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quinta-feira

fest'afro brasil

saiba mais no site da Casa África: www.casaafrica.com.br

domingo

às vésperas do 20 de novembro

epopéia de zumbi
(nei lopes)

e de repente
era um, eram dez, eram milhares
sob as asas azuis da liberdade
nascia o estado de palmares
mas não tardou
e a opressão tentou calar não conseguiu
o brado da vida contra a morte
no primeiro estado livre do brasil
forjando ferro de ogum
plantando cana e amendoim
dançando seus batucajes
pilando milho e aipim
fazendo lindos samburás
amando e vivendo enfim
durante cem anos ou mais
palmares viveu assim
e a luta prosseguia
contra a ignorância, a ambição
até que surgiu zumbi
nosso deus, nosso herói, nosso irmão
ciente de que nenhum negro ia ser rei
enquanto houvesse uma senzala
ao invés de receber a liberdade
zumbi preferiu conquistá-la
e depois de mais três anos de guerra
o punhal da traição varou zumbi
foi a vinte de novembro
data pra lembrar e refletir
e hoje trezentos anos depois
um brado forte e varonil
ainda vem de pernambuco e alagoas
e se espalha pelo céu desse brasil

folga negro de angola
que ele não vem cá
se ele vier quilombola pau há de levar

(clique aqui para ouvir a canção)

quarta-feira

oyá (iansã)

menina afogueada fruta verde
virada na ponta do casco
brasa que anima o toque
ventania da savana
fagulha ligeira que esparrama

é parreira alada, é Matamba
folha rebelde de Aruanda

(é um poema de ana maria ramiro, publicado na bela antologia 8 femmes. ótima pedida para a primeira quarta-feira de liberdade.)

sexta-feira

aimé césaire

aimé césaire é um dos mais interessantes poetas vivos pelo mundo afora. foi ele que, ao lado de léopold sédar senghor, encabeçou o movimento da negritude no final dos anos 30. aliás, foi ele quem cunhou este termo que passou a ser usado em toda manifestação de afirmação dos negros ao ponto de perder a força original (césaire queria tirar a palavra de sua condição pejorativa e usá-la ao favor de uma cultura: a cultura das "folhas que resistem ao vento". em outras palavras: transformar o tabu em totem.)

assim como seu camarada, césaire é uma das melhores cabeças que surgiram no século xx.

na última segunda-feira, dia 25 de junho, ele comemorou seus 94 anos. infelizmente, não o conheço pessoalmente ainda, mas me senti privilegiado em ser contemporâneo dele.

deixo aqui a minha homenagem: a tradução de um poema recente, publicado em um livro chamado "moi, laminaire". saravá césaire (que significa ave caesar)!


palavra-macumba

a palavra é mãe dos santos
a palavra é pai dos santos
com a palavra serpente é possível atravessar um rio
povoado de jacarés
me acontece eu desenhar uma palavra no chão
com uma palavra fresca pode-se atravessar o deserto de um dia
existem palavras remo para afastar tubarão
existem palavras iguana
existem palavras sutis essas são palavras bicho-pau
existem palavras de sombra com despertadores em cólera faiscante
existem palavras Xangô
me acontece de nadar malandro nas costas de uma palavra golfinho

le mot est père des saints/ le mot est mère des saints/ avec le mot couresse on peut traverser un fleuve/ peuplé de caïmans/ il m’arrive de dessiner un mot sur le sol/ avec un mot frais on peut traverser le désert/ d’une journée/ il y a des mots bâtons-de-nage pour écarter les squales/ il y a des mots iguanes/ il y a des mots subtils ce sont des mots phasmes/ il y a des mots d’ombre avec des réveils en colère d’étincelles/ il y a des mots Shango/ il m’arrive de nager de ruse sur le dos d’un mot dauphin
(leia mais poemas de aimé césaire aqui: www.salamalandro.redezero.org)

quinta-feira

samba do compositor recebe nei lopes [atualizado]





os freqüentadores do salamalandro sabem o quanto admiro esse sambista lingüista historiador da negritude brasileira, uma das melhores cabeças que já apareceram no país. quando postei esse cartaz da turma do samba do compositor, estava decidido a ir. mas chegado o dia, descobri que infelizmente não vai rolar. muito trabalho a fazer. uma pena.

