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quinta-feira

heriberto yepez

repassando a revista coyote nº1, lançada no outono 2002, me deparei com poemas e declarações chocantes de um sujeito pouco mais velho que eu chamado heriberto yepez. ando procurando em vão os livros dele. segundo ademir assunção, que o traduziu e entrevistou, a descoberta da poesia se fez pelo faro.
Conheci a poesia do mexicano Heriberto Yépez por acaso. Certa tarde chegou no meu endereço postal uma filipeta eletrônica de uma editora anarquista mexicana (Anortecer), divulgando um livro cujo título me intrigou no ato: Por una Poética Antes Del Paleolítico y Después de la Propaganda. Mandei uma mensagem de volta, propondo um escambo: eu mandaria meu livro Zona Branca e eles me mandariam o livro de Yépez. Meu faro não me decepcionou. Resolvi traduzir alguns dos poemas, irônicos, críticos, ultracontemporâneos.
trata-se de um cara ativo, que vive em tijuana (fronteira entre o méxico e os estados unidos) ou seja, um lugar de tensão, pois é para lá que vão os chicanos pretendentes a atravessar na marra o muro gigantesco que separa um país do outro. e a poesia dele: um soco no estômago. para você ter uma idéia, vou pegar emprestado uma das traduções feitas pelo ademir lá no blogue dele (quem quiser mais, procure pelo espelunca no link ao lado).


VIOLENTAM UMA GAROTA
com uma vassoura
e a deixam sem roupa e sem pele
para untar-se com o creme ponds
que acabara de comprar no
supermercado do Estado
arrombada
em um beco que já viu de tudo
menos isso
uma mulher pelada
ou melhor
esfolada
violentada até pelos olhos
com as unhas arrebentadas
como janelas de um trailler
capotado na freeway
o beco já viu de tudo
menos isso
o que resta de uma mulher
com os lábios negros
todavia pensando
aonde terá caído
o batom
que há pouco
comprara
no Barateiro*


NOTA: Issstetiendas, no original, é um supermercado estatal, com preços populares. Preferi adaptá-lo para o Brasil, fazendo referência ao supermercado Barateiro, embora este não seja estatal.

yépez também tem o seu próprio blogue, e há algum tempo me tornei um freqüentador assíduo.

www.hyepez.blogspot.com

quarta-feira

lançamento do livro "cada" de bruno brum

segunda que vem tem encontro marcado lá na livraria quixote (às 19h) . o livro é o "cada" do bruno brum (sabor graxa), que em breve dispensará qualquer apresentação. no lançamento haverá uma performance com as participações de ricardo aleixo e benedikt wiertz.

quinta-feira

anderson almeida e o trevo de cinco folhas para download

aí está meu amigo, mestre da vanguarda distraída, camarada e poeta da lista dos preferidos disponibilizando a linda série "trevo de cinco folhas" para download (formato .pdf). são os cinco poemas pulsantes (um sexto vem de presente) que ele publicou na revista ipsis na ocasião em que ficou entre os três selecionados do concurso de literatura da revista literária do corpo discente da ufmg. quem quiser dar uma sacada, basta ir lá no www.friccoes.redezero.org e seguir as orientações.

quarta-feira

um poema de viviane mosé

lúcido deve ser parente de lúcifer
a faculdade de ver deve ser coisa do demônio

lucidez custa os olhos da cara

domingo

egoísta: beatriz azevedo & josé celso

egoísta
(beatriz azevedo)

você disse que eu sou egoísta
egoísta é quem só pensa em si
como é que eu posso ser egoísta
se eu só penso em você

você é muito vaidosa
não quer dar o braço a torcer
você é muito exigente
já fez tanta gente sofrer

você não sabe como me machuca
quando diz essas coisas cruéis
coloquei meu coração a seus pés
conheci o perfume da dor

você tem tudo o que quer
e não quer tudo que tem
todos querem ficar com você
mas você não é de ninguém

segunda-feira

o salamalandro na biblioteca girapemba

laroiês e evohés! essa semana tive a honra de colaborar para a "biblioteca girapemba", do blogue "folhas de girapemba" de ana maria ramiro. a proposta dela é bem interessante: em cada apresentação, um poeta fala de sua formação, suas referências e preferências. ao final, uma seleção de 5 poemas preferidos do autor em questão e um do próprio entrevistado. vale a pena conferir. para a proposta já colaboraram: marcelo sahea, claudio daniel, linaldo guedes e thiago ponce de moraes. caprichosa nas cores e escolhas, filha de iya mi, ana está montando uma biblioteca bacana. para esta seleção, ela escelheu o meu "canto para matamba", que vocês poderão ler lá mesmo, na íntegra. valeu, ana. ótimo jeito de começar a semana.

quarta-feira

julius

julius caiu na rede. até que enfim. tenho que admitir: sou fã desse cara. para o bem de todos e alegria geral da nação, leiam o contrasenso e freqüentem o portfolio dele. saravá!

www.contrasenso.info
www.julius.es

ballad of skeletons - uma saudação a allen ginsberg


(música de paul mc cartney e vídeo de gus van sant)

domingo

não macule a minha faca

"quem com letícia féres, confere e será querido".
imperdível. nas terças poéticas: jardins internos do palácio das artes. hilda hilst homenageando letícia féres. letícia féres homenageando hilda hilst. poesia em alta voltagem. samplermusic & videocolagem. julius. frederico pessoa. poesia hoje. queria conseguir dizer mais. mas precisa? vá lá e comente depois aqui comigo, vai.

sexta-feira

tonico mercador homenageia allen ginsberg

o poeta tonico mercador tem um gosto um pouco parecido com o meu. lembro-me que há alguns anos atrás, eu me interessei pela poesia de julio cortázar e comecei a traduzi-lo. alguns meses depois de começar a empreitada, encontro na revista palavra, a sua tradução de alguns poemas do cronópio sobre o maio de 1968. coincidências.
recentemente, tenho estado muito afim de fazer uma homenagem a allen ginsberg. especialmente porque este ano completaram dez anos da morte dele. um cara genial que não pode ser esquecido. e eis que o tonico mercador se prepara para homenageá-lo na apresentação na próxima terça-poética. provavelmente vai apresentar o trabalho que vem fazendo há algum tempo: declamação do poema "uivo" junto a poemas de sua autoria.

terça-feira, dia 14 de agosto de 2007
às 18h30, como de costume.
nos jardins internos do palácio das artes.

evohé! saravá! boa sorte tonico. uma pena que não poderei estar lá. infelizmente estarei dando uma aula no mesmo horário. mas fico torcendo para a dose se repetir em breve.

belvedere bonito de ver

de vez em quando, aparecem estrelas no meio da rua. demorou para verem que o chacal está na área. há 35 anos atrás, o torquato neto avisava na sua geléia geral que tinha um cara na área. hoje, passada muita zoação, muita festa, muito baco, muito cep20000 e tontas coisas... já era hora.

o belvedere do chacal tá lindão. da coleção ás de colete, da parceria 7letras/cosacnaify. uma capa verdona e um adendo chamado quamperios pra dar o clima da época do mimeógrafo.

chacal explica:
belvedere é um lugar que você vai para ver a vista. tinha um no final da serra das araras, na rio-são paulo, onde eu parava sempre que ia para Mendes com a minha família nas férias. naquele tempo, as viagens de carro eram custosas. depois de algumas horas rodando, chegávamos ao belvedere. era a festa. comer, beber, correr. assim é que eu me sinto aqui neste livro. depois de 36 anos de exercício poético e 13 livros publicados, dou essa parada estratégica para ver a vista. espero que você, leitor, possa se alimentar e se divertir, possa ler, ver e ouvir.
saravá! evoé!
acho que cai bem pra ocasião, o penúltimo poema do primeiro livro dele: o muito prazer.

sorte

hoje deu meu número na roleta da vida

quinta-feira

a poesia de juan gelman no brasil (atualizado)

isso. unb, 2004

o livro "isso" não é uma antologia. gelman o havia publicado pela primeira vez no livro "interrupciones II", reunião, além deste, dos livros "bajo la lluvia ajena (notas al pie de una derrota)", "hacia el sur" e "com/posiciones". ou seja, é a única não-coletânea de gelman publicada no brasil. foi traduzido por mim e por andityas soares de moura, a convite de henryk siewierski, da editora unb e publicado em 2004. trata-se de um trabalho apaixonado que teve a grande honra da leitura do próprio autor no ato da tradução. como a visão dos tradutores sobre a poesia é bastante díspare, acabamos por travar um interessante embate, o que fez com que o trabalho tomasse um caráter todo especial de comunhão (no bom sentido, não no sentido que o papa dá para esta palavra) democrática, vindo à tona, tanto na tradução quanto na introdução, um pouco da poética de cada um. o livro integra a coleção "poetas do mundo" que já trouxe para o nosso idioma poetas como tahar ben jelloun, czeslaw milosz, miodrag pávlovitch, francis ponge, lucian blaga e edwin morgan.



amor que serena, termina? record, 2001
"amor que serena, termina?" é uma belíssima mostra do que há de bom na poesia de juan gelman. foi traduzido por eric nepomuceno que já nos trouxe ninguém menos que julio cortázar, gabriel garcía marquez, carlos fuentes, jorge luís borges e eduardo galeano, entre outros inúmeros prosadores de primeiríssima qualidade. nepomuceno é responsável pelo que de melhor já foi publicado em termos de literatura latino-americana no brasil. neste livro, ele se entrega a um desafio inédito, para ele: traduzir poesia. conta-se que a record relutou por algum tempo até se convencer a publicar este livro, afinal livro de poesia não vende no país da batucada. o livro ainda tem um requinte: contou com a revisão de chico buarque de holanda, um poeta da batucada que vende.



puentes/pontes. fce, 2004

este é um interessante projeto da editora fondo de cultura económica, organizado por heloísa buarque de holanda, jorge monteleone y teresa arijón. o propósito: pensar a poesia como ponte que une mundos. trata-se de uma alentada antologia (537 páginas) que inclui poetas brasileiros e argentinos. na lista: paulo leminski, lamborghini, affonso ávila, bayley e, é claro, juan gelman. a tradução deste está por conta do poeta e tradutor sérgio alcides e nos dá um ótimo panorama das faces do poliedro que é a poesia de juan.



poesia argentina - 1940/1960. iluminuras
esta antologia foi organizada pela acadêmica bella jozef, que além deste livro, é autora também de alguns estudos sobre a poesia latino-americana contemporânea. esta antologia é um panorama da poesia argentina de uma época criativa e febril na poesia daquele país. mostra o aparecimento do surrealismo, da poesia beatnik, por exemplo. além da poesia do juan (apenas 2 poemas, maravilhosos e muito bem traduzidos, por sinal), tem lá uma boa seleção de outros poetas.

quarta-feira

] ao meu redor [ andityas soares de moura

o estudo me fez espirituoso


E todos os dias parecem reclamar
seu quinhão de sombra e de desassossego,
enquanto nós, com o silêncio de gestos
muitas vezes repetidos, construímos o
torpor, a catatonia de um mundo que se entrega.


do livro FOMEFORTE

tem um comentário do poeta irlandês w. b. yeats sobre pound, onde ele diz: “esse é um poeta de cuja teoria eu discordo completamente, mas que a ele estou ligado por questões que ultrapassam a estética” (estou citando de cabeça). agora já deve ter passado uns oitenta anos desde que yeats escreveu isso, e olhando de outro continente, em outro contexto histórico (livre dos fascismos que iludiram os dois grandes camaradas de que eu falei), posso agora brincar de gente grande e falar o mesmo sobre este meu parceiro. e falarei em forma de relato.

andityas soares de moura é um poeta português, filho de pais brasileiros e nascido em barbacena, interior de minas gerais, estado onde sempre viveu. como estrangeiro que é, onde quer que esteja, vive assumindo em sua poesia uma persona nova, que inclui uma língua e uma forma específicas. mas que ninguém se engane: todas elas transitam num mesmo espaço, onde a realidade é apenas um elemento em meio aos diferentes artifícios aos que ele se apega para os seus versos.

certa vez, num sarau que fizemos numa livraria onde trabalhei há muitos anos atrás, o andityas, tendo lido alguns dos meus poemas, me veio com a seguinte resposta: “estás compromissado com a modernidade”. pouco depois, pude ler o seu primeiro “poemário” (como ele o chama), Ofuscações. achei, e ainda acho, extremamente romântico, deslumbrado com rimbaudismos, traklismos, vangogoghismos, delírio verbal sem artifício, um tanto quanto retórico. pensei: “esse cara está compromissado com o passado.”

OS enCANTOS

daí, em 2002 conspiramos e acenamos com uma possibilidade (hoje concretizada): publicar pelo selo in vento o seu livreto outsider OS enCANTOS. como leitor, considero este livro uma grande homenagem ao mestre pound (andityas é hoje um dos poucos poetas, talvez o único, que puderam se arriscar na empreitada de ser poundiano em terras brasileiras, o que só é possível com muita erudição).

OS enCANTOS é o livro dele pelo qual tenho maior simpatia. é que nele a ousadia é deslavada. faz jus ao verso de um poema de lentus in umbra: “o estudo me fez espirituoso”. fica numa fronteira idiomática própria de momentos sociais de tensão. guerra. festa. fresta. fantasmagoria. carnaval. é a veia janequiniana do andityas.

daí pra frente, estreitamos a amizade. tive a honra de revisar ponto por ponto a sua inventiva tradução da poeta galega rosalía de castro, o recém publicado a rosa dos claustros (crisálida, 2004). pouco depois, fizemos contínuos trabalhos em torno à poesia de um argentino que ambos admiramos muito (todo mundo já o sabe), juan gelman, grande parceria! o a.s.m. publicou ainda o livreto à boa teta, com poemas licenciosos do século XVI francês.

continua...

FOMEFORTE

“um homem fica muito aterrorizado por uma fome forte; e esse terror é a raiz de toda crueldade.” (d.h.lawrence)
tudo isso pra dizer que acaba de chegar o mais novo livro da imensa prole de andityas: FOMEFORTE. também faz parte do selo in vento e esta edição tem a parceria da editora crisálida. a palavra dele amadureceu, as ilusões se acalmaram no peito, as amizades se firmaram. t.s.eliot, rûmi, laforgue, molière. o verso duro é saudado por ninguém menos que glauco mattoso e o nosso grande mestre: juan gelman, que assinam orelha e contra-capa.

a dureza dos poemas é um contrapeso diante de uma coisa incerta que cerceia todo o “poemário”, a insegurança causadora de tensão. como o andityas é um poeta partidário da razão, dá uma puta tentação de enfileirá-lo na turma dos limpinhos e higiênicos poetas da minha geração (não vou citar nomes aqui). mas a verdade é que a poesia desse português das minas (lembrem-se da fama de barbacena torno aos hospícios) respira a uma vivacidade incomodante, misturada com o pedantismo próprio das línguas românicas. pensamento conciliador, o demônio das coisas concluídas e bem arranjadas, a voz dos ofendidos na guerra. vida atual. tempo atual. em cumplicidade com o tempo insistentemente obsoletizante, desobsoletizando-o. contra uma mera moral. a favor de outro tipo de bons costumes.

não é um poeta para escolinhas de adolescentes. não é nenhum partidário da certeza, como tantos. é um cara vivo e atento. antenas viradas para um outro lado sem o grande bocejo da vida dita “real”.

quem quiser encontrar as obras de a.s.m na internet, está fácil: OS enCANTOS e lentus in umbra estão disponíveis na web. leia os livros do andityas aqui.