domingo

2008: ano novo casa nova visual novo cores novas tudo novo

o salamalandro.zip.net durou 6 meses. depois, foram quase 2 anos de blogspot. compartilhei revoltas, alegrias e tristezas com vocês por aqui, nesse fundinho verde sempre cheio de grandes esperanças. agora, o salamalandro passa por uma grande reformulação e muda de casa mais uma vez. dessa vez, para integrar o redezero. e estamos cheios de novidades. clique aí e divirta-se:

quinta-feira

heriberto yepez

repassando a revista coyote nº1, lançada no outono 2002, me deparei com poemas e declarações chocantes de um sujeito pouco mais velho que eu chamado heriberto yepez. ando procurando em vão os livros dele. segundo ademir assunção, que o traduziu e entrevistou, a descoberta da poesia se fez pelo faro.
Conheci a poesia do mexicano Heriberto Yépez por acaso. Certa tarde chegou no meu endereço postal uma filipeta eletrônica de uma editora anarquista mexicana (Anortecer), divulgando um livro cujo título me intrigou no ato: Por una Poética Antes Del Paleolítico y Después de la Propaganda. Mandei uma mensagem de volta, propondo um escambo: eu mandaria meu livro Zona Branca e eles me mandariam o livro de Yépez. Meu faro não me decepcionou. Resolvi traduzir alguns dos poemas, irônicos, críticos, ultracontemporâneos.
trata-se de um cara ativo, que vive em tijuana (fronteira entre o méxico e os estados unidos) ou seja, um lugar de tensão, pois é para lá que vão os chicanos pretendentes a atravessar na marra o muro gigantesco que separa um país do outro. e a poesia dele: um soco no estômago. para você ter uma idéia, vou pegar emprestado uma das traduções feitas pelo ademir lá no blogue dele (quem quiser mais, procure pelo espelunca no link ao lado).


VIOLENTAM UMA GAROTA
com uma vassoura
e a deixam sem roupa e sem pele
para untar-se com o creme ponds
que acabara de comprar no
supermercado do Estado
arrombada
em um beco que já viu de tudo
menos isso
uma mulher pelada
ou melhor
esfolada
violentada até pelos olhos
com as unhas arrebentadas
como janelas de um trailler
capotado na freeway
o beco já viu de tudo
menos isso
o que resta de uma mulher
com os lábios negros
todavia pensando
aonde terá caído
o batom
que há pouco
comprara
no Barateiro*


NOTA: Issstetiendas, no original, é um supermercado estatal, com preços populares. Preferi adaptá-lo para o Brasil, fazendo referência ao supermercado Barateiro, embora este não seja estatal.

yépez também tem o seu próprio blogue, e há algum tempo me tornei um freqüentador assíduo.

www.hyepez.blogspot.com

comentário sobre o comentário abaixo (retificando informações)

revendo as informações sobre o "prêmio governo minas gerais de literatura", vi que os R$35.000,00 que faltavam serão destinados ao "jovem escritor mineiro". fiquei um pouco mais entusiasmado, pois a premiação para essa categoria dará ao ganhador o direito de receber R$7.000,00 por mês num período de 6 meses totalizando R$42.000,00. peço aos meus queridos amigos escritores de plantão que não deixem de participar. embora seja apenas uma vaga, se vocês (vocês sabem aos quens me refiro), tenho certeza que o prêmio vai para um trabalho bacana.

sexta-feira

prêmio governo de minas gerais de literatura

a moda parece estar pegando. e é saudável: finalmente, os órgãos que se pretendem incentivadores da produção literária perceberam que não adianta ficar fazendo concursinhos de colégio. é o caso do ambicioso "prêmio governo de minas gerais de literatura", lançado no último dia 10. com este programa, o governo estadual institui o que ele mesmo proclama ser "o maior prêmio nacional de literatura". com diretrizes bem definidas, serão premiados escritores nas áreas de poesia, ficção e jovem escritor mineiro, além da premiação para o conjunto da obra de um escritor já de renome no cenário nacional (o maior valor será para esta categoria).

os pontos negativos (não poderia deixar de haver) são, obviamente, a escassa quantidade de prêmios (um apenas para cada categoria) e a obscuridade já prenunciada no processo de seleção. repare: com tão poucas premiações, fica fácil imaginar que os poetas e escritores, já tão acostumados à política do "às próprias custas s. a.", ficam bem desincentivados de participar.

de qualquer modo, não foi sem tempo a homenagem ao grande pensador da cultura brasileira antônio cândido. no total, o governo destina R$212 mil para este projeto. sendo R$120 mil para o conjunto da obra (esta categoria não passa por concorrência, pois a homenagem é feita pela banca, antes mesmo de ser lançado o concurso), R$25 mil para um poeta e outros R$25 mil para um ficcionista, e R$7 mil para o jovem escritor mineiro. traduzindo para o bom português: o governo destina apenas R$57 mil para as premiações (posso estar bancando o idiota, mas não entendi onde foram parar os R$35 mil restantes). de qualquer forma, uma quantia realmente irrisória para quem se diz "o maior prêmio", especialmente se pensarmos nos valores que são destinados à falcatrua e à falta de educação. só esperamos que com a desculpa deste prêmio, a secretaria de estado da cultura não diminua o investimento em projetos na área de literatura dentro da lei estadual de incentivo à cultura.

para maiores informações e para conhecer o edital (não deixe de participar, o prêmio vale para todo o território nacional): www.cultura.mg.gov.br

quinta-feira

fest'afro brasil

saiba mais no site da Casa África: www.casaafrica.com.br

segunda-feira

hino da vitória em certas circunstâncias

de madrugada em pleno esplendor
quem senão eu como cachaças destruindo suas vítimas amadas
para dar luz à indecisa claridade de suas mesas
quem senão eu com papeizinhos luxuosas descrições feitas para calar
ou a palavra mesa as mentiras
os metros de mentiras para vestir os cotovelos do embriagado
os alfaiates estão tristes porém se cose e canta
mente-se em quantidade irmãos meus fica bela a feiúra
amorosas as pústulas grande dignidade a infâmia
no pássaro no cantor no distraído cresceram répteis
com assombro contempla sua grande barbaridade
hurrah por fim ninguém é inocente
cavalheiros brindemos as virgens não virgam
os bispos não bispam os funcionários não funcionam
tudo o que apodrece em ternura dará
olho meu coração inchado de desgraças
tanto lugar como teria para as belas aventuras

juan gelman (tradução improvisada: leo gonçalves)

sexta-feira

deu na folha de são paulo

Poeta argentino Juan Gelman ganhou o Prêmio Cervantes de 2007
sexta-feira, 29 de novembro de 2007

O escritor argentino Juan Gelman, ganhador do Prêmio Cervantes de Literatura 2007 entregue hoje, disse que está "muito emocionado e comovido", mas não esperava sair vencedor, dada a "estatura e valor dos demais candidatos".

Em declarações à agência Ansa feitas de sua casa na Cidade do México (onde está radicado desde 1976), Gelman se mostrou satisfeito em ter obtido o reconhecimento "por aquilo que significa [o prêmio] no contexto da literatura hispano-americana".

"Me comoveu, eu não esperava. Depois que li a lista de candidatos, todos escritores de primeira linha, como Juan Goytisolo, Mario Benedetti, Blanca Varela, José Emilio Pacheco ou Juan Marcé, disse a mim mesmo: "é muito difícil", contou o poeta argentino.

Para o autor de "Velorio del Solo" (1961) e "Gotán" (1962), ganhar um prêmio desta magnitude "é realmente um grande estímulo, sem dúvida, porque condensa um reconhecimento pelo que foi escrito".

"O fato é que nenhum prêmio nem reconhecimento escreve por alguém, quem escreve é esse alguém. De qualquer jeito, o estímulo é muito grande", afirmou.Ao ser consultado sobre a possibilidade de ser indicado, ou pelo menos aspirar, ao Prêmio Nobel de Literatura, o poeta afirmou que "a Suécia está muito longe do México e também da Argentina". Gelman também falou de sua trágica experiência com a ditadura na Argentina, quando seqüestraram seu filho, Marcelo Ariel, e a esposa dele, María Claudia García (grávida na época), em agosto de 1976. Em outubro, Marcelo foi encontrado em um tambor de aço flutuando no Rio da Prata. Já de sua nora María Claudia, só foi devolvida a filha, nascida. Segundo Gelman, o acontecimento lhe permitiu "uma espécie de pacificação interior, para ver certas coisas".

Firme opositor das ditaduras de Argentina e Uruguai, e de sua impunidade, Gelman foi obrigado a fugir da repressão desatada pelo regime argentino (1976-1983) e se exilar do país por 12 anos. "[México] é um país que conheço desde o ano de 1961, que foi a primeira vez que passei, e estive por aqui quando era a região mais transparente, de verdade", lembrou.

A fala do poeta aponta ao título do romance de Carlos Fuentes, "La Región Más Transparente", em referência ao céu da Cidade do México, onde dizia sentir-se em "em casa". Juan Gelman também brincou ao afirmar que adora a "vitamina T", como se denominam popularmente no México bebidas e comidas típicas: "tequila, tacos, tortas e tamales", porque "é excelente, barata e abundante".

O escritor recebeu, em 1997, o Prêmio Nacional de Poesia da Argentina e, em 2000, o Prêmio de Literatura Latino-americana e do Caribe Juan Rulfo, e possui livros traduzidos em mais de dez idiomas.