que os deuses da áfrica tragam de volta uma outra chance boa de vê-lo cantar.

e peço a todos que puderem, que vão. e me contem

imperdível.
salve nei lopes!


quarta-feira

revista roda nº2 - eparrei!



e eis que chega a revista roda número 2. lindona, como a primeira. gratas surpresas: presença de gente boníssima: antônio risério, benjamin abras, chacal, george cardoso, jackie kay, paulo leminski e virna teixeira. só pra começar a listas dos camarás.
a imagem da capa, é tirada de uma escultura de jorge dos anjos, que ficou exposta na praça da estação durante o mês de maio, como parte das atuações do fan - festival de arte negra de belo horizonte.
quem quiser saber mais sobre a revista, procure o jaguadarte, ou então, vá até a fundação municipal de cultura. (rua sapucaí, 571 - ed. chagas dória, bhmg. tel.: 3277 4621)

segunda-feira

eu imagino ou sonho de menina

imagino que você está ali
tem o sol
e este pássaro perdido de trinado tão estranho
diríamos uma tarde de verão
clara. sinto que estou ficando tola, tão tola
tenho imenso desejo de me deitar entre o feno,
com manchas de sol sobre a pele nua
asas de borboleta em largas pétalas
e toda espécie de insetos do planeta
ao meu redor

