um povoado escuta entristecido
o canto de um pássaro ferido
é o único pássaro do povoado
e o único gato do povoado
devorou pela metade o passarinho
e o pássaro para de cantar
e o gato para de ronronar
e de lamber o focinho
e o povoado faz pro passarinho
um maravilhoso funeral
e o gato que foi convidado
segue o cortejo atrás do caixãozinho de palha
onde o pássaro morto está deitado
carregado por uma menininha
que não para de chorar
se eu soubesse que isso iria te causar tanta dor
lhe diz o gato
eu o teria comido inteirinho
e depois te contaria
que o havia visto voar
voar até o fim do mundo
lá onde o longe é tão longe
que ninguém jamais pode voltar
você teria sofrido menos
apenas tristeza e saudade
a gente não deve nunca fazer as coisas pela metade
é um poema de jacques prévert
domingo
o gato e o passarinho
para fazer o retrato de um passarinho
pintar primeiro uma gaiola
com uma porta aberta
pintar em seguida
algo de bonito
algo de simples
algo de lindo
algo de útil
para o passarinho
pendurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem nada dizer
sem se mexer
às vezes o passarinho chega rápido
mas pode também demorar muitos anos
antes de se decidir
não desanimar
esperar
esperar se preciso durante anos
a rapidez ou a lentidão da chegada do passarinho
não tendo nenhuma relação
com o êxito do quadro
quando o pássaro chega
se ele chega
observar o mais profundo silêncio
esperar que o passarinho entre na gaiola
e quando ele entrar
fechar calmamente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades
tendo o cuidado de não tocar nenhuma das penas do passarinho
fazer em seguida o retrato da árvore
escolhendo o mais belo de seus galhos
para o passarinho
pintar também a verde folhagem e a frescura do vento
a poeira do sol
e o barulho dos bichos do mato no calor do verão
e depois esperar que o passarinho se decida a cantar
se o passarinho não canta
é mal sinal
sinal de que o quadro vai mal
mas se ele canta é bom sinal
sinal de que você pode assiná-lo
então você retira docemente
uma das penas do passarinho
e escreve seu nome no canto do quadro.
["pour faire le portrait d'un oiseau"
poema de jacques prévert
temporariamente traduzido por mim]
sábado
revista etcetera #20 - no ar!!!!
janine 1
pourquoi tu m'appelles janine
alors que j' m'appelle thérèse ?
pourquoi tu m'appelles ardèche
alors que j' m'appelle corrèze ?
pourquoi tu m'appelles triangle
alors que j' m'appelle trapèze ?
pourqoi tu m'appelles louis xv
alors que j' m'appelle louis xvi ?
pourquoi tu m'appelles oeuf coq
alors que j' mappelle omelette ?
pourquoi tu m'appelles hautbois
alors que j' m'appelle trompette ?
pourquoi tu m'appelles don juan
alors qu' j'ai une p'tite quéquette ?
pourquoi tu m'appelles képi
alors que j' m'appelle casquette ?
(por que você me chama de janine,
quando eu me chamo thérèse?
por que você me chama de ardèche
quando eu me chamo corrèze
por que você me chama de triângulo
quando eu me chamo trapézio
por que você me chama de ovo quente
quando eu me chamo omelete
por que você me chama de oboé
quando eu me chamo trompete?
por que você me chama de don juan
quando eu tenho um pingolete
por que você me chama de quépi
quando eu me chamo capacete?)
tá no disco le fil. de camille.
(procure o site na próxima mensagem)
camille - le fil
quinta-feira
terça-feira
cordel do fogo encantado, joão cabral de melo neto e os bonecos
só um comentário: joão cabral nunca podia imaginar que o poema dele seria falado por uma banda de rock'n roll, em plena praça da estação, pra uma platéia repleta de jovens e adolescentes. saravá lirinha!
o sábia no sertão,
quando canta me comove,
passa três meses cantando
e sem cantar passa nove
porque tem a obrigação
de só cantar quando chove
sábado
palavras do revolucionista bernard shaw
um revolucionista é aquele que deseja descartar a ordem da existência social e tentar outra.
auto-sacrifício
auto-sacrifício habilita-nos a sacrificar outras pessoas sem a menor vergonha.