Ele garante que não foi convidado à Feira Internacional do Livro de Guadalajara, onde se reúnem vários escritores do mundo todo. Por outro lado, se mostrou entusiasmado por ter sido convocado a dar aulas na cátedra "Julio Cortázar", nesta mesma cidade mexicana: "uma distinção que aprecio muito", completou.

isso de juan gelman recirculando

estive em brasília há alguns dias. uma passagem muito proveitosa. dentre as muitas conversas que tive por lá, destaco um raríssimo encontro com o professor henryk siewierski, coordenador da coleção poetas da editora unb. ele me revelou a bela notícia da recirculação do livro "isso" que estava esgotado até a pouco. para comemorar, deixo aqui um comentário publicado no jornal rascunho à época do lançamento do livro de juan em 2004.

Irônico desespero

por Jefferson de Souza

Escrever para não esquecer, para que ninguém esqueça. Talvez esta seja uma das mais possíveis maneiras de exorcizar os fantasmas autoritários que roubaram vidas impunemente na América Latina há poucas décadas. Juan Gelman nasceu em Buenos Aires, em 1930, e cumpre na literatura latino-americana o importante papel de ser a memória insistente e persistente do período de trevas imposto pelas ditaduras. É um dos mais importantes poetas da atualidade e trabalha com maestria o realismo crítico. A história de vida deste filho de judeus ucranianos reflete a dureza da sua poesia. ele teve o filho e a nora, grávida, seqüestrados pelos militares em 1976. Os restos mortais de Marcelo (o filho) foram encontrados em 1989. A família do poeta ainda está à procura do corpo de Claudia, a nora, mas em 2000 esta luta ganhou um grande fôlego quando foi encontrada a neta que havia sido adotada por um militar uruguaio 23 anos antes. Juan Gelman ficou 12 anos no exílio, mas não foi este sofrimento que o levou à poesia e sim o amor. Ele começou a escrever aos nove anos, quando tentou conquistar uma vizinha de onze anos, mandando poemas de outros autores e foi ignorado. Sentiu que com os seus poemas, ela se entregaria ao amor... Não foi o que aconteceu, mas ele continuou escrevendo para o bem da grande “dama”: é assim que o autor se refere com doçura à poesia. O livro do qual falamos é Isso e integra a coleção Poetas do Mundo da editora UnB. Esta obra foi publicada pela primeira vez em reunião organizada pelo próprio autor. Na edição brasileira, aparece o belo trabalho dos tradutores Andityas Soares de Moura e Leonardo Gonçalves, que no poema “Ao redor do qual” optaram por não traduzir palavras começadas por alm-, uma colagem lúdico-vernácula que perderia o sentido na tradução.

“e a almona é lugar onde se pescam sábalos/
e almorta é uma planta de talo herbáceo e ramoso/
e a semente dessa planta é a almorta/”

O presente livro recupera a história poética de Gelman, que fala de amor e de outros conflitos da Alma. Afinal, de que é feita a arte senão dessas enfermidades? Mas não pensemos só em aridez e desespero, a voz de Gelman é também macia, sutil, irônica, triste, como no belo poema que abre o volume –
aniversário

respiraria/rua/onde agora
cai a tristeza?/enchove?
mamãe trouxe a tarde/
vou manchar as toalhas/com certeza/

e adoraria o pito
que vai me passar/suavíssima/
revolvendo minha alma
com a colher da sopa/

a última coisa que fez
antes de morrer
foi esticar um fiozinho
para me pôr ao sol

O livro, escrito em Paris entre 1983 e 1984, tem um caráter memorialista como toda a obra deste argentino e merece estar na biblioteca dos que admiram a força da poesia.
[matéria publicada no Jornal Rascunho, fev. 2005]

quarta-feira

lançamento do livro "cada" de bruno brum

segunda que vem tem encontro marcado lá na livraria quixote (às 19h) . o livro é o "cada" do bruno brum (sabor graxa), que em breve dispensará qualquer apresentação. no lançamento haverá uma performance com as participações de ricardo aleixo e benedikt wiertz.

domingo

às vésperas do 20 de novembro

epopéia de zumbi
(nei lopes)

e de repente
era um, eram dez, eram milhares
sob as asas azuis da liberdade
nascia o estado de palmares
mas não tardou
e a opressão tentou calar não conseguiu
o brado da vida contra a morte
no primeiro estado livre do brasil
forjando ferro de ogum
plantando cana e amendoim
dançando seus batucajes
pilando milho e aipim
fazendo lindos samburás
amando e vivendo enfim
durante cem anos ou mais
palmares viveu assim
e a luta prosseguia
contra a ignorância, a ambição
até que surgiu zumbi
nosso deus, nosso herói, nosso irmão
ciente de que nenhum negro ia ser rei
enquanto houvesse uma senzala
ao invés de receber a liberdade
zumbi preferiu conquistá-la
e depois de mais três anos de guerra
o punhal da traição varou zumbi
foi a vinte de novembro
data pra lembrar e refletir
e hoje trezentos anos depois
um brado forte e varonil
ainda vem de pernambuco e alagoas
e se espalha pelo céu desse brasil

folga negro de angola
que ele não vem cá
se ele vier quilombola pau há de levar

(clique aqui para ouvir a canção)

sábado

uma preciosidade dita por pier paolo pasolini que cai muito bem aqui

"estou muito bem no mundo, acho ele maravilhoso, me sinto atado à vida, como um gato. é a sociedade burguesa que não me agrada. é a degeneração da vida do mundo. hitler foi o típico produto da pequena burguesia. mesmo stalin é um produto pequeno burguês. eu sou pela moral contra o moralismo burguês. qual é a diferença? o moralista diz não aos outros, o homem moral o diz apenas a si mesmo."




[io sto benissimo nel mondo, lo trovo meraviglioso, mi sento attrezzato alla vita, come un gatto. è la società borghese che non mi piace. è la degenerazione della vita del mondo. hitler è stato il tipico prodotto della piccola borghesia. anche stalin è un prodotto piccolo-borghese. io sono per la morale contro il moralismo borghese. qual è la differenza? il moralista dice di no agli altri, l'uomo morale lo dice solo a se stesso.]

elogio do ópio

há alguns dias, escrevi algo sobre o filme tropa de elite e, relendo e conversando com algumas pessoas, percebi que não fui exato num ponto: não tenho nada contra drogas. pelo contrário. sou a favor de todos os tipos de embriaguez, de delírio, de loucura, de paixão. não acho que a culpa da violência do tráfico seja da burguesia usuária. isso seria uma injustiça. o que eu queria dizer é que a culpa é uma coisa insossa que não resolve e nem resolverá jamais problema nenhum. quando se toca na culpa, nada tem solução. tudo é um mar de lamentações e pronto. se acabou.

sobre a burguesia e o seu baseado, o que me irrita é o uso burguês disso. como também me irrita ver playboy vestido de punk, barrigudos cervejeiros aprisionando suas namoradas e suas namoradas querendo ser aprisionadas pelos namorados para depois reclamarem que homem não presta, soluções compradas em shoppings centers, headbangers cagões, a vida em saquinhos de plástico e garrafas pet, praticidade vazia de significado, oba-oba que jura de pé junto que o bom da vida é o deixa disso vamo pedir mais uma, acende um fininho aí vira pra lá não é comigo. burgueses pensam que precisam ganhar um prêmio porque adoram fumar o seu caretíssimo baseado.

odeio todas as formas de burrice. mas todo mundo sabe que ela, a burrice, não é mérito de um ou de outro grupo específico de pessoas. aliás, é ela que domina a gorda massa das universidades brasileiras. não vai ser porque alguém curte o seu baseado que ela ou ele vai ser idiota, esperto, filósofo, marginal, poeta, playboy ou udigrudi. seria maniqueísmo (e me desculpem as pessoas que pensam assim, seria burrice) demais da minha parte.

quinta-feira

problemas de educação: ainda no clima "tropa de elite"

ultimamente tenho visto pessoas na televisão e na imprensa comentarem sobre o medo da violência que perpassa o brasil atual. e vejo que as pessoas aventam soluções estranhíssimas, todas repressivas e de coação. "é preciso investir em polícia!", dizem. "tem que instituir pena de morte!", outros respondem. há quem defenda a diminuição da idade penal. há quem ache que a solução é aumentar o salário dos policiais e armá-los melhor.

mas poxa! todo mundo sabe que essas medidas, todas elas, não passam de revidações. fico chocado de ver que ninguém defende a melhoria do ensino. ninguém defende um projeto de nação. o país está há tanto tempo imerso na ignorância e na falta de conhecimento que já perdeu a referência.

por pior que esteja a situação política no país, podemos dizer que esta é uma época de otimismo: nunca a inflação esteve tão baixa e por tão longo tempo, e ela chegou ao patamar que está sem nenhum choque econômico. a petrobrás acaba de descobrir um poço de gás combustível no fundo do oceano que pode colocar o brasil no patamar dos grandes exportadores. a dívida com o fmi chegou ao fim.

estamos nos preparando para sediar uma copa do mundo depois de termos sediado um pan. agora, é hora de dar educação para as pessoas. saber é poder. é a única coisa que pode tirar o país do buraco e acabar, a curto, a médio e a longo prazo, com a violência. eu queria que esse discurso contra a violência mudasse de caráter e de foco. a educação é o que faz a força de um povo. ensinar valores, conhecimentos, lucidez.