este é mais um poema de léopold sédar senghor

sexta-feira

semana cultural do senegal

chico césar já dizia: ser negão no senegal deve ser legal!
bem, na semana que vem começa a semana cultural do senegal. o evento acontece no centro cultural ufmg, de segunda a sexta com programação intensa. haverá uma comemoração do centenário de cimento do poeta e estadista léopold sédar senghor. o salamalandro se apresenta na segunda no sarau de abertura. e na terça, participa de uma mesa redonda sobre a vida e a obra desse poeta excepcional, criador de muita coisa bacana no século xx. além disso, a casa áfrica comemora os 25 anos da mazza edições. confira a programação:
De 22 a 26 de maio
Centenário de Nascimento Léopold Sédar Senghor & 25 anos Mazza Edições
Local: Centro Cultural da UFMG (av. Santos Dumont, 174, centro, BH)
DIA 22/05 – SEGUNDA-FEIRA19 h - Abertura Oficial da Semana e da exposição “Os Dentes do Leão e o Sorriso do Sábio” (Gueule du Lion et Sourire du Sage). Entrada franca.
20 h – Sarau poético em homenagem a Léopold Sédar Senghor, com os poetas e artistas Waldemar Euzébio, Benjamin Abras, Leonardo Gonçalves, Renato Negrão, Dóris Santos, Sérgio Fantini, Sérgio Pererê, Makely Ka, Grupo Poesia Hoje e a Orquestra de Berimbaus Capoeira Raízes. Entrada Franca
DIA 23/05 – TERÇA-FEIRA10h – Palestra Hora do Griot para as escolas , com Ibrahima Gaye (Economista/ Universidade Cheikh Anta Diop–Senegal / Fundador Centro Cultural Casa África). – Inscrições de grupos infanto-juvenis pelo telefone (31) 2127-0301 / 3344-1803. Entrada Franca
15h - Palestra Hora do Griot para as escolas, com Ibrahima Gaye.
16h - Mostra de Cinema Africano - Cine Casa África: A Negritude na Tela. Entrada franca
DIA 24/05 – QUARTA-FEIRA
10h - Palestra Hora do Griot para as escolas, com Ibrahima Gaye. Entrada franca
15h - Palestra Hora do Griot para as escolas, com Ibrahima Gaye. Entrada franca
16h - Mostra de Cinema Africano - Cine Casa África: A Negritude na Tela. Entrada franca
DIA 25/05 – QUINTA-FEIRA
10h - Palestra Hora do Griot para as escolas, com Ibrahima Gaye. Entrada franca
11h30 a 13h - Palestra A Representação do Conto e do Mito na Organização Educacional Senegalesa - Uma Leitura do Conto L´Os de Mor Lam, do poeta-contista senegalês Birago Diop com o prof. Amadou Abdoulaye Diop. Entrada franca
15h - Palestra Hora do Griot para as escolas, com Ibrahima Gaye. Entrada Franca
16h - Mostra de Cinema Africano - Cine Casa África: A Negritude na Tela. Entrada franca
19h - Lançamentos Mazza Edições 25 Anos: Coleção Olerê, com o livro “O Congado para Crianças” (Edimilson de Almeida Pereira/Ilustração: Rubem Filho); a Coleção Griot Mirim, com “Koumba e o Tambor Diambê” (Madu Costa/Ilustração: Rubem Filho), “Meninas Negras” (Madu Costa/Ilustração: Rubem Filho) e “Que Cor é a Minha Cor?” (Martha Rodrigues/Ilustração: Rubem Filho), e os livros “Becos da Memória” (Conceição Evaristo) e “A Fuzarca de Noé” (Ronaldo Simões Coelho/Ilustrações: Rubem Filho). Entrada Franca
DIA 26/05 – SEXTA-FEIRA
12h30 - Projeto 12:30 com a Companhia Baobá de Arte Afro-brasileira. Entrada franca
SEMINÁRIO: Leopold Sedar Senghor + Pensamentos e Movimentos da Afro-Diáspora
Debates sobre vida, obra e influência de Senghor na afro-diáspora. Coordenação: Prof. Amadou Abdoulaye Diop (Doutorando em Literatura Comparada na UERJ) - Inscrições pelo telefone (31) 2127-0301 / 3344-1803. Entrada franca
23/05 – 19:30h - Mesa-Redonda 1: “Vida e Obra do Bardo e Imortal Léopold Sédar Senghor”Composição: George Souza Cardoso, Ousmane Sane (Mestre em Comunicação Social/UFMG) e Leonardo Gonçalves (Poeta e Tradutor da obra de Senghor). Marcos Cardoso
Mediador: Amadou Marcos Cardoso (Mestre em História/UFMG)
24/05 – 19:30h Mesa-Redonda 2: “A Negritude e Suas Representações no Espaço e no Tempo “Composição: Maria Mazarello (Editora, Mestre em Editoração e Comunicação Visual pela Universidade Paris 13/França), Benilda Regina Brito (Psicopedagoga, Gerente de Educação Regional Norte de Belo Horizonte e Coordenadora da ONG Nzinga) e Eurico Josué Ngunga (Doutorando em Antropologia - IUEA/EUA).
Mediador: Amadou Abdoulaye Diop.
25/05 – 19:30h - Mesa-Redonda 3: “Senghor e a Crítica Literária”
Composição: Maria Nazareth Fonseca (Doutora em Literatura Comparada/UFMG), Íris Amâncio (Escritora, Doutora em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa/UFMG), Amadou Abdoulaye Diop e Ricardo Aleixo (Poeta, Escritor, Músico e Curador do Festival de Arte Negra - FAN).
Mediador: George Cardoso (pós-graduando em Estudos Africanos e Afro-brasileiros pela PUC Contagem e Diretor de Comunicação do Centro Cultural Casa África)
Minicurso História da África + Palestra sobre História do SenegalPeríodo: 23 a 26 de maio (terça a sexta-feira)
Professores senegaleses: Ousmane Sane (Mestre em Comunicação Social/UFMG) e El Hadji Diallo (Jornalista/Universidade Gama Filho – RJ)
Nº vagas: 30 alunos por turma
Turmas:
Manhã – Terça e quarta-feira - 9 às 13 horas; quinta e sexta-feira – 9 às 11 horas Tarde – Terça e quarta-feira - 15 às 19 horas; quinta e sexta-feira – 15 às 17 horas
Carga horária: 12 horasInvestimento: R$ 120,00 (inteira) e R$ 60,00 (Meia-entrada para universitários ou mediante doação de um livro de temática afro)
Inscrições pelo telefone (31) 2127-0301 / 3344-1803
7° Festa de Independência do Senegal
Sábado dia 03 de junho, a partir de 22h – Local: Gonguê
Ingressos antecipados: R$ 15,00 – Portaria: R$ 20,00Informações e vendas: (31) 2127-0301 / 3344-1803Informações: (31) 3344-1803 / 2127-0301 (Casa África) 3238-1078 / 3238-1079 (C.C. UFMG)