se você começa a sacrificar-se por aqueles que ama, acaba odiando aqueles para quem você se sacrificou.
civilização
a civilização é uma doença produzida pela prática de construir sociedades com material podre.
aqueles que admiram a civilização moderna costumam identificá-la com a máquina a vapor e o telégrafo elétrico.
aqueles que entendem a máquina a vapor e o telégrafo elétrico gastam suas vidas tentando substituir-se por algo melhor.
a imaginação não pode conceber um criminoso mais vil que aquele que construiria outra londres como a atual, nem um maior benfeitor que aquele que a destruiria.
experiência
os homens são sábios em proporção, não à sua experiência, mas à sua capacidade para a experiência.
se pudéssemos aprender da mera experiência, as pedras de londres seriam mais sábias do que os mais sábios homens.
razão
o homem racional adapta-se ao mundo: o irracional persiste tentando adaptar o mundo a si mesmo. portanto, todo progresso depende do irracional. o homem que ouve a razão, está perdido: a razão escraviza todos aqueles cuja mente não é forte o bastante para dominá-la.
quarta-feira
revista roda nº2 - eparrei!
e eis que chega a revista roda número 2. lindona, como a primeira. gratas surpresas: presença de gente boníssima: antônio risério, benjamin abras, chacal, george cardoso, jackie kay, paulo leminski e virna teixeira. só pra começar a listas dos camarás.
terça-feira
música fora de foco
começa hoje e vai até o dia 20 de agosto, na fundação de educação artística o projeto "música fora de foco". a mostra traz um grupo de 6 artistas ou grupos que oferecem de diferentes maneiras, sua forma de renovar a linguagem musical.
veja a programação (sempre às 20h30):
terça-feira, dia 15: felipe amorim
quarta-feira, dia 16: o grivo
quinta-feira, dia 17: paulo álvares
sexta-feira, dia 18: tato taborda e alexandre fenerich
sábado, dia 19: chelpa ferro
domingo, dia 20: pex baa
a fundação de educação artística fica na rua gonçalves dias, 320 - funcionários (quase esquina com avenida getúlio vargas)
segunda-feira
as destrezas do amor
o amor é o alcance da mão
é tudo aquilo que ele roça
quando estica os braços
quando estica os dedos
produtos importados direto
do país das surpresas do país dos medos
delícias sobre a mesa ou ao contrário
melecas em geléia para o piquenique
o amor é tudo aquilo que a mão toca
seja com a destra seja com a sinistra
seja com a boca seja com a orelha
seja com a luva seja com a vista
ninguém reclama quando o amor ama
no meio da praça não é atentado
se o beijo escandaliza a massa
ou se o fogo incendeia o ministério público
ninguém se mete quando a moça
extasiada pela língua do poeta
inaugura uma estátua fátua
o beijo de rodin na praça principal
ninguém se liga quando a eletricidade
da cidade se embanana porque
o camarada ama ou porque a menina
agora toda nua é a culpada do apagão
o amor é um camarada raro
que brinca com ratos pela calçada
e caça palavras pelos cruzamentos
quebrando cabeça no meio dos carros
o amor com seus desastres
derrama o chocolate sobre a roupa dos amantes
obrigados a matar serviço reinventam
a manhã agora num brinquedo novinho em flor
são as destrezas do amor
tropeça todo dia nos seus próprios mortos
bebe ri dança e balança e até morre com eles
é por isso que ele nunca está só
os desastres do amor
o amor está ao alcance da mão
então você estica os braços
tenta colhê-lo e ao fazê-lo
o empurra para mais distante
a distância te ajuda a compreendê-lo
quer dizer, a tê-lo entre os dedos
mas entre os dedos não basta
então você estica os braços, quer acolhê-lo
e ao fazê-lo, empurra ainda
para mais distante: a distância
te completa de angústias
você tem que declarar seu desespero
o amor quer ser cantado a cântaros
você se derrama nas águas do amor
e o amor é tudo ao redor
você é rio você é vento luz do sol você é ar
e te pedem que brilhe
como ao meio dia
então você brilha
e a sua luz ofusca os olhos do amor
agora é guiar aquele que você procurava
você cego procura o caminho certo
e guia quem tem os olhos foscos
mas não há mais tempo:
você defendeu o amor em todas as guerras
travou lutas contra ele em favor dele mesmo
e da única causa na qual pôde crer
e assim o deixa cada dia mais distante
mas isso não é tudo
o amor está em toda parte, você
quer amá-lo quer beijá-lo degustá-lo
no entanto, você está só
domingo
uma mulher com movimentos de rio
uma mulher com movimentos de rio
com transparentes trejeitos de água
uma menina de água
onde se lê o que passa e não retorna
um pouco de água onde os olhos bebam
onde os lábios de um só trago bebam
a árvore a nuvem o relâmpago
eu mesmo e a menina.