o assunto da educação no brasil é coisa séria. ando pensando muito sobre isso e vejo que são muito poucas as pessoas que tocam no problema. nem mesmo os artistas falam nele. estão todos preocupados com soluções paliativas. por isso, não reparem, voltarei a falar muito sobre isso por aqui.

terça-feira

funarte lança bolsa de estímulo à criação literária

depois do projeto pioneiro da petrobrás, no final de 2006, agora é a funarte que abre o edital para a bolsa de estímulo à criação literária. serão aceitos projetos nas categorias: crônica, conto, novela, romance e poesia. são ao todo 10 vagas, sendo 2 para cada região do país. e o valor da bolsa é de R$30.000,00, sendo metade entregue antes e a outra metade no ato da entrega da obra pronta, não podendo esta passar de julho de 2008. imagino que os amigos do movimento literatura urgente terão seus comentários a fazer. de minha parte, o que posso dizer é que fico feliz que as entidades do país tenham começado a entender que de pouco adiantam os concursos de literatura. é certo que este edital se parece muito com os velhos editais de concursos, mas o próprio fato de aprovarem projetos e não objetos, a proposta de "estimular" e não de dar mérito a alguém por seus escritos, além da distribuição por regiões já são passos bem interessantes para a melhoria das relações entre "estado" e literatura. espero que haja um equilíbrio entre aprovações de "prosas" e "poesias". e só lamento mesmo é a reduzidíssima quantidade de vagas.

para mais informações:

sexta-feira

tropa de elite: alguém falou em culpa?

muito curiosa a polêmica lançada pelo filme "tropa de elite". parece que ele agradou e, ao mesmo tempo, incomodou a gregos e goianos. os partidários da polícia ficaram chateados, as boas mocinhas acharam que ele faz apologia à violência, os malucos acham que o filme é ufanista, há quem diga que como filme é bom, mas que a violência pesada não justifica. por outro lado, há quem diga que, como filme é ruim, mas que o que é dito ali não pode deixar de ser dito, pois é bem o retrato da polícia. falou-se em problemas educativos, falou-se em pirataria, ouvi reclamações que "meu filho anda cantando a música tema do filme, e eu acho isso muito perigoso".

de minha parte, custei um pouco a ir vê-lo. mas posso dizer que gostei. achei o estilo denso e envolvente, achei que o diretor acertou a mão no tempo da narrativa e nas frases de efeito ("bota na conta do papa" vai entrar pra história). teve gente que andou reclamando que parecia demais com o "cidade de deus" do fernando meirelles. mas cá pra nós: se cinema dependesse de originalidade, hollywood já tinha falido há umas 3 décadas (sendo otimista). eu, pelo contrário, acho mesmo é que o filme será pra sempre um marco no cinema nacional e conquistará, ao lado do "cidade de deus", muitos seguidores.

particularmente não acho que o filme faça apologia à violência. pelo contrário, acho que ele mostra o quanto a violência é nefasta e triste. supor que uma ficção é uma apologia a qualquer coisa é lamentável para um país que se quer "civilizado". seria o mesmo que dizer que o "saló", do pasolini é uma apologia ao nazismo ou que a "ilíada" não deve ser lida por estar vazada de sangue. ora bolas, um bom artista produz coisas que o deixam fora até mesmo da sua moral pessoal, a questão "bem" ou "mal", tão reducionista e tão corrente no país que se diz "abençoado por deus".

por outro lado, não dá pra negar uma coisa: conheço um mundaréu de gente que ao ver o filme ficará muito entusiasmado em sair por aí pregando que a coisa tem que ser por aí. mas não é o filme que ensina isso. todos nós sabemos que ninguém entra numa sessão de cinema para aprender como é a vida. quem quiser saber isso, vai no mínimo procurar um jornaleco qualquer desses que circula a rodo pelo país e que dá as ordens no pensamento dos pretensos "cidadãos". no filme não. não posso responder por todo mundo, mas posso dizer que fiquei orgulhoso de ver que ao menos no cinema, existe a intenção, ainda que seja de um único diretor, de se criar o "mito do policial honesto". até por quê, acho que policial honesto é coisa que não existe em nenhum lugar que pratica tão fervorosa e convictamente a repressão (se você é brasileiro, você sabe do que estou falando).

pois bem, mas eu vi que teve um bando de burgueses maconheiros que também ficou meio nervosificado com a narrativa. imagina, mexer nos vícios é coisa séria. pode levar a conseqüências químicas. e eu sei que todo mundo prefere virar a cara e fingir que não é com ele. medo de ficar sem o seu sagrado baseado. não serei eu a aliviar a barra da burguesada, apenas quero saber se a galera vai ficar aí dizendo "a culpa é de quem?", borrando as calças de medo por só porque viu o próprio retrato na tela.

quer saber a minha opinião? foda-se a culpa. (por que ninguém fala no essencial?) chama o povo na responsa pra fazer algo que preste: ensinai as criancinhas. que saber é poder. entreguem óculos para os garotinhos que não enxergam direito, como o matias queria fazer no filme, e fez. e assistam como elas fazem o que não soubemos fazer, já que fomos educados por professores incompetentes. criar o mito do "ensinar para dar poder". antes que tudo exploda e não tenha volta.

quinta-feira

anderson almeida e o trevo de cinco folhas para download

aí está meu amigo, mestre da vanguarda distraída, camarada e poeta da lista dos preferidos disponibilizando a linda série "trevo de cinco folhas" para download (formato .pdf). são os cinco poemas pulsantes (um sexto vem de presente) que ele publicou na revista ipsis na ocasião em que ficou entre os três selecionados do concurso de literatura da revista literária do corpo discente da ufmg. quem quiser dar uma sacada, basta ir lá no www.friccoes.redezero.org e seguir as orientações.

quarta-feira

um poema de viviane mosé

lúcido deve ser parente de lúcifer
a faculdade de ver deve ser coisa do demônio

lucidez custa os olhos da cara

domingo

egoísta: beatriz azevedo & josé celso

egoísta
(beatriz azevedo)

você disse que eu sou egoísta
egoísta é quem só pensa em si
como é que eu posso ser egoísta
se eu só penso em você

você é muito vaidosa
não quer dar o braço a torcer
você é muito exigente
já fez tanta gente sofrer

você não sabe como me machuca
quando diz essas coisas cruéis
coloquei meu coração a seus pés
conheci o perfume da dor

você tem tudo o que quer
e não quer tudo que tem
todos querem ficar com você
mas você não é de ninguém

sexta-feira

um poema de william blake

o sorriso

há um sorriso que é de amor
e há um sorriso de maldade,
e há um sorriso de sorrisos
onde os dois sorrisos têm parte.

e há uma careta que é de ódio,
e há uma careta de desdém
e há um careta de caretas
que te esforças pra esquecê-la bem,

pois ela fere o coração no cerne
e finca fundo na espinha dorsal
não um sorriso que seja inédito
mas único sorriso solitário.

e entre o berço e o túmulo
somente uma vez se sorri assim;
e uma vez havendo sorrido
todas as misérias têm seu fim.


(tradução livre leve e tosca: leo gonçalves)

waly sailormoon e a teatralização: trechos de um texto de antônio cícero

uma das publicações mais bonitas de poesia que tive acesso nos últimos tempos é o livro “me segura qu’eu vou dar um troço” de waly sailormoon, publicado em 2003 pela editora aeroplano em parceria com a biblioteca nacional, organizado por heloísa buarque de hollanda e luciano figueiredo. trata-se trabalho do primeiro do baiano que, em 1972 ficou preso no carandiru por causa do porte de uma “mera bagana de fumo”.

“meu primeiro texto teve de brotar numa situação de extrema dificuldade. na época da ditadura, o mero porte de uma bagana de fumo dava cana. e eu acabei no carandiru, em são paulo por uma bobeira, e lá dentro eu escrevi “apontamentos no pav 2”. não me senti vitimizado de ver o sol nascer quadrado. para mim foi uma liberação da escritura”.

nesta edição, há um belíssimo prefácio de antônio cícero, verdadeiro testemunho de admiração e amizade por um dos poetas mais importantes que apareceram na cena brasileira dos últimos 50 anos. fiz uma pequena edição de um trecho que me toca, especialmente agora, neste instante da vida. espero que o cícero não se importe. segue o texto:

a falange de máscaras de waly salomão


(...)

em 2002, waly resume a relação entre a prisão e a escrita, dizendo que "... ver o sol nascer quadrado, eu repito esta metáfora gasta, representou para mim a liberação do escrever que eu já tentava desde a infância.

se desde a infância ele já buscava a liberação que a escritura de "me segura"viria a lhe proporcionar, então, de algum modo, a vida anterior a essa escritura devia ser por ele percebida como uma prisão ou um confinamento: confinamento do qual o carandiru tornou-se o emblema. de que se trata? são muitas as possíveis prisões. em texto sobre "me segura", intitulado "ao leitor, sobre o livro", lê-se:


sob o signo de PROTEU vencerás.
por cima do cotidiano estéril
de horrível fixidez
(waly salomão)

de que modo a poesia proporciona a liberação a quem foi confinado? o desprezo pela fixidez do cotidiano, a rejeição dos princípios lógico-formais da identidade e da contradição, a vontade de abolir as fronteiras entre o eu e os outros e o fascínio pela metamorfose são características que trazem à mente a noção de carnavalização. mas, não creio que o termo carnavalização seja adequado para caracterizar a obra de waly. na verdade, aquilo que merecia o epíteto de carnavalizante era a pessoa ou a irradiante presença de waly, inclusive na sua atividade de conferencista e nas suas aparições na televisão, mas não a sua poesia. em relação a esta, prefiro empregar o conceito que ele mesmo elegeu: o de teatralização.