negritude césaire, negritude senghor

minha negritude não é uma pedra, sua surdez gritada contra o clamor do dia
minha negritude não é uma nódoa de água morta no olho morto da terra
minha negritude não é nem uma torre nem uma catedral
ela mergulha na carne rubra do chão
ela mergulha na carne ardente do céu
ela perfura o golpe opaco de sua destra paciência

aimé césaire – do cahier d’un retour au pays natal


minha negritude não é sono da raça ela é sol do espírito, minha negritude é ver & viver
minha negritude é enxada na mão, lança em punho
recado. não é questão de beber de comer o instante que passa
azar se me enterneço sobre as rosas do cabo verde!
minha tarefa é a de despertar o meu povo aos futuros flamejantes
minha alegria de criar imagens para nutri-lo, oh luminosidades ritmadas da Palavra!

léopold sedar senghor – élegie des alizés

domingo

notas sobre a negritude

pode procurar por aí. o termo negritude é encontrado por toda parte. uma banda de pagode, um portal de web, uma linha fashion, coluna reservada para assuntos afro no jornal. poucos sabem que a palavra se espalhou por todo o mundo por causa de um movimento literário ocorrido nos anos 30, sob a tutela de três grandes escritores: aimé césaire, leon gontram damas e léopold sédar senghor.

tudo começou assim: um jovem estudante estigmatizado pela cor da pele publica no jornal l’étudiant noir um artigo defendendo a beleza e o valor de sua ‘negritude’. uma atitude repleta de mandinga e de gingado, pois estava usando um termo pejorativo a seu próprio favor. quando léopold sédar senghor leu o artigo, ficou empolgadíssimo, pois ninguém conhecia melhor do que ele a nobreza do seu povo. sintetizou: ‘negritude: o conjunto dos valores de civilização do povo africano.’ o termo transformou-se num conceito. e léopold foi quem levou a expressão às suas mais profundas conseqüências.

senghor nasceu em 1906 e publicou muita poesia, muita pesquisa em diversas áreas (lingüística, antropologia, sociologia, teoria literária) entre os anos 30 e os anos 50. em 1960 recebeu uma proposta dos líderes políticos do senegal: que se tornasse o presidente do país. e com uma vantagem: poderia governar enquanto quisesse. entre 1961 e 1980, quando já era um grande intelectual e poeta, senghor se tornou um dos maiores estadistas que o mundo já conheceu. e qual era o primeiro e grande conceito teórico que o norteou como político? quem responder marxismo, leninismo, maoísmo, castrismo, estará perdendo tempo: o conceito mestre da política senghoriana se chamava ‘negritude’.

a essas alturas, a ‘negritude’ já havia se transformado e crescido a proporções fenomenais. o termo, com o tempo, deixou de ser a afirmação de uma raça pra ser a exaltação de uma postura universalizante. o africano está em toda parte. o conceito se desdobrou depois em ‘mestiçagem’, ainda com o caráter inicial de afirmação dos valores de um povo estigmatizado pela história, mas com ênfase cada vez maior na questão cultural. e já começavam a surgir na própria áfrica movimentos e manifestações que contestavam a ‘négritude’. é o que fez por exemplo wole soyinka, autor nigeriano, hoje prêmio nobel de literatura: “um tigre não precisa declarar sua tigritude, ele salta sobre a sua presa”. o que em todo caso não é senão, um desdobramento da idéia inicial, agora interiorizada no movimento do corpo.

