je te lançais de mes crachats sur le sublime
et t'attendais dans un coin des heures mortes
je savais bien que tu ne venais pas
et tu riais
et tu riais
et tu riais
je t'attendais dans un coin aux heures mortes
d'amour avec curitiba et personne ne venait
ton amour était rien aux heures mortes
tu ne venais pas
tu ne venais pas
tu ne venais pas
je te déchirais de tout ton corps à l'eau de vie
et te disais d'aller aux gouffres de l'enfer
tu dansais sur me crachats sur mes crachats
et buvais
et buvais
et buvais
et je vivais pour adoucir bien ta faveur
et ma cravate était percée dans ton poil
je me promenais par les coins les petites places
et tu mentais
et tu mentais
et tu mentais
j'enregistrais sur le détail chacun de nos rêves
pour présenter au fantastique à la chaîne mondiale
tu dansais toute la nuit sur mes crachats
e je dansais avec toi sur mes épaules
à la chaîne mondiale
c'était ma fin
c'était ma fin
c'était ma fin
segunda-feira
um poema de paul verlaine
circunspecção
dá tua mão, não respira, senta aqui, à
sombra desta árvore onde morre a brisa
aos suspiros da copa cor de cinza
que o lívido luar acaricia.
imóveis, baixemos a mirada pia
sem pensar, sonhemos. deixemos à guisa
do amor e da alegria que amenizam
e em nossa cabeça a coruja pia
para quê esperar? discreta e contida
que nossas almas prossigam
essa calma e essa serena morte solar
silêncio, em meio à paz noturna:
não é bom vir em seu sono atrapalhar
a natureza, essa deusa feroz e taciturna.
(tradução livre leve e solta: leo gonçalves)
um trecho do breviário dos vencidos, de e. m. cioran
é em suas intolerâncias que o homem é um homem. alguém te enganou? nutra o ódio em você, alimente seu rancor secreto, aqueça a bile em suas veias. e se às vezes você sente que a ampla quietude das noites te ganha, não se deixe cair no esquecimento lenitivo da meditação – açoite sem piedade a sua carne amolecida, deixe o seu veneno no corpo do adversário. senão, para quê prolongar uma vida que só servirá de fardo?"
a revista viva voz e "a lata" de patrícia mc quade
a latapor patrícia mc quade
sentiam-se comprimidos, envergonhados, condensados, apertados, oprimidos, sintetizados, humlhados, amassados.
os rostos derrotados eram mais que cansados. e pagavam por isso. todo o peso do mundo exercia pressão por todos os lados. perfeita imitação de uma lata de sardinha. precisavam pagar por isso. humanos desafiando a física. como dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço? e pagavam caro por isso.
os cidadãos dentro da lata sobre rodas suavam. termômetros acusavam: o dia mais quente o verão. poucos sentados. a maioria de pé. todos tremendo juntamente com o motor que roncava. aquela lata cantava de maneira insuportável. por que deus criou nossos ouvidos? e as pessoas pagavam por isso.
gente encostada nas janelas abertas, aproveitando o alívio do vento morno. os outros empilhados, de braços erguidos, sustentando no equilíbrio os corpos uns dos outros. a total coletividade individual, com dificuldade de respirar, agonizava e pagava por aquele ar que cheirava a dia de trabalho e de competitividade por emprego, por dinheiro, por status, por oportunidade e, agora, por espaço. e pagavam pelo não-merecido.
fora da lata começava a chuva mansa que ao toque com o asfalto incandescente produzia um mormaço ainda mais insuportável que o calor do sol. o mormaço queria também o espaço da lata, que já possuía o calor de seu motor e o suor dos corpos, e entrou sem pagar por isso, transformando a lata em uma panela de pressão. e o cozido humana pagava sempre por isso.
a velocidade oscilava em sucessivas paradas para que os sujeitos já compactados descessem e outros embarcassem. a lata cada vez mais carregada e lenta, com a preguiça de uma babosa, se arrasta pelas ladeiras da cidade e em freadas bruscas e arrancadas estúpidas, e o traçado de curvas ondulantes, seguimento retilíneo, tudo isso como regras de um joguete de corpos que obedeciam ao ritmo imposto: para frente, para trás, para a direita, para a esquerda, agora lançamento oblíquo. sem ordem, ao acaso. os corpos obedeciam, amontoados e deprimentes e pagavam a viagem com dinheiro roto, suado, mas sempre pagavam por isso.
(traduzido do castelhano por leo gonçalves)
sexta-feira
a disciplina do ódio
* * *
* * *
* * *
quinta-feira
nossos beijos costurados
nossos beijos costurados sobre a camiseta
tão inquietos os beijinhos
que caminham rebeldes pela pele
e se agarram como manchas no pescoço
eu brinco a beça com a sua cabeça
tem piolhos tem caprichos muitos grilos
pelos loiros coloridos
eu colo no seu colo a minha boca
e você se perde
porque agora tem um mar de cheiros
o amargo mar de onde arde o nardo
e cresce entre as pernas da menina
com meu ramo mirrado e uma rosa uma rosa
uma rosa sob a minha mira
sei os beijos na palma da mão
e palmas para o movimento gostoso
da palmeira no vento e sua palma
magrinha como o visgo do dendê
os beijos sobre os beijos pela pele
derramam bálsamos a cântaros
e perfumam qual o cedro o seu ciúme
a casa não tem varanda a que se preste
a sacanagem santa desses nossos beijos
que correm cosidos pela camiseta
tão inquietos os beijinhos
passeando rebeldes pela pele
& te adornando no pescoço nas orelhas
segunda-feira
o salamalandro na biblioteca girapemba
laroiês e evohés! essa semana tive a honra de colaborar para a "biblioteca girapemba", do blogue "folhas de girapemba" de ana maria ramiro. a proposta dela é bem interessante: em cada apresentação, um poeta fala de sua formação, suas referências e preferências. ao final, uma seleção de 5 poemas preferidos do autor em questão e um do próprio entrevistado. vale a pena conferir. para a proposta já colaboraram: marcelo sahea, claudio daniel, linaldo guedes e thiago ponce de moraes. caprichosa nas cores e escolhas, filha de iya mi, ana está montando uma biblioteca bacana. para esta seleção, ela escelheu o meu "canto para matamba", que vocês poderão ler lá mesmo, na íntegra. valeu, ana. ótimo jeito de começar a semana.
escrito por
Leo Gonçalves
no dia
15.10.07
assuntos: bloguesfera, poesia, poesia contemporânea, vida, voz
quarta-feira
oyá (iansã)
menina afogueada fruta verde
virada na ponta do casco
brasa que anima o toque
ventania da savana
fagulha ligeira que esparrama
é parreira alada, é Matamba
folha rebelde de Aruanda
(é um poema de ana maria ramiro, publicado na bela antologia 8 femmes. ótima pedida para a primeira quarta-feira de liberdade.)
segunda-feira
domingo
carta de alforria
(letra para um possível samba)
quando você foi embora
eu não chorava eu não chorava
eu sorria, ai meu bem, eu só ria
quando você foi embora
eu sorria eu só sorria
quando você foi embora
foi carta de alforria
fiz um pacto de sangue com a liberdade
de agora em diante
só me deixo prender o coração
se for numa fina fita de brilhante
eu vou me mandar daqui
quero morar na casa felicidade
no barraco da filosofia
eu quero viver de verdade
quero curtir a minha carta de alforria
antes que seja tarde
quando você foi embora
eu não chorava eu não chorava
eu sorria, ai meu bem, eu só ria
quando você foi embora
eu sorria eu só sorria
quando você foi embora
foi carta de alforria
sábado
sexta-feira
servidão - dica para o seu fim de semana em bh
o espetáculo servidão [livre adaptação da novela "of human bondage", de somerset maughan, dirigido por carlos gradim e encenado por luiz arthur, cynthia paulino, samira ávila e alexandre cioletti] estréia hoje, sexta-feira, dia 05 de outubro, no Odeon Espaço Cultural (r. tenente brito melo [paralela com a barbacena], 254 - barro preto). estréia hoje às 21h e só vai até domingo.
quarta-feira
julius
www.contrasenso.info
www.julius.es
escrito por
Leo Gonçalves
no dia
3.10.07
assuntos: arte, bloguesfera, guerrilha, poesia, poesia contemporânea, terrorismo poético, vanguarda, vida, voz
terça-feira
waly salomão, jards macalé, luiz melodia e o mal secreto
mal secreto
(jards macalé – waly salomão)
não choro
meu segredo é que sou rapaz esforçado
fico parado, calado, quieto
não corro, não choro, não converso
massacro meu medo
mascaro minha dor
já sei sofrer
não preciso de gente que me oriente
se você me pergunta “como vai”?
respondo sempre igual “tudo legal”
mas quando você vai embora
movo meu rosto do espelho
minha alma chora
vejo o Rio de Janeiro
comovo, não salvo, não mudo
meu sujo olho vermelho
não fico parado, não fico calado, não fico quieto
corro, choro, converso
e tudo mais jogo num verso
intitulado Mal Secreto
domingo
zé celso & os sertões no rio de janeiro
assim como outras peças do oficina, "os sertões" é um capítulo da luta que o grupo trava contra o grupo sílvio santos (ss) há 25 anos. "as bacantes", "boca de ouro", "ham-let". isto porque o teatro está construído exatamente no lugar onde sílvio santos planeja construir um imenso shopping center. uma história sórdida que está documentada no site do oficina e que merece ser acompanhada na íntegra. uma guerra de davi e golias, a velha guerra entre arte e capitalismo.
numa entrevista à revista folhetim, zé celso comenta:
"o teatro oficina é uma coisa muito estranha porque não é mais nem uma metáfora: eu comecei não querendo entregar o teatro, quando voltei do exílio, por uma questão até de birra, porque saí de lá à força, com a polícia invadindo etc. e de repente, eu me vi pensando: "não, eu podia fazer exatamente tudo que eu faço em outro lugar, como posso fazer todas as peças que faço noutro lugar, mas, se eu fizer nesse lugar, eu vou ter mais problemas e, conseqüentemente, esses problemas vão me inspirar mais, porque se trata realmente de ver até que ponto existe um poder na cultura e na arte e qual é o confronto que elas estabelecem com as forças reais da sociedade, até que ponto o teatro tem algum poder."agora, no princípio de outubro, a peça "os sertões" se apresenta mais uma vez na íntegra. desta vez, no rio de janeiro, depois de ter passado pelo recife e salvador em uma mini-turnê (que infelizmente não inclui belorizontem) a obra se insere na programação da 8º riocenacontemporânea. para mais informações:
www.riocenacontemporanea.com.br
www.teatroficina.com.br
escrito por
Leo Gonçalves
no dia
30.9.07
assuntos: arte, guerrilha, outra imprensa, poética, política, teatro, terrorismo poético
sábado
saravá roberto piva
escrito por
Leo Gonçalves
no dia
22.9.07
assuntos: arte, performance, poesia, terrorismo poético, voz
dica para os amigos de brasília
escrito por
Leo Gonçalves
no dia
22.9.07
assuntos: arte, dica cultural, performance, poesia, voz
quinta-feira
release: lançamento do livro com/posições de juan gelman
Com/posições é um livro híbrido, onde o autor recria diversos poetas árabes e judeus antigos fazendo deles ao mesmo tempo parceiros e heterônimos de Juan Gelman. Assim, os autores “traduzidos” vão desde o rei Davi até a poetas árabe-espanhóis da idade média, o período conhecido como Al-Andaluz. Mas a escolha dos poemas ali presentes não é sem razão: o argentino se vale das vozes antigas para falar de sua própria condição de exilado.
A primeira edição desta obra em língua castelhana se deu em 1986 e os poemas foram escritos entre 1984 e 1985, período em que ainda se comia os frutos da ditadura militar argentina (1976-1983), uma das mais sangrentas e cruéis da história. Gelman foi uma das vítimas mais célebres do regime militar. Em 1976, pouco depois do golpe, os militares invadiram a casa do poeta, seqüestraram o seu filho e sua nora, Marcelo e Claudia (que estava grávida) e os levaram a um campo de concentração no Uruguai onde foram mortos e desaparecidos. Gelman continuou vivo, pois já havia conseguido asilo político na Europa e passou a seguir numa busca revoltada e incansável por notícias do neto (mais tarde saberia que era neta) e os restos mortais do filho e da nora. Em 1989 o governo militar encontrou as ossadas de Marcelo e somente em 2000, apareceram notícias de sua neta e Claudia, por sua vez, a despeito da campanha internacional que se deu durante todo o período, segue desaparecida e a causa dada como perdida.
Com este episódio lamentável, Gelman manteve-se em constante revolta e não silenciando jamais as iniqüidades do governo militar. Entretanto, uma marca de sua poesia é uma imensa ternura e uma grande manifestação de amizade para com o seu povo. O escritor Júlio Cortázar, num artigo de 1981, comenta: “Talvez o mais admirável em sua poesia seja sua quase impensável ternura ali onde mais se justificaria o paroxismo do rechaço e da denúncia, sua invocação de tantas sombras por meio de uma voz que sossega e arrulha, uma permanente carícia de palavras sobre tumbas ignotas”.
Gelman vem sendo traduzido para vários idiomas e vem também acumulando diversos prêmios pelo mundo afora. Entre os prêmios principais destacam-se os seguintes: Nacional de Poesia 1993-1996 (Argentina, 1996), Literatura Latinoamericana y del Caribe Juan Rulfo (México, 2000), José Lezama Lima – Casa de las Américas (Cuba, 2003), LericiPEA (Itália, 2003), Pablo Neruda (Chile, 2005), Premio Reina Sofía de Poesía Iberoamericana (Espanha, 2005). Sobre sua inventividade poética, comenta o poeta paulistano Haroldo de Campos: “Eu considero o Gelman, hoje, um dos maiores poetas da língua espanhola em geral e, também, no nível internacional. Por isso, temos de divulgar a sua poesia.”
O livro, além de trazer na íntegra os poemas “Com/posições” (Com/posiciones, no original), traz também um precioso prefácio do tradutor e uma entrevista com os tradutores brasileiros Andityas Soares de Moura e Leonardo Gonçalves, originalmente publicada em 2005 no Suplemento Literário de Minas Gerais.
Para maiores informações, consulte os sites:
www.crisalida.com.br
www.juangelman.com (este site em espanhol é mantido pelo próprio autor)
escrito por
Leo Gonçalves
no dia
20.9.07
assuntos: américa latina, dica cultural, juan gelman, livros, mercado editorial, poesia
negras imagens em movimento
por Regina Barbosa da Silva