“é que eu transformava aquele episódio, teatralizava logo aquele episódio, imediatamente, na própria cela, antes de sair. eu botava os personagens e me incluía, como marujeiro da lua. eu botava como personagens essas diferentes pessoas e suas diferentes posições no teatro: tinha uma agente loira babalorixá de umbanda, tinha um investigador humanista e o investigador duro. o que quer dizer tudo isto? você transforma o horror, você tem que transformar. e isso é vontade de quê? de expressão, de que é isso? não é a de se mostrar como vítima”.

a vítima é o objeto nas mãos do outro. quem aceita a condição de vítima no presente, quem diz: “sou vítima” está, ipso facto, a tomar como consumada a condição de não ser livre. é contra essa atitude de implícita renúncia à liberdade que waly teatraliza a sua situação. ao fazê-lo, ele a transforma em mera matéria prima para o verdadeiro drama, que é o que está a escrever. a vítima passa a ser apenas o papel de vítima, a máscara de vítima. por trás da máscara há o escritor. mas isso não é tudo, pois o que é o escritor senão o papel de escritor? waly sailormoon, o marujeiro da lua, diz que: “chego nos lugares e percebo as pessoas como personagens de um drama louco”. mas não se deve cair no equívoco de supor que a teatralização consista simplesmente em opor ao mundo real o imaginário. não é o delírio ou a alucinação que waly aqui defende. não se trata de opor o teatro ao não-teatro. o que ele julga é, antes, que tudo é teatro. ao afirmar que percebe as pessoas como personagens de um drama louco, waly não quer dizer apenas que as interpreta como tais, mas que se dá conta de que são personagens de tal drama. retomando a idéia do theatrum mundi, originada na antigüidade.
mas, se tudo já é teatro, se até o fato é teatro, qual é o sentido da teatralização? por que teatralizar o que já é teatro? é que o fato social é o teatro que desconhece o seu caráter teatral. o processo que leva a esse desconhecimento ocorre, por assim dizer, “naturalmente”: como a peça que se representa no teatro do mundo parece ser sempre a mesma, os atores ignoram que se trate de uma peça, isto é, de obra humana e artificial; ignoram, em outras palavras, que seja uma dentre muitas peças reais ou possíveis, e a tomam por natureza. longe de reconhecer espontaneamente o teatro do mundo como teatro, o indivíduo, no interior da sua cultura, aceita os papéis sociais como dados ou fatos desde sempre já prontos: o que equivale, como foi dito, a tomá-los por natureza, não por teatro.

a atitude de waly é diametralmente oposta a essa. ele nunca esquece que o “fato” social é o teatro que se enrijeceu ou esclerosou a ponto de olvidar a sua natureza teatral: o teatro que se pretende superior ao teatro, que se pretende mais real do que o teatro. na medida em que tem êxito em sua impostura, a “horrível fixidez” daquilo que podemos chamar de “teatro do fato” não somente expulsa ou degrada ao segundo plano as virtualidades ainda não realizadas do presente, que o superam em riqueza, mas, além disso, congela o movimento criativo que, em princípio, exige a abertura permanente a novas possibilidades interpretativas. a teatralização walyniana funciona, portanto, como a água de mnemosune, o antídoto contra a água da fonte de lete, do esquecimento naturalizante e confinante.

(do prefácio de antônio cícero ao livro “me segura qu’eu vou dar um troço”, de waly salomão, publicado em 2003 pela editora aeroplano)

segunda-feira

je te lançais de mes crachats sur le sublime
et t'attendais dans un coin des heures mortes
je savais bien que tu ne venais pas
et tu riais
et tu riais
et tu riais

je t'attendais dans un coin aux heures mortes
d'amour avec curitiba et personne ne venait
ton amour était rien aux heures mortes
tu ne venais pas
tu ne venais pas
tu ne venais pas

je te déchirais de tout ton corps à l'eau de vie
et te disais d'aller aux gouffres de l'enfer
tu dansais sur me crachats sur mes crachats
et buvais
et buvais
et buvais

et je vivais pour adoucir bien ta faveur
et ma cravate était percée dans ton poil
je me promenais par les coins les petites places
et tu mentais
et tu mentais
et tu mentais

j'enregistrais sur le détail chacun de nos rêves
pour présenter au fantastique à la chaîne mondiale
tu dansais toute la nuit sur mes crachats
e je dansais avec toi sur mes épaules
à la chaîne mondiale
c'était ma fin
c'était ma fin
c'était ma fin

um poema de paul verlaine

circunspecção

dá tua mão, não respira, senta aqui, à
sombra desta árvore onde morre a brisa
aos suspiros da copa cor de cinza
que o lívido luar acaricia.

imóveis, baixemos a mirada pia
sem pensar, sonhemos. deixemos à guisa
do amor e da alegria que amenizam
e em nossa cabeça a coruja pia

para quê esperar? discreta e contida
que nossas almas prossigam
essa calma e essa serena morte solar

silêncio, em meio à paz noturna:
não é bom vir em seu sono atrapalhar
a natureza, essa deusa feroz e taciturna.

(tradução livre leve e solta: leo gonçalves)

um trecho do breviário dos vencidos, de e. m. cioran

"os que são afligidos pelas insuficiências humanas, que se deixam entristecer pelo vão escorrer das horas, com que alegria se entregam àquele brilho que projeta sobre as coisas um conteúdo ardente! para uma alma a qual o vazio do mundo atormenta, a obsessão da vingança é um alimento doce e fortificante, um elemento substancial de todos os instantes, uma irritação que engendra sentidos acima do não-sentido geral. as religiões, em seu ódio a tudo o que é nobreza, honra e paixão, inocularam a covardia nas almas, proibiu-lhes a renovação dos frêmitos e dos frenesis. elas não tocaram nada tão duramente como a necessidade que o homem tem de ser ele ao se vingar. que aberração – perdoar seu inimigo, oferecer à palmatória e às cusparadas todas as fauces inventadas por um pudor ridículo, uma vez que nossos instintos nos incitam a pisoteá-lo como um bicho nojento.

é em suas intolerâncias que o homem é um homem. alguém te enganou? nutra o ódio em você, alimente seu rancor secreto, aqueça a bile em suas veias. e se às vezes você sente que a ampla quietude das noites te ganha, não se deixe cair no esquecimento lenitivo da meditação – açoite sem piedade a sua carne amolecida, deixe o seu veneno no corpo do adversário. senão, para quê prolongar uma vida que só servirá de fardo?"


(trecho de "breviário dos vencidos"(îndreptar pătimaş), escrito entre 1940 e 1944, último livro que o romeno escreveu em sua língua pátria. assim como este, o livro está repleto de textos provocadores e cruéis, tratando de diversos assuntos cada vez mais polêmicos, especialmente nessa nossa época de lenitivos e de discursos politicamente corretos).

a revista viva voz e "a lata" de patrícia mc quade

saiu recentemente a revista viva voz, resultado da oficina de escrita da professora elisa amorim. das aulas ministradas pela professora, saíram excelentes textos, dentre os quais destaco este verdadeiro retrato da vida contemporânea e do verão que entra.

a lata
por patrícia mc quade

sentiam-se comprimidos, envergonhados, condensados, apertados, oprimidos, sintetizados, humlhados, amassados.

os rostos derrotados eram mais que cansados. e pagavam por isso. todo o peso do mundo exercia pressão por todos os lados. perfeita imitação de uma lata de sardinha. precisavam pagar por isso. humanos desafiando a física. como dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço? e pagavam caro por isso.

os cidadãos dentro da lata sobre rodas suavam. termômetros acusavam: o dia mais quente o verão. poucos sentados. a maioria de pé. todos tremendo juntamente com o motor que roncava. aquela lata cantava de maneira insuportável. por que deus criou nossos ouvidos? e as pessoas pagavam por isso.

gente encostada nas janelas abertas, aproveitando o alívio do vento morno. os outros empilhados, de braços erguidos, sustentando no equilíbrio os corpos uns dos outros. a total coletividade individual, com dificuldade de respirar, agonizava e pagava por aquele ar que cheirava a dia de trabalho e de competitividade por emprego, por dinheiro, por status, por oportunidade e, agora, por espaço. e pagavam pelo não-merecido.

fora da lata começava a chuva mansa que ao toque com o asfalto incandescente produzia um mormaço ainda mais insuportável que o calor do sol. o mormaço queria também o espaço da lata, que já possuía o calor de seu motor e o suor dos corpos, e entrou sem pagar por isso, transformando a lata em uma panela de pressão. e o cozido humana pagava sempre por isso.

a velocidade oscilava em sucessivas paradas para que os sujeitos já compactados descessem e outros embarcassem. a lata cada vez mais carregada e lenta, com a preguiça de uma babosa, se arrasta pelas ladeiras da cidade e em freadas bruscas e arrancadas estúpidas, e o traçado de curvas ondulantes, seguimento retilíneo, tudo isso como regras de um joguete de corpos que obedeciam ao ritmo imposto: para frente, para trás, para a direita, para a esquerda, agora lançamento oblíquo. sem ordem, ao acaso. os corpos obedeciam, amontoados e deprimentes e pagavam a viagem com dinheiro roto, suado, mas sempre pagavam por isso.

