei na revista roda – arte e cultura do atlântico negro uma série de 5 poemas bastante representativos de léopold sédar senghor. é que em 2006 o poeta completaria 100 anos. e não esteve longe de completar, pois faleceu há apenas cinco anos. na revista, os editores ainda lembram de um festival mundial de arte negra que aconteceu em 1966, sob a chancela do então presidente do senegal (este festival terá sua segunda edição no ano que vem em dakar). a publicação foi portanto uma das primeiras manifestações brasileiras em comemoração ao centenário do poeta. mas não acaba por aí. a casa áfrica está organizando a ‘semana de cultura do senegal’ que acontece entre os dias 22 e 29 de maio de 2006. na ocasião haverá sarau, exposição, mesas redondas e outras coisitas mais em homenagem a esse grande camarada senegalês. fiquem atentos.

algumas informações sobre a poesia do célebre desconhecido

no brasil, pouquíssima gente sabe da existência de senghor. embora seja considerado uma das mais lúcidas cabeças do século, e a par disso, um dos maiores poetas da língua francesa, o brasileiro não teve acesso ao pensamento e à poética dele. uma única edição de seus poemas apareceu em 1969 pela extinta grifo edições em tradução de gastão jacinto gomes. uma vasta amostra da lírica senghoriana, com apenas dois defeitos: a edição não é bilíngüe, e além disso lá só se encontram poemas escritos até 1969: como não houve edição posterior, nada foi acrescentado e a edição definitiva da oeuvre poétique apareceria somente em 1989 com duas séries de ótimos poemas escritos nos anos 70 (como é o caso da “elegia para a rainha de sabá”) e outra de “traduções” de poemas tradicionais africanos (cantos banto, peul, bambara...).

portanto, falta muito ainda para oferecermos ao público brasileiro um panorama claro de sua obra.

outro ponto curioso é que sua poesia se insere numa tradição pouco explorada no brasil. nem mesmo o nosso cruz e sousa pode ser comparado com ele. a poesia dele é descendente direta de walt whitman e de paul claudel: versos longuíssimos, reflexões místico-cristãs, tradições, profecias e vozeirões (ao lado de flores da mais pura delicadeza:

pérolas

pérolas brancas
lentas goteletas
goteletas de leite fresco,
luzinhas fugitivas ao longo dos fios do telégrafo,
ao longo dos longos dias monótonos e grises!

a qual paraíso? a qual paraíso?
luzinhas primeiras da minha infância
jamais reencontrada…


perles

perles blanches,
lentes gouttelettes,
gouttelettes de lait frais,
clarets fugitives le long des fils télégraphiques,
le long des longs jours montones et gris!

à quel paradis? à quel paradis?
clartés premières de mon enfance
jamais retrouvée…)

pouquíssimas vezes se preocupa com a rima, jamais com a métrica. uma poesia que se irmana com o trabalho de neruda e saint john perse, cujos versos se aproximam da prosa.

ao mesmo tempo, a sua poesia é rica em sonoridades, aliterações, e principalmente, jogos visuais, fanopéia. como traduzir um verso como “l’ouragan arrache tout autour de moi”? g. j. gomes traduz assim: “o furacão tudo arranca ao meu redor”. há exatidão na imagem, mas o som do verso de cinco acentos sucessivos se perdeu. façamos mais uma tentativa vã:

o furacão

o furacão arrasta tudo em torno de mim
e o furacão arrasta em mim folhas e palavras fúteis.
turbilhões de paixão silvam em silêncio
mas paz sobre o tornado seco, ao final do inverno!

tu, vento ardente vento puro, vento de primavera, queima toda flor todo pensamento
vão quando recai a areia sobre as dunas do coração.
serva, suspende teu gesto de estátua e vós, crianças, vossos jogos e risadas de marfim.
tu, que ela consuma tua voz com teu corpo que ela seque o perfume de tua pele
a chama que ilumina minha noite, como uma coluna e como uma palma.
abrasa meus lábios de sangue, espírito, sopra sobre as cordas da minha kora
que se erga o meu cantar, puro como o ouro de galam.


l’ouragan

l’ouragan arrache tout autour de moi
et l’ouragan arrache en moi feuilles et paroles futiles
des tourbillons de passion sifflent en silence
mais paix sur la tornade sèche, sur la fuite de l’hivernage!

toi vent ardent vent pur, vent-de-belle-saison, brûle toute fleur toute pensée vaine
quand retombe le sable sur les dunes du coeur.
servante, suspends ton geste de statue et vous, enfants, vos jeux et vos rires d’ivoire.
toi, qu’elle consume ta voix avec ton corps, qu’elle sèche le parfum de ta chair
la flamme qui illumine ma nuit, comme une colonne et comme une palme.
embrase mes lèvres de sang, esprit, soufflé sur les cordes de ma kôra
que s’élève mon chant, aussi pur que l’or de galam.

sexta-feira

mulher negra

mulher nua, mulher negra
vestida de tua cor que é vida, de tua forma que é beleza!
eu cresci a tua sombra; a doçura de tuas mãos vendava meus olhos.
e eis que no ventre do verão e do meio-dia, eu te descubro, terra prometida, do alto de
um alto colo calcinado
e tua beleza me acerta em pleno peito, como o relâmpago de uma águia.

mulher nua, mulher obscura
fruto maduro de carne firme, sombrios êxtases do vinho negro, boca que bota lírica a minha boca.
savana dos horizontes puros, savana que freme às carícias quentes do vento leste
atabaque esculpido, atabaque tenso que rosna sob os dedos do vencedor
tua voz grave de contralto é o cântico espiritual da amada.

mulher nua, mulher obscura
azeite que não crispa nenhum sopro, azeite plácido nos flancos do atleta, nos flancos dos príncipes do mali
gazela de laços celestes, as pérolas são estrelas sobre a noite de tua pele
gozo de jogos espirituosos, os reflexos do ouro rubro sobre tua pele que rebrilha
à sombra de teus cabelos, se esclarece minha angústia aos sóis próximos de teus olhos.
mulher nua, mulher negra
eu canto tua beleza que passa, forma que fixo no eterno
antes que o destino cioso te reduza a cinzas para nutrir as raízes da vida.

a tradução é minha e está publicada na revista roda nº1. o poema é de léopold sédar senghor. para ler o original, clique aqui. este poema é considerado o grande hino do continente africano, onde a áfrica é comparada com uma mulher extremamente sensual. eu comparo dialeticamente este poema com um poema de cruz e sousa: afra. um dia eu ainda explico por quê.

medusa

Cortei a cabeça da Medusa
por inveja. Quis eu mesmo o olhar
sem olhos que vê e se recusa
a ser visto e desse modo faz
das demais pessoas pedras: pedras
sim, preciosas, da mais pura água,
onde o olhar mergulha até a medula,
diáfanas, translúcidas, cegas.
Refleti muito, antes. Na verdade
estes meus olhos provêm de carne
de mulher, não do nada imortal
da divindade. Como encarar
com eles a Górgona? Mas mal
pensando assim, lembrei ser mortal
ela também: e seu pai é um deus
do mar mas eu sou filho de Zeus.
Mesmo assim não quis enfrentá-la olhos
nos olhos. Peguei emprestado o espelho
da minha irmã e adentrei o cômodo
da Medusa de soslaio, vendo
tudo por reflexos: o seu corpo
em terceiro plano, atrás de heróis
de pedra e dos meus olhos esconsos
em primeiríssimo. Eis o corte
da lâmina especular: do lado
de cá eu, sem corpo, a olhar; do outro
lado eu, olho olhado, olho enviesado
e rosto e corpo entre muitos corpos,
um dos quais o dela. A mesma lâmina
decapitou-a também: do lado
de cá guardo seu olhar e faina;
e lá jaz seu vulto desalmado.
Mas nada é tão simples. Do pescoço
cortado nasceu um cavalo de asas
(é que o deus do mar a engravidara)
e mergulhou no horizonte em fogo
crepuscular. Dizem que, no monte
Hélicon, seu coice abriu uma fonte.
A ser não sendo, de madrugada
levanto com sede dessa água.


é um poema de antônio cícero, que esteve em bh na última terça-feira para as terças poéticas. achei no blogue da letícia

quarta-feira

semana desligue a sua tv

domingo

novas aventuras

aí estão os meus amigos com novas perspectivas bloguísticas. aliás, de um tempo pra cá tem uma turma bacana mudando de endereço pra melhor. primeiro a lenise regina, o george cardoso, a letícia féres (confiram aí do lado na sala de blogues). e agora mais o renato negrão (www.nocalo.blogspot.com) e o marcelo terça-nada (www.virgulaimagem.redezero.org). se me baixasse o telê santana hoje, eu montaria um time com essa turma. então: saravá!

coisas que têm feito a cabeça do salamalandro

oriki orixá. antônio risério.

antônio risério é um baiano retado capaz de conciliar extremo rigor com paixão fulminante. antropologia? filosofia? poesia? o livro trata de tudo isso sem perder a profundidade em nenhum instante.
alguém pergunta: e o que é um oriki? o mais fácil seria dizer que são poemas de elogio de uma entidade, personalidade ou (no caso dos traduzidos neste livro) um orixá. mas se isso respondesse a tudo, nada justificaria o longo e curioso comentário que precede os poucos e exemplares orikis que aparecem ao final do livro.
o assunto faz o leitor curioso se lembrar da faceta mais esquecida da nossa formação enquanto povo: a áfrica. e aqui ela aparece em trono de brilhos e cores.


bantos malês e identidade negra. nei lopes
e por falar em áfrica, em se tratando do segundo maior continente do planeta, pode-se dizer que sabemos ainda menos da nossa origem banto. aliás, não sabemos quase nada sobre os povos africanos em geral. acho que eu já disse isso por aqui.
este livro elucida coisas que eu nunca supus:
1. dos negros que vieram para o brasil, boa parte era de origem muçulmana (conhecidos como malês).
2. os povos bantos são considerados povos inferiores pela historiografia brasileira.no entanto, representaram, na história, uma das maiores resistências ao poderio europeu. (destaque para a rainha que ficou conhecida por nzinga. reinando desde matamba, angola, foi o osso duro que portugual nunca conseguiu roer de todo).
3. se a nossa fala se distingue da fala de portugal, o principal motivo, ao que parece, é a presença dos povos banto no brasil.
de modo que este livro tem me oferecido um novo tempo mítico para as minhas concepções de mundo. (quem quiser saber mais sobre o camarada nei lopes, procure por aí. já postei outro dia um comentário sobre ele).

detalhe: este livro encontra-se esgotado em todo o brasil. mas sei de uma promessa do autor de uma edição revista. saravá!


personas sexuais - arte e decadência de neffertiti a emily dickinson. camille paglia.
este é um desses livros bons para derrubar conceitos fáceis e pré-estabelecidos no ocidente. de fato, em geral, a tendência é escolher por uma saída racional para as questões que angustiam o ser humano. mas camille é seguidora de sade. propõe uma solução dilacerante e dionisíaca para o famoso sonho de rouseau de que "homem é bom por natureza, é o meio que o estraga" - origem de todas as utopias modernas. história da arte. história da sexualidade. história da literatura. antropologia. psicologia. personas sexuais é tudo isso e ainda mais.
deixo aqui apenas uma frase, que aliás, gosto muito: "o dionisíaco não é nenhum piquenique."
detalhe: para variar, o livro encontra-se também esgotado em todo o brasil.


el arco y la lira. octavio paz.
quem me conhece já sabe: este livro me acompanha há pelo menos uns cinco anos. é meu livro de cabeceira. o maior e melhor testemunho de um apaixonado pela linguagem das linguagens que já tive em mãos. perto dele, o abc da literatura do ezra pound fica no chinelo. afinal, estamos falando de um dos maiores intelectuais da américa latina. no tratado, paz concilia densa poesia com profunda dissertação. como as outras coisas que mexem comigo, nele também você encontra: poesia, filosofia, antropologia, crônica de costumes, teoria literária. e pora aí vai.
a primeira edição deste livro foi escrita em 1955. desde então, octavio paz fez algumas atualizações, mas creio que as principais idéias não mudaram muito. e é de uma atualidade desconcertante.
como encontrar? a edição castelhana encontra-se com facilidade. a brasileira não. publicada há uns 20 anos pela nova fronteira, está hoje completamente esgotada. aquele que a encontrar terá nas mãos uma raridade. agora, para os apaixonados pela linguagem, um conselho: leia o livro no original.

da série poetas que possuem luz própria

álvares de azevedo