homenagens

no mês de março deste ano, publiquei na revista roda – arte e cultura do atlântico negro uma série de 5 poemas bastante representativos de léopold sédar senghor. é que em 2006 o poeta completaria 100 anos. e não esteve longe de completar, pois faleceu há apenas cinco anos. na revista, os editores ainda lembram de um festival mundial de arte negra que aconteceu em 1966, sob a chancela do então presidente do senegal (este festival terá sua segunda edição no ano que vem em dakar). a publicação foi portanto uma das primeiras manifestações brasileiras em comemoração ao centenário do poeta. mas não acaba por aí. a casa áfrica está organizando a ‘semana de cultura do senegal’ que acontece entre os dias 22 e 29 de maio de 2006. na ocasião haverá sarau, exposição, mesas redondas e outras coisitas mais em homenagem a esse grande camarada senegalês. fiquem atentos.

algumas informações sobre a poesia do célebre desconhecido

no brasil, pouquíssima gente sabe da existência de senghor. embora seja considerado uma das mais lúcidas cabeças do século, e a par disso, um dos maiores poetas da língua francesa, o brasileiro não teve acesso ao pensamento e à poética dele. uma única edição de seus poemas apareceu em 1969 pela extinta grifo edições em tradução de gastão jacinto gomes. uma vasta amostra da lírica senghoriana, com apenas dois defeitos: a edição não é bilíngüe, e além disso lá só se encontram poemas escritos até 1969: como não houve edição posterior, nada foi acrescentado e a edição definitiva da oeuvre poétique apareceria somente em 1989 com duas séries de ótimos poemas escritos nos anos 70 (como é o caso da “elegia para a rainha de sabá”) e outra de “traduções” de poemas tradicionais africanos (cantos banto, peul, bambara...).

portanto, falta muito ainda para oferecermos ao público brasileiro um panorama claro de sua obra.

outro ponto curioso é que sua poesia se insere numa tradição pouco explorada no brasil. nem mesmo o nosso cruz e sousa pode ser comparado com ele. a poesia dele é descendente direta de walt whitman e de paul claudel: versos longuíssimos, reflexões místico-cristãs, tradições, profecias e vozeirões (ao lado de flores da mais pura delicadeza:

pérolas

pérolas brancas
lentas goteletas
goteletas de leite fresco,
luzinhas fugitivas ao longo dos fios do telégrafo,
ao longo dos longos dias monótonos e grises!

a qual paraíso? a qual paraíso?
luzinhas primeiras da minha infância
jamais reencontrada…


perles

perles blanches,
lentes gouttelettes,
gouttelettes de lait frais,
clarets fugitives le long des fils télégraphiques,
le long des longs jours montones et gris!

à quel paradis? à quel paradis?
clartés premières de mon enfance
jamais retrouvée…)

pouquíssimas vezes se preocupa com a rima, jamais com a métrica. uma poesia que se irmana com o trabalho de neruda e saint john perse, cujos versos se aproximam da prosa.

ao mesmo tempo, a sua poesia é rica em sonoridades, aliterações, e principalmente, jogos visuais, fanopéia. como traduzir um verso como “l’ouragan arrache tout autour de moi”? g. j. gomes traduz assim: “o furacão tudo arranca ao meu redor”. há exatidão na imagem, mas o som do verso de cinco acentos sucessivos se perdeu. façamos mais uma tentativa vã:

o furacão

o furacão arrasta tudo em torno de mim
e o furacão arrasta em mim folhas e palavras fúteis.
turbilhões de paixão silvam em silêncio
mas paz sobre o tornado seco, ao final do inverno!

tu, vento ardente vento puro, vento de primavera, queima toda flor todo pensamento
vão quando recai a areia sobre as dunas do coração.
serva, suspende teu gesto de estátua e vós, crianças, vossos jogos e risadas de marfim.
tu, que ela consuma tua voz com teu corpo que ela seque o perfume de tua pele
a chama que ilumina minha noite, como uma coluna e como uma palma.
abrasa meus lábios de sangue, espírito, sopra sobre as cordas da minha kora
que se erga o meu cantar, puro como o ouro de galam.


l’ouragan

l’ouragan arrache tout autour de moi
et l’ouragan arrache en moi feuilles et paroles futiles
des tourbillons de passion sifflent en silence
mais paix sur la tornade sèche, sur la fuite de l’hivernage!

toi vent ardent vent pur, vent-de-belle-saison, brûle toute fleur toute pensée vaine
quand retombe le sable sur les dunes du coeur.
servante, suspends ton geste de statue et vous, enfants, vos jeux et vos rires d’ivoire.
toi, qu’elle consume ta voix avec ton corps, qu’elle sèche le parfum de ta chair
la flamme qui illumine ma nuit, comme une colonne et comme une palme.
embrase mes lèvres de sang, esprit, soufflé sur les cordes de ma kôra
que s’élève mon chant, aussi pur que l’or de galam.

sexta-feira

mulher negra

mulher nua, mulher negra
vestida de tua cor que é vida, de tua forma que é beleza!
eu cresci a tua sombra; a doçura de tuas mãos vendava meus olhos.
e eis que no ventre do verão e do meio-dia, eu te descubro, terra prometida, do alto de
um alto colo calcinado
e tua beleza me acerta em pleno peito, como o relâmpago de uma águia.

mulher nua, mulher obscura
fruto maduro de carne firme, sombrios êxtases do vinho negro, boca que bota lírica a minha boca.
savana dos horizontes puros, savana que freme às carícias quentes do vento leste
atabaque esculpido, atabaque tenso que rosna sob os dedos do vencedor
tua voz grave de contralto é o cântico espiritual da amada.

mulher nua, mulher obscura
azeite que não crispa nenhum sopro, azeite plácido nos flancos do atleta, nos flancos dos príncipes do mali
gazela de laços celestes, as pérolas são estrelas sobre a noite de tua pele
gozo de jogos espirituosos, os reflexos do ouro rubro sobre tua pele que rebrilha
à sombra de teus cabelos, se esclarece minha angústia aos sóis próximos de teus olhos.
mulher nua, mulher negra
eu canto tua beleza que passa, forma que fixo no eterno
antes que o destino cioso te reduza a cinzas para nutrir as raízes da vida.

a tradução é minha e está publicada na revista roda nº1. o poema é de léopold sédar senghor. para ler o original, clique aqui. este poema é considerado o grande hino do continente africano, onde a áfrica é comparada com uma mulher extremamente sensual. eu comparo dialeticamente este poema com um poema de cruz e sousa: afra. um dia eu ainda explico por quê.

domingo

coisas que têm feito a cabeça do salamalandro

oriki orixá. antônio risério.

antônio risério é um baiano retado capaz de conciliar extremo rigor com paixão fulminante. antropologia? filosofia? poesia? o livro trata de tudo isso sem perder a profundidade em nenhum instante.
alguém pergunta: e o que é um oriki? o mais fácil seria dizer que são poemas de elogio de uma entidade, personalidade ou (no caso dos traduzidos neste livro) um orixá. mas se isso respondesse a tudo, nada justificaria o longo e curioso comentário que precede os poucos e exemplares orikis que aparecem ao final do livro.
o assunto faz o leitor curioso se lembrar da faceta mais esquecida da nossa formação enquanto povo: a áfrica. e aqui ela aparece em trono de brilhos e cores.


bantos malês e identidade negra. nei lopes
e por falar em áfrica, em se tratando do segundo maior continente do planeta, pode-se dizer que sabemos ainda menos da nossa origem banto. aliás, não sabemos quase nada sobre os povos africanos em geral. acho que eu já disse isso por aqui.
este livro elucida coisas que eu nunca supus:
1. dos negros que vieram para o brasil, boa parte era de origem muçulmana (conhecidos como malês).
2. os povos bantos são considerados povos inferiores pela historiografia brasileira.no entanto, representaram, na história, uma das maiores resistências ao poderio europeu. (destaque para a rainha que ficou conhecida por nzinga. reinando desde matamba, angola, foi o osso duro que portugual nunca conseguiu roer de todo).
3. se a nossa fala se distingue da fala de portugal, o principal motivo, ao que parece, é a presença dos povos banto no brasil.
de modo que este livro tem me oferecido um novo tempo mítico para as minhas concepções de mundo. (quem quiser saber mais sobre o camarada nei lopes, procure por aí. já postei outro dia um comentário sobre ele).

detalhe: este livro encontra-se esgotado em todo o brasil. mas sei de uma promessa do autor de uma edição revista. saravá!


personas sexuais - arte e decadência de neffertiti a emily dickinson. camille paglia.
este é um desses livros bons para derrubar conceitos fáceis e pré-estabelecidos no ocidente. de fato, em geral, a tendência é escolher por uma saída racional para as questões que angustiam o ser humano. mas camille é seguidora de sade. propõe uma solução dilacerante e dionisíaca para o famoso sonho de rouseau de que "homem é bom por natureza, é o meio que o estraga" - origem de todas as utopias modernas. história da arte. história da sexualidade. história da literatura. antropologia. psicologia. personas sexuais é tudo isso e ainda mais.
deixo aqui apenas uma frase, que aliás, gosto muito: "o dionisíaco não é nenhum piquenique."
detalhe: para variar, o livro encontra-se também esgotado em todo o brasil.


el arco y la lira. octavio paz.
quem me conhece já sabe: este livro me acompanha há pelo menos uns cinco anos. é meu livro de cabeceira. o maior e melhor testemunho de um apaixonado pela linguagem das linguagens que já tive em mãos. perto dele, o abc da literatura do ezra pound fica no chinelo. afinal, estamos falando de um dos maiores intelectuais da américa latina. no tratado, paz concilia densa poesia com profunda dissertação. como as outras coisas que mexem comigo, nele também você encontra: poesia, filosofia, antropologia, crônica de costumes, teoria literária. e pora aí vai.
a primeira edição deste livro foi escrita em 1955. desde então, octavio paz fez algumas atualizações, mas creio que as principais idéias não mudaram muito. e é de uma atualidade desconcertante.
como encontrar? a edição castelhana encontra-se com facilidade. a brasileira não. publicada há uns 20 anos pela nova fronteira, está hoje completamente esgotada. aquele que a encontrar terá nas mãos uma raridade. agora, para os apaixonados pela linguagem, um conselho: leia o livro no original.

quinta-feira

germaine tchourai

Roda - Arte e Cultura do Atlântico Negro

para quem não foi no lançamento no dia 21 de março, apenas o toque: esteve belíssima a festa, com grandes apresentações. destaque para a performance dadaísta de renato negrão e o mini-espetáculo-fetichista de benjamin abras. grande brinde: ricardo aleixo e rui moreira lendo alguns dos poemas de léopold sédar senghor traduzidos por mim e publicados na revista. saravá!
agora, aos vivos: a revista está circulando. para conseguir, é necessário contactar a fundação municipal de cultura. Roda - Arte e Cultura do Atlântico Negro é uma das revistas mais interessantes que tive em mãos nos últimos tempos. a considero um importante marco na cultura belorizontina. uma revista futurista. parabéns para os editores. tomara que não chegue ao fim depois do fan. e re-saravá!

quarta-feira

lubricidade

quizéra ser a serpe venenosa
que dá-te medo e dá-te pesadelos
para envolver-me, ó Flor maravilhosa,
nos flavos turbilhões dos teus cabelos.

quizéra ser a serpe veludosa
para, enroscada em múltiplos novelos,
saltar-te aos seios de fluidez cheirosa
e babujá-los e depois mordê-los...

talvez que o sangue impuro e flamejante
do teu languido corpo de bacante,
da langue ondulação de águas do rheno

estranhamente se purificasse...
pois que um veneno de aspide vorace
deve ser morto com igual veneno...


esse poema-angorô, sonata serpeante em 's' e 'z' é do cruz e sousa,
que comemora seus 145 aninhos esse ano.

quinta-feira

áfrica, essa desconhecida

é o poeta antônio risério quem lembra a imensa dificuldade que há em se falar da áfrica. nossa ignorância sobre o assunto começa em nós mesmos. por mais óbvio que seja, sempre que falamos de coisas d’áfrica, pensamos a partir dos preconceitos e dos desvios que a história deixou. seria ocioso ficar lembrando as inúmeras vezes que falamos desse continente demonstrando profunda falta de conhecimento sobre o assunto.

recentemente incluído nos programas do ensino fundamental do mec, a história da áfrica é agora um assunto urgente e a nossa ignorância precisa acabar. nesse sentido, o livro que a editora crisálida publicou recentemente é uma lamparina no meio da escuridão. nele, os autores (uma angolana radicada no brasil e um brasileiro) demonstram extrema paixão pelo tema e se a obra peca em algum sentido, é porque o caráter introdutório não permitiu que os autores se prolongassem nos detalhes. adianto que cumpre bem o papel de história crítica.

“usualmente, associamos idéias e noções estereotipadas que constroem e são construídas por uma imagem de uma áfrica tribal, tradicional, arcaica, com negros em trajes pré-industriais e armas primitivas, buscando seu alimento nas savanas. nestas representações, a áfrica aparece como distante, como separada de nós por alguns séculos. sugerem que nós, (os tupiniquins) participamos da civilização ocidental e nisso nos distinguimos dos “negros-africanos-tribais”. procuramos buscar elementos que mostrassem os limites dessa simplificação e que colaborassem para pensarmos o continente em outros moldes.”

é o que os autores dizem na introdução à introdução. de minha parte, gostaria que muitas coisas ainda neste mundo começassem a ser pensadas em outros moldes. mas se começarmos apenas por esse, já será um grande começo.

quarta-feira

nei lopes e as áfricas em nós

se formos acompanhar os fenômenos que acontecem na cultura brasileira, pouco a pouco veremos o quanto somos pobres de conhecimento de nós mesmos. opostos costumam ser afirmação do mesmo. sobre a presença negra no brasil, eu chamaria de colonização passiva. colonização porque o alcance da implementação dos hábitos e costumes dos africanos foi muito maior do que supomos. passiva... bem, todo mundo sabe. foi enquanto eu pensava nisso que eu tive acesso a um mundo inteiramente novo que pra mim começa num excelente trabalho de nei lopes chamado “novo dicionário banto”. fiquei fascinado ao saber nele que boa parte do vocabulário brasileiro se formou a partir das línguas da áfrica austral, hoje oficialmente lusófonas.
a palavra “cara”, usada sem limites em todo o território nacional, no masculino (o cara), por exemplo, teria vindo de uma língua banto: “okala”, que significa homem. a etimologia dada pelos dicionários é um pouco diferente: houaiss (que inclusive aceitou muitas entradas no seu dicionário monumental) defende que teria vindo do latim, através do grego “kara”, significando rosto (a fonte sendo a mesma da palavra feminina).

agora, pesando os dois lados da balança, não seria mais óbvia a suposição de nei lopes? afinal, já temos tantas palavras bantas no nosso vocabulário corrente e oficial! samba, bunda, dendê, inhame, mulungu, zumbi, cochilo... e por aí vai.

só nos resta concluir que os nossos aplicados filólogos mergulham desesperados nos tratados de latim e grego, procuram saber sobre nossas origens indo-européias, acham fontes em tudo quanto é lugar, mas se esquecem de algo muito simples: o brasil é quase a áfrica.

nei lopes é sambista, parceiro de martinho da vila, autor de diversas canções populares. lançou recentemente um cd, coletânea de alguns dos seus maiores sucessos. de letra e música (para ouvi-lo, clique aqui). fez o grosso (porém caro, uma pena!), “enciclopédia brasileira da diáspora africana”. e é o autor de “bantos, malês e a identidade negra”, lá nos anos setenta. sobre este, ainda voltaremos a falar, que vale a pena. mas como eu já falei demais, por hoje, vou ficar por aqui.

ah, ele tem também um blogue: meu lote, visite, vale a pena..