poema de octavio paz, em "semillas para un sueño"
terça-feira
poesia & cidade: formas de reconfiguração do espaço urbano
e na última edição da zip: zona de invenção poesia &, um assunto que dá o que falar. teremos a ilustríssima presença dos nossos camaradas renato negrão, mara de aquino, rita medeiros e waldemar euzébio. artistas que pensam a cidade, o espaço urbano de maneiras muito diferentes entre si. o jaguadarte anuncia que tão cedo não rola outra. quem quiser ver mais sangue na discussão, clique aqui.
quarta-feira
poesia & tecnologia: o racionalismo sensível
na próxima sexta, dia 23, às 18:30, acontece mais uma edição da zip: zona de invenção poesia &. no comando: ricardo aleixo. os convidados: álvaro andrade garcia, antônio sérgio moreira, benjamin abras, marcelo dolabela & oficina de experimentação poética e grupo oficcina multimédia. o tema: poesia e tecnologia: o racionalismo sensível. sexta-feira
zip: zona de invenção poesia &
segunda-feira
eu imagino ou sonho de menina
imagino que você está ali
tem o sol
e este pássaro perdido de trinado tão estranho
diríamos uma tarde de verão
clara. sinto que estou ficando tola, tão tola
tenho imenso desejo de me deitar entre o feno,
com manchas de sol sobre a pele nua
asas de borboleta em largas pétalas
e toda espécie de insetos do planeta
ao meu redor
este é mais um poema de léopold sédar senghor
sexta-feira
semana cultural do senegal
domingo
autofagia
está chegando na praça a revista autofagia. para saber mais informações, consulte o blogue do bruno brum (www.saborgraxa.blogspot.com). é isso aí. a programação você vê aqui mesmo.
programação - lançamento da revista de autofagia
18/05 [quinta] – 19h
debate: “a produção contra-industrial”
com estrela leminski [PR], luciana tonelli [MG], marcelo sahea [RJ] e nicolas behr [DF]
centro de cultura de bh [r. da bahia, 1149 - centro]
19/05 [sexta] – 19h
lançamento da revista e dos livros “cupido: cuspido e cscarrado”, de estrela leminski; “leve”, de marcelo sahea e “umbigo”, de Nicolas Behr.
Livraria Quixote [R. Fernandes Tourinho, 274 - Savassi]
20/05 [sábado] – 20h
Sarautofágico – outras deixas de música e literatura
Música e poesia com participação de músicos e colaboradores da Revista de Autofagia
Pastel de Angu [R. Alphonsus Guimarães, 62 - Santa Efigênia]
sexta-feira
negritude césaire, negritude senghor
minha negritude não é uma pedra, sua surdez gritada contra o clamor do dia
minha negritude não é uma nódoa de água morta no olho morto da terra
minha negritude não é nem uma torre nem uma catedral
ela mergulha na carne rubra do chão
ela mergulha na carne ardente do céu
ela perfura o golpe opaco de sua destra paciência
aimé césaire – do cahier d’un retour au pays natal
minha negritude não é sono da raça ela é sol do espírito, minha negritude é ver & viver
minha negritude é enxada na mão, lança em punho
recado. não é questão de beber de comer o instante que passa
azar se me enterneço sobre as rosas do cabo verde!
minha tarefa é a de despertar o meu povo aos futuros flamejantes
minha alegria de criar imagens para nutri-lo, oh luminosidades ritmadas da Palavra!
léopold sedar senghor – élegie des alizés