(traduzido do castelhano por leo gonçalves)

sexta-feira

a disciplina do ódio

o ódio é como uma criança frágil. é preciso saber que ele te ocupará mais que o amor. você o reitera a cada manhã e é ele que te indica a via a ser seguida a cada dia. é um pacto: a partir de agora o ódio será seu guia sua liturgia. você renderá cultos fenomenais a esse deus insano pois você não poderá mais viver sem ele. acompanha-o o ódio-ao-ódio. pés e mãos atados se arrastando de joelhos como um cristão. ele te surge como a promessa de neutralizar a imensa dor. mas seu verdadeiro encargo é o de ampliar as feridas. e morde com boca ávida a carne viva. o ódio-ao-ódio te redevolve dedicado que é à disciplina do ódio.

* * *
el odio es como un niño débil. hay que saber que él te ocupará más que el amor. lo reiteras cada mañana y es él quién te indica el camino de cada día. es un pacto: desde ya el odio será tu guía tu liturgía. le renderás cultos fenomenales a ese dios insano pues ya no podrás vivir sin él. lo acompaña el odio-al-odio. pies y manos atados arrastrándose como un cristiano. él te surge como una promesa de neutralización del gran dolor. pero su verdadero encargo es el de ampliarte las heridas. y muerde con boca ávida la carne viva. el odio-al-odio te redevuelve dedicado que eres a la disciplina del odio.

* * *
la haine est comme un enfant fragile. il faut rendre compte qu'elle t'occupera bien plus que l'amour. tu la réitères chaque matin et c'est elle qui t'indique la route à suivre chaque jour. c'est un pacte: désormais la haine sera ton guide ta liturgie. tu rendras des cultes phénomenaux à ce dieu malsain, car tu ne pourras plus le quitter. la haine-à-la-haine l'accompagne. les pieds et les poings liés traînant à genoux comme un chrétien elle t'apparaît comme la prommesse de neutralisation de la grande douleur. mais sa charge véritable est celle d'élargir les blessures. et elle te mord avidement la chair vivante. et la haine-à-la-haine te renvoit dédié que tu es à la discipline de la haine.

* * *
hate is like a weak child. you must to know that it will take you much more than love. you repeat it each morning and it show the way of everyday. it's a pact: since now hate will be your guide your liturgy. you worship amazingly this mad god because you won’t to leave it never more. hate-to-hate follows it. tied by feet and fists crawling like christian folks. it appears as a promise of the great pain's neutralization. but its only charge is to enlarge your wounds. and it bites you on the injuried flesh. and hate-to-hate re-sends you, you devote, to the discipline of hate.

quinta-feira

nossos beijos costurados

nossos beijos costurados sobre a camiseta
tão inquietos os beijinhos
que caminham rebeldes pela pele
e se agarram como manchas no pescoço


eu brinco a beça com a sua cabeça
tem piolhos tem caprichos muitos grilos
pelos loiros coloridos
eu colo no seu colo a minha boca
e você se perde


porque agora tem um mar de cheiros
o amargo mar de onde arde o nardo
e cresce entre as pernas da menina
com meu ramo mirrado e uma rosa uma rosa
uma rosa sob a minha mira


sei os beijos na palma da mão
e palmas para o movimento gostoso
da palmeira no vento e sua palma
magrinha como o visgo do dendê


os beijos sobre os beijos pela pele
derramam bálsamos a cântaros
e perfumam qual o cedro o seu ciúme
a casa não tem varanda a que se preste
a sacanagem santa desses nossos beijos


que correm cosidos pela camiseta
tão inquietos os beijinhos
passeando rebeldes pela pele
& te adornando no pescoço nas orelhas

segunda-feira

o salamalandro na biblioteca girapemba

laroiês e evohés! essa semana tive a honra de colaborar para a "biblioteca girapemba", do blogue "folhas de girapemba" de ana maria ramiro. a proposta dela é bem interessante: em cada apresentação, um poeta fala de sua formação, suas referências e preferências. ao final, uma seleção de 5 poemas preferidos do autor em questão e um do próprio entrevistado. vale a pena conferir. para a proposta já colaboraram: marcelo sahea, claudio daniel, linaldo guedes e thiago ponce de moraes. caprichosa nas cores e escolhas, filha de iya mi, ana está montando uma biblioteca bacana. para esta seleção, ela escelheu o meu "canto para matamba", que vocês poderão ler lá mesmo, na íntegra. valeu, ana. ótimo jeito de começar a semana.

quarta-feira

oyá (iansã)

menina afogueada fruta verde
virada na ponta do casco
brasa que anima o toque
ventania da savana
fagulha ligeira que esparrama

é parreira alada, é Matamba
folha rebelde de Aruanda

(é um poema de ana maria ramiro, publicado na bela antologia 8 femmes. ótima pedida para a primeira quarta-feira de liberdade.)

segunda-feira

soltar os escravos

domingo

carta de alforria

(letra para um possível samba)

quando você foi embora
eu não chorava eu não chorava
eu sorria, ai meu bem, eu só ria
quando você foi embora
eu sorria eu só sorria
quando você foi embora
foi carta de alforria

fiz um pacto de sangue com a liberdade
de agora em diante
só me deixo prender o coração
se for numa fina fita de brilhante

eu vou me mandar daqui
quero morar na casa felicidade
no barraco da filosofia
eu quero viver de verdade
quero curtir a minha carta de alforria
antes que seja tarde

quando você foi embora
eu não chorava eu não chorava
eu sorria, ai meu bem, eu só ria
quando você foi embora
eu sorria eu só sorria
quando você foi embora
foi carta de alforria

sábado

a verdade sobre as máscaras

"teatro é o lugar onde as máscaras caem."
zé celso martinez corrêa

sexta-feira

servidão - dica para o seu fim de semana em bh

o espetáculo servidão [livre adaptação da novela "of human bondage", de somerset maughan, dirigido por carlos gradim e encenado por luiz arthur, cynthia paulino, samira ávila e alexandre cioletti] estréia hoje, sexta-feira, dia 05 de outubro, no Odeon Espaço Cultural (r. tenente brito melo [paralela com a barbacena], 254 - barro preto). estréia hoje às 21h e só vai até domingo.

quarta-feira

julius

julius caiu na rede. até que enfim. tenho que admitir: sou fã desse cara. para o bem de todos e alegria geral da nação, leiam o contrasenso e freqüentem o portfolio dele. saravá!

www.contrasenso.info
www.julius.es

terça-feira

waly salomão, jards macalé, luiz melodia e o mal secreto

mal secreto
(jards macalé – waly salomão)

não choro
meu segredo é que sou rapaz esforçado
fico parado, calado, quieto
não corro, não choro, não converso
massacro meu medo
mascaro minha dor
já sei sofrer
não preciso de gente que me oriente
se você me pergunta “como vai”?
respondo sempre igual “tudo legal”
mas quando você vai embora
movo meu rosto do espelho
minha alma chora
vejo o Rio de Janeiro
comovo, não salvo, não mudo
meu sujo olho vermelho
não fico parado, não fico calado, não fico quieto
corro, choro, converso
e tudo mais jogo num verso
intitulado Mal Secreto

domingo

zé celso & os sertões no rio de janeiro

há mais ou menos um ano atrás, eu e patrícia assistimos à primeira apresentação integral da peça "os sertões" do grupo oficina uzyna uzona, comandado por zé celso martinez corrêa. trata-se de uma obra monumental, apresentada em cinco dias, com cerca de 5h por apresentação. a epopéia de euclides da cunha, em cena, se divide em "a terra", "o homem I - do pré homem à revolta", "o homem II - da revolta ao trans-homem", "a luta I" e "a luta II". 25 horas de teatro em alta voltagem. poesia, ritual, música, oficina de humanizar. a peça marca para mim uma verdadeira mudança de paradigma. mudança de rumos. último capítulo de uma longa história que começou no dia em que comecei a gostar de arte. última fase da última limpeza que fiz nas minhas "portas da percepção". assisti à peça depois de haver escrito "uma festa bacana", poema que traz muitos elementos da peça, assim como uma prosa delirante e inédita que somente a minha namorada conhece, e que li para ela no última madrugada da nossa estada em são paulo, de 25 para 26 de setembro de 2007, logo após assistirmos "a luta 2". a peça de zé celso me corroborou.

assim como outras peças do oficina, "os sertões" é um capítulo da luta que o grupo trava contra o grupo sílvio santos (ss) há 25 anos. "as bacantes", "boca de ouro", "ham-let". isto porque o teatro está construído exatamente no lugar onde sílvio santos planeja construir um imenso shopping center. uma história sórdida que está documentada no site do oficina e que merece ser acompanhada na íntegra. uma guerra de davi e golias, a velha guerra entre arte e capitalismo.

numa entrevista à revista folhetim, zé celso comenta:
"o teatro oficina é uma coisa muito estranha porque não é mais nem uma metáfora: eu comecei não querendo entregar o teatro, quando voltei do exílio, por uma questão até de birra, porque saí de lá à força, com a polícia invadindo etc. e de repente, eu me vi pensando: "não, eu podia fazer exatamente tudo que eu faço em outro lugar, como posso fazer todas as peças que faço noutro lugar, mas, se eu fizer nesse lugar, eu vou ter mais problemas e, conseqüentemente, esses problemas vão me inspirar mais, porque se trata realmente de ver até que ponto existe um poder na cultura e na arte e qual é o confronto que elas estabelecem com as forças reais da sociedade, até que ponto o teatro tem algum poder."
agora, no princípio de outubro, a peça "os sertões" se apresenta mais uma vez na íntegra. desta vez, no rio de janeiro, depois de ter passado pelo recife e salvador em uma mini-turnê (que infelizmente não inclui belorizontem) a obra se insere na programação da 8º riocenacontemporânea. para mais informações:
www.riocenacontemporanea.com.br
www.teatroficina.com.br

sábado

saravá roberto piva

roberto piva está completando seus 70 anos! merece muitos evohés! longavida, piva.

dica para os amigos que estão em sampa

dica para os amigos de brasília

quinta-feira

release: lançamento do livro com/posições de juan gelman

Lançamento nacional do livro Com/posições de Juan Gelman, em tradução de Andityas Soares de Moura acontece no sábado, dia 29 de setembro a partir das 10h da manhã na Livraria Quixote, em Belo Horizonte.
Sábado, dia 29 de setembro, a partir das 10h da manhã, na livraria Quixote, acontece o lançamento do livro Com/posições, obra de um dos artistas mais participantes no cenário cultural e político da atualidade. Juan Gelman vem se destacando por sua dupla atuação como poeta e jornalista. Autor de mais de 3 dezenas de livros, sua obra vem pouco a pouco aparecendo também no Brasil graças ao esforço de alguns poetas tradutores. É o caso de Andityas Soares de Moura que, tendo traduzido o livro Isso (Editora UnB, 2004) para a coleção Poetas do Mundo, em parceria com Leonardo Gonçalves, lança agora a tradução de Com/posições, um de seus livros mais expressivos.

Com/posições é um livro híbrido, onde o autor recria diversos poetas árabes e judeus antigos fazendo deles ao mesmo tempo parceiros e heterônimos de Juan Gelman. Assim, os autores “traduzidos” vão desde o rei Davi até a poetas árabe-espanhóis da idade média, o período conhecido como Al-Andaluz. Mas a escolha dos poemas ali presentes não é sem razão: o argentino se vale das vozes antigas para falar de sua própria condição de exilado.

A primeira edição desta obra em língua castelhana se deu em 1986 e os poemas foram escritos entre 1984 e 1985, período em que ainda se comia os frutos da ditadura militar argentina (1976-1983), uma das mais sangrentas e cruéis da história. Gelman foi uma das vítimas mais célebres do regime militar. Em 1976, pouco depois do golpe, os militares invadiram a casa do poeta, seqüestraram o seu filho e sua nora, Marcelo e Claudia (que estava grávida) e os levaram a um campo de concentração no Uruguai onde foram mortos e desaparecidos. Gelman continuou vivo, pois já havia conseguido asilo político na Europa e passou a seguir numa busca revoltada e incansável por notícias do neto (mais tarde saberia que era neta) e os restos mortais do filho e da nora. Em 1989 o governo militar encontrou as ossadas de Marcelo e somente em 2000, apareceram notícias de sua neta e Claudia, por sua vez, a despeito da campanha internacional que se deu durante todo o período, segue desaparecida e a causa dada como perdida.

Com este episódio lamentável, Gelman manteve-se em constante revolta e não silenciando jamais as iniqüidades do governo militar. Entretanto, uma marca de sua poesia é uma imensa ternura e uma grande manifestação de amizade para com o seu povo. O escritor Júlio Cortázar, num artigo de 1981, comenta: “Talvez o mais admirável em sua poesia seja sua quase impensável ternura ali onde mais se justificaria o paroxismo do rechaço e da denúncia, sua invocação de tantas sombras por meio de uma voz que sossega e arrulha, uma permanente carícia de palavras sobre tumbas ignotas”.

Gelman vem sendo traduzido para vários idiomas e vem também acumulando diversos prêmios pelo mundo afora. Entre os prêmios principais destacam-se os seguintes: Nacional de Poesia 1993-1996 (Argentina, 1996), Literatura Latinoamericana y del Caribe Juan Rulfo (México, 2000), José Lezama Lima – Casa de las Américas (Cuba, 2003), LericiPEA (Itália, 2003), Pablo Neruda (Chile, 2005), Premio Reina Sofía de Poesía Iberoamericana (Espanha, 2005). Sobre sua inventividade poética, comenta o poeta paulistano Haroldo de Campos: “Eu considero o Gelman, hoje, um dos maiores poetas da língua espanhola em geral e, também, no nível internacional. Por isso, temos de divulgar a sua poesia.”

O livro, além de trazer na íntegra os poemas “Com/posições” (Com/posiciones, no original), traz também um precioso prefácio do tradutor e uma entrevista com os tradutores brasileiros Andityas Soares de Moura e Leonardo Gonçalves, originalmente publicada em 2005 no Suplemento Literário de Minas Gerais.

Para maiores informações, consulte os sites:

www.crisalida.com.br
www.juangelman.com (este site em espanhol é mantido pelo próprio autor)

negras imagens em movimento

por Regina Barbosa da Silva

Difundir a cultura negra brasileira e promover reflexões sobre as relações étnico-raciais no Brasil por meio de vídeos e filmes. Esse é o objetivo do “Projeto Negras Imagens em Movimento - Espaço Cultural Palmares: Cultura e Ações Afirmativas na UFMG”, resultado de uma proposta feita pela Fundação Cultural Palmares ao Programa Ações Afirmativas na UFMG (veja Box). O trabalho, voltado para comunidades periféricas de Belo Horizonte e arredores, é realizado onde os membros do projeto já mantêm algum contato ou onde são convidados a levar as mostras. A idéia é articular a exibição dos filmes com a realidade das comunidades e com as atividades culturais que elas realizam. Para isso, a equipe faz visitas aos locais, levanta dados sobre os grupos e os movimentos sociais existentes, bem como dos problemas e das questões colocadas pelos moradores.

matéria escrita para o site "tubo de ensaio" da faculdade comunicação (fafich). para lê-la na íntegra, clique aqui.

quarta-feira

o limpador de chaminés

na neve um ponto negro vai
chorando 'arre 'arre em tom de ai!
onde seu pai & sua mãe hão de estar?
eles foram para a igreja rezar.

porque alegre as urzes me mostro,
e sorrio sob a neve que cai:
me vestiram as vestes da morte,
e me ensinaram o canto em tom de ai.

e porque alegre cantei & dancei
eles pensam que não me ferem:
e vão louvar a deus & seu padre & o rei
que criam um céu da nossa miséria.


















é um poema de william blake que traduzi em parceria com o mário alves coutinho em "canções da inocência e experiência" (veja a capa aí do lado). em destaque, os dois versos que mais combinam com a minha revolta neste instante. tão brasil.

com a palavra, o excelentíssimo senador renan calheiros

minha absolvição pelo plenário do senado é uma vitória da democracia brasileira. uma vitória de todos os que continuam acreditando na verdade e no sentido de justiça; uma vitória do senado, que comprovou, através do voto, sua isenção e responsabilidade.
(acho que isto merece resposta. no site dele tem uma sessão fale com renan. sugiro a todos que entrem lá e falem com ele, então: www.falecomrenan.com.br)

monopólio da microsoft gera a maior multa da história

o tribunal de primeira instância da união européia respaldou a maior parte da decisão da comissão européia (CE) de punir a microsoft por abusar de sua posição de domínio e confirmou a histórica multa de US$ 690,3 milhões (497,2 milhões de euros) imposta ao gigante da informática. a corte havia condenado a Microsoft em 2004 por aproveitar-se do monopólio de seu sistema operacional windows para expulsar do mercado outros concorrentes, e que, além disso, não forneceu as informações necessárias para fabricar produtos compatíveis com seu sistema. o departamento de justiça dos EUA disse, por sua vez, que está "preocupado" sobre a decisão "unilateral" da corte de primeira instância contra a microsoft, afirmando que "isso pode prejudicar consumidores e desencorajar a inovação".

(para ler mais, clique aqui: FDsP)

terça-feira

uma senhora festa-poema

tá lá no blogue do marcelo sahea: no dia 23/09 acontecerá o mais longo sarau da história, organizado por Menezes y Morais (que até contactou o pessoal do Guiness Book). é o sarau da primavera que já tem em sua programação 100 horas de poesia. das 20h do dia 19 (quarta-feira) à zero hora do dia 23 (domingo) de setembro, no clube da Imprensa, lá em brasília. lançamentos e relançamentos de livros e cds de autores residentes na capital, além de programação cultural paralela. quem estiver em brasília não pode perder.

segunda-feira

andityas soares de moura numa vídeo-conferência sobre juan gelman

aí está o meu parceiro e comparsa numa vídeo conferência sobre um de nossos poetas favoritos. o vídeo tem 57 minutos e a conferência é realmente muito instrutiva. vale a pena conferir.

a ditadura militar acabou ou não?

uma cena que não sai na imprensa: um menino de dezesseis anos pega o ônibus para sua casa na periferia de belo horizonte. acontece uma batida policial no meio do caminho. confusão e tiros. um cidadão é atingido. o garoto corre para socorrer e os policiais assustados não querem deixar. o menino nervoso começa a gritar, a insultar. um dos policiais decide: desacato à autoridade. e desce a porrada no menor de idade. assim. em público. na frente de todo mundo. em casa, horas mais tarde, o garoto ouve um sermão da mãe. algumas pessoas dizem que é necessário denunciar, mas a família acha que "essas coisas acontecem", que é melhor "deixar na mão de deus". na verdade, fazendo um diagnóstico, o que deixa a gente revoltado diante dessa situação é que no fundo no fundo, todos estão morrendo de medo. o policial não sabe em quem ele bateu, o garoto não pode denunciar porque a polícia pode ameaçar a família, a família quer entregar nas mãos de deus para não continuar tendo problemas com ninguém, nem com a lei da favela, nem com a do governo. e a revolta só sobe de nível, enquanto quem manda no brasil é uma deusa chamada apatia. até quando, isso é o que eu não sei.

quanto custam os seus sonhos?

para completar minha revolta, meu computador voltou a botar aquele recadinho assim: "seu computador pode estar em risco: você está utilizando uma versão não autorizada do windows." através da internet, a microsoft entra no seu computador e faz a inspeção para saber se você está usando uma versão pirata ou não. mas no seu aparelho, você coloca: sonhos, desejos, planos, planilhas, organizações, cartas de amor e cartas a você mesmo, paixões, projetos. de certa forma, a sua vida está lá dentro. o risco de que fala aquele recadinho da microsoft é o de ela vir e apagar os seus sonhos como se fosse o vento sobre a areia. já estou substituindo o word pelo writer do open office (o programa é muito mais inteligente e não faz nenhuma chantagem, pelo contrário, me incentiva a colaborar). como meu aparelho é usado por toda a minha família (ao todo 7 pessoas), ainda não tive a coragem de chutar o balde e passar para o ubuntu, como fez a lenise, mas farei isso em breve. paciência tem limites. (para quem não sabe, o ubuntu é um sistema operacional que substitui o windows - e, diga-se de passagem, mais inteligente e colaborativo, também). detalhe para quem leu a mensagem abaixo: o open office (a versão brasileira se chama br office) já transforma o arquivo de word, jpg, excel e tudo mais em pdf, se vc precisar. sem choro nem vela.

sexta-feira

você no meio de uma guerra mercadológica

estive ontem em guerra. precisava transformar um arquivo de word em pdf. uma exigência da ufmg para a entrega final das teses de mestrado e doutorado (era um help para um amigo). quebrei a cabeça para solucionar o problema e de repente me dou conta que estava no meio de um mato sem cachorro: a microsoft detém os direitos dos editores de texto e cia. a adobe é a dona dos programas de pdf. é um beco sem saída. claro que não pago para nenhuma das duas. felizmente tem os freepdf e open office - com uma pequena ajudinha dos amigos - para salvar a gente nessa horas. mas é uma luta idiota esta.

coincidência encontrar justo hoje os comentários sobre isso nos blogues amigos do anderson e da lenise (link aí do lado). daí eu fico me perguntando: por que tanto sofrimento? já que esse é um país de gente pobre, acho que todo mundo devia partir era para os softwares livres de uma vez. a vida seria mais simples.

terça-feira

11 de setembro - apontamentos para wtc babel

um esclarecimento: não faço nenhuma apologia à morte de 3.000 pessoas, assim como lamento a existência de 800 milhões de telespectadores idiotizados pelo mundo afora. o que me atentou para certos aspectos desse atentado foi me deparar com a situação de que tudo foi mostrado como um grande espetáculo no qual não nos foi mostrado um mortozinho sequer. a mídia dramatizou à exaustão a ausência dos mortos e seus recados derradeiros. todos se indignaram com um atentado que, se a verdade está estampada de fato nas notícias de imprensa (talibã, al-qaeda, fundamentalismos etc), não passa de uma reação ao abuso do poder pelo mundo afora que não cessou nem mesmo com o fim de ditaduras e as declarações de liberdade dos países. todo esse acontecimento nos faz pensar nos 45 anos de guerra fria e suas rebordosas pelos anos 90 e 2000 afora. o que foi essa influência dos EUA sobre o mundo? fazendo um balanço, foi positiva? existe algo de positivo nela? e os poetas, em relação a isso? eles uivam, cássio? vivemos um mundo novo depois da explosão desse aviãozinho no prédio? e o que foi feito da bomba atômica? ela continua nos ameaçando? se continua, essa bomba é aquela que não encontraram no iraque?
tenho muitas perguntas a esse respeito.

11 de setembro: americanos são ótimos críticos dos americanos

curioso como os próprios americanos têm ótimos críticos deles mesmos. uma pena que eles mesmos não ouvem. o vídeo, para quem não sabe, é um trecho do controvertido farenheit 9/11, de michael moore.

um poema de william burroughs

dia de ação de graças, 28 de novembro de 1986

agradeço pelo peru selvagem e os pombos passageiros, destinados a virar merda nas saudáveis tripas americanas.
agradeço por um continente a espoliar e envenenar.
agradeço pelos índios por garantirem uma módica dose de desafio e perigo.
agradeço pelas vastas manadas de bisões para matar e depelar e depois deixar as suas carcaças à putrefação.
agradeço pelos troféus de caça de lobos e coiotes.
agradeço pelo sonho americano, por inventar lorotas até que elas brilhem à luz do dia.
agradeço pela klu klux klan. aos policiais que matam negros e os contabilizam. às decentes beatas de igreja com suas mesquinhas, interesseiras, feias e perversas caras.
agradeço pelos adesivos de “mate uma bicha em nome de jesus cristo.
agradeço pela aids de laboratório.
agradeço pela proibição e pela guerra contra as drogas.
agradeço por um país onde a ninguém é permitido cuidar da seus próprios problemas.
agradeço por uma nação de dedos-duros.
agradeço, sim, todas as lembranças – ok, deixa eu ver o que você tem nas mãos!
você foi sempre uma dor de cabeça e uma encheção de saco.
agradeço pela última e maior traição do último e maior sonho dos sonhos humanos.
deixo o original deste poema (Thanksgiving Day Nov. 28, 1986) no vídeo de gus van sant

segunda-feira

revista zunái

está no ar a versão virtual da revista zunái (www.revistazunai.com.br) que é comandada por claudio daniel e rodrigo de souza leão, além do projeto gráfico de ana peluso e um conselho editorial de peso. este número, como sempre muito bonito, tem sua iconografia baseada em reproduções do acervo do museu de cabul (afeganistão), destruído em 2002 por milicianos do talebã, e também de objetos saqueados no iraque, durante a segunda guerra do golfo. não podia calhar melhor nas vésperas do 11 de setembro.

sexta-feira

poesia falada

quarta-feira, lançamento do livro "belvedere" do chacal. rodeadíssimo e repleto de pedidos de autógrafo. até aí, normal. depois, ele se levanta e diz: "vou falar poesia. que é a coisa que eu mais gosto de fazer." ele fala uma série de dez poemas, arremata com uma linda homenagem ao ginsberg. entre os poemas falados, muitas alusões à idéia de que palavra apenas escrita no papel não voa. "posso até escrever uns versinhos, mas enquanto não decoro, não sei quem é o autor". e na carreira, vem o "nuvem cigana" da azougue. fiquem atentos. saravá chacal, passagem rápida mas marcante.

terça-feira

um artigo de juan gelman

assim começa o mais recente artigo ("avaliações") da bitácora de juan gelman. trata-se de uma questão que tem estado na ponta da minha língua e que me leva a pensar nos meus preparativos para o 11 de setembro que vem (para ler o artigo na íntegra, clique aqui):

Mais de cem especialistas norte-americanos em política internacional consideram que, desde a ocupação do Iraque, o mundo se tornou mais perigoso, a estratégia de segurança nacional descarrilou e a própria guerra carece de bússola. Assim o manifesta a maioria dos analistas mais respeitados do país no terceiro “Índice do terrorismo”,o informe semestral de uma consulta que realiza o Centro para o Progresso Estadunidense e a revista Foreign Policy (www.americanprogress.org, 20-8-2007). A opinião – tanto de democratas como de republicanos – é de chefes militares, ex-secretários de Estados, assistnetes de hierarquia da Casa Branca, conselheiros presidenciais de segurança nacional, acadêmicos prestigiosos e agentes do alto escalão dos serviços de inteligência. 80 % ocupou cargos no governo dos EUA – mais da metade no Poder Executivo – 32 % nas forças armadas e 21 % na chamada comunidade de inteligência. Seus julgamentos em nada coincidem com o otimismo de W. Bush.

sexta-feira

"os coiotes não sabem o que é a poesia, eles uivam" - chacal em bh

na próxima quarta, dia 05 de setembro às 20h, chacal estará em bh para o lançamento do belvedere. livraria scriptum - r. fernandes tourinho, 99. savassi

andityas soares de moura

meu amigo andityas acaba de publicar este poema na revista portuguesa oficina de poesia e me mandou por email. também quero compartilhá-lo com vocês.


Língua de fogo do não

Não se pode escrever o poema.

Os tempos são duros, inflexíveis.
Taciturnos até. Dão “bons dias”
por obrigação e recato.

Não se pode sequer ler o poema.

As pessoas andam cabisbaixas, Riem à toa – como patetas – e morrem. Morrem como quem nunca quis nada.

Não se pode nem mesmo pensar o poema.

É proibido. É indecente o poema.

O poema não produz dividendos. Não distribui lucros. Não faz dormir melhor. O poema não sorri nas campanhas eleitorais.

O poema não gosta de telenovela e nem está preocupado em como estacionar no shopping-center.

O poema não quer ter filhos, se casar e planejar férias anuais. Não tem e nem faz economias.

O poema não deixa e não anota recados.

O poema não investe em ações, não paga imposto de renda e não sabe como se portar à mesa com dignidade e fineza.

O poema não acredita na Previdência Social.

O poema não toma banho todos os dias. Não paga a escola das crianças. Sequer ajuda a financiar os cursos de inglês de que elas tanto precisam para subir na vida.

O poema não tem cartão de crédito e nem religião. Jamais freqüenta bailes de debutantes e nunca foi visto nas festas de Natal da empresa.
O poema não vai ao barzinho da moda.

O poema nunca está no escritório.

O poema não faz visitas sociais. Não tem celular e não confia nas urnas eletrônicas. O poema não está deprimido.

O poema falta às sessões ordinárias da Academia de Letras.

O poema não come todas.

O poema não é tributável. Nem atóxico, inodoro ou inquebrável.

O poema não sabe ficar quietinho.

O poema não pode ser preso.

Nem torturado, morto, estuprado, sequestrado, mutilado, roubado, operado, sodomizado, reeducado, dopado, humilhado, bombardeado, conquistado, saqueado, raptado, ameaçado, multado, eletrocutado, queimado, furado, cegado, crucificado, desmembrado, enforcado, guilhotinado, pisado, garroteado, picado, partido, moído, quebrado, cortado, empalado, frito, cozido, assado, esquecido, vencido, lavado, desintoxicado, trucidado, massacrado, escravizado, humanizado, podado, censurado, amarrado, enganado, corrompido, comprado, convencido, julgado, condenado, apenado, difamado, injuriado, caluniado, desacreditado, distorcido, adulterado, anulado ou apagado.

O poema também não pode ser calado.

O poema é um comilão, um vagabundo, um inútil mesmo.

Isso é o que ele é.

....................
Infame ter de se concentrar para sentir
o pejo de um mundo sem poesia.

quarta-feira

john cage em belo horizonte

amanhã, dia 30 de agosto de 2007. às 19h no multiespaço (anexo ao museu das telecomunicações) - avenida afonso pena 4.001. entrada frança (75 lugares). vá ao jaguadarte [j] para saber mais detalhes.

sexta-feira

quarta-feira

lançamento do jornal dez faces

no dia 24 de agosto, acontece o lançamento do jornal dez faces, editado por marcelo dolabela, camilo lara, luciana tonelli e cia. e foi a convite de luciana que colaborei para este número 10 com um poema meu. para quem não puder ler o convite acima, o evento acontece no matriz (terminal turístico jk - bhmg) a partir das 20h. a partir das 22h tem a apresentação das bandas patife band, ballet, herói do mal, los borrachos e caveira, my friend. apareçam. não é todo dia que rola poesia com rock'n roll nesta cidade.

ballad of skeletons - uma saudação a allen ginsberg


(música de paul mc cartney e vídeo de gus van sant)

domingo

não macule a minha faca

"quem com letícia féres, confere e será querido".
imperdível. nas terças poéticas: jardins internos do palácio das artes. hilda hilst homenageando letícia féres. letícia féres homenageando hilda hilst. poesia em alta voltagem. samplermusic & videocolagem. julius. frederico pessoa. poesia hoje. queria conseguir dizer mais. mas precisa? vá lá e comente depois aqui comigo, vai.

segunda-feira

à amada esquiva

dessem-nos tempo e espaço afora
não fora crime essa esquivez, senhora.
sentar-nos-íamos tranqüilos
a figurar de modos mil os
nossos dias de amor. eu com as águas
do humber choraria minhas mágoas;
tu podias colher rubis à margem
do ganges. que eu me declarasse
dez anos antes do dilúvio! teus
nãos voltar-me-iam a face
até a conversão dos judeus.
meu amor vegetal crescendo vasto,
mais vasto que os impérios, e mais lento,
mil anos para contemplar-te a testa
e os olhos levaria. mais duzentos
para adorar cada peito,
e trinta mil para o resto.
um século para cada parte,
o último para o coração tomar-te.
pois, dama, vales tudo o que ofereço,
nem te amaria por mais baixo preço.
mas ao meu dorso eu ouço o alado
carro do tempo, perto, perto,
e adiante há apenas o deserto
sem fim da eternidade.

tua beleza murchará mais tarde,
teus frios mármores não soarão
com ecos do meu canto: então
os vermes hão de pôr à prova
essa comprida virgindade,
tua fina honra convertendo em pó,
e em cinzas meu desejo. a cova
é ótimo e íntimo recanto. só
que aos amantes não serve de alcova.
agora, enquanto pousa a cor
da juventude em ti como na flor
o orvalho, enquanto por
todo poro teu a alma transpira
com urgentes fogos,
entreguemo-nos aos jogos
do amor e, amantes aves de rapina,
antes de um golpe devoremos nosso tempo
que enlagueçamos em seu lento
queixo. enrolemos nosso alento
e suavidade numa só esfera.
e rasguemos prazeres como feras
pelos portões férreos da vida.
assim, se não sustamos nosso sol,
ao menos o incitamos à corrida.


é do andrew marvell (1621 – 1678) to his coy mistress,
e a tradução é de augusto de campos (verso, reverso, controverso. ed. perspectiva, 1978)

sexta-feira

não macule a minha faca - letícia feres e hilda hilst no terças poéticas

e vem aí, letícia feres na companhia de julius e frederico pessoa no terças poéticas. em breve, coloco mais umas informações bombásticas sobre a navalhante apresentação dos meus amigos. por enquanto, quem quiser mais informações, é só ir lá no onde andará dulce veiga.

tonico mercador homenageia allen ginsberg

o poeta tonico mercador tem um gosto um pouco parecido com o meu. lembro-me que há alguns anos atrás, eu me interessei pela poesia de julio cortázar e comecei a traduzi-lo. alguns meses depois de começar a empreitada, encontro na revista palavra, a sua tradução de alguns poemas do cronópio sobre o maio de 1968. coincidências.
recentemente, tenho estado muito afim de fazer uma homenagem a allen ginsberg. especialmente porque este ano completaram dez anos da morte dele. um cara genial que não pode ser esquecido. e eis que o tonico mercador se prepara para homenageá-lo na apresentação na próxima terça-poética. provavelmente vai apresentar o trabalho que vem fazendo há algum tempo: declamação do poema "uivo" junto a poemas de sua autoria.

terça-feira, dia 14 de agosto de 2007
às 18h30, como de costume.
nos jardins internos do palácio das artes.

evohé! saravá! boa sorte tonico. uma pena que não poderei estar lá. infelizmente estarei dando uma aula no mesmo horário. mas fico torcendo para a dose se repetir em breve.

terça-feira

quem fala de mim tem paixão

clique na imagem para visualizar melhor. o poema é de waly salomão, a música é de jards macalé.

segunda-feira

rodrigo chorinho

faço parte de uma geração privilegiada. em belo horizonte, convivo com alguns dos melhores músicos do país. aqui ainda não se tornou um grande pólo como difusão de discos, mas os artistas vivem sendo exportados. kristoff silva, érika machado, vítor santana, regina spósito, dudu nicácio, makely ka e maysa moura, marina machado, o sérgio pererê e o grupo tambolelê. a lista não acaba.

mas hoje eu quero falar de rodrigo torino. fui ontem ver a apresentação que ele fez lá no teatro francisco nunes. no programa, chorinho. principalmente composições dele. mas também: guinga, joão gilberto, maurício carrilho e baden powell.

rodrigo foi o ganhador do prêmio bdmg jovens instrumentistas. faz o curso do mestre maurício carrilho no rio de janeiro, onde aprende a fazer um choro moderno, diferente daquela coisa folclórica que (embora linda) sempre acaba ficando.

o que me pareceu surpreendente foi que, aquele músico tímido que conheci há mais de dez anos se tornou agora um artista completo. um compositor pronto, com senso de grupo e boa regência de toda a música no ato de tocar os arranjos feitos pelo grupo (um amigo me dizia que música só é música quando tocada ao vivo e a cores) – o que se revela principalmente nas composições dele. músicas como “duas saudades” trazem todo um gostinho brasileiro irmão de grandes mestres. há também outras composições como “em três”, onde os acordes delicadamente dissonantes se combinam com o compasso ímpar.

quando o assunto é interpretar, o cara não deixa para menos. me delicio em dizer que peças de baden, guinga e joão gilberto não são as mais bonitas do repertório. mas nelas também se revelam os bons instrumentistas da banda que faço questão de nomear aqui: dudu braga (cavaquinho), alaécio martins (trombone), nilton moreira (flauta), ramon braga (bateria e percussão), a participação especial do baixista italiano tommaso montagnanni e o próprio rodrigo torino (violão de sete cordas). vão dizer que sou suspeito para falar? então tome uma palhinha no my space:

www.myspace.com/rodrigotorino

what can i hold you with? (um poema inglês de jorge luis borges)

de que modo eu posso te abraçar?
eu te ofereço estreitas ruas, poentes desesperados, a lua dos subúrbios gastos.
eu te ofereço a amargura de um homem que olhou longamente a lua solitária.
eu te ofereço meus ancestrais, meus mortos, os fantasmas que os vivos honraram em mármore: o pai do meu pai assassinado na fronteira de buenos aires, duas balas atravessadas nos pulmões, barbado e morto carregado por seus soldados no couro de uma vaca; o avô de minha mãe – com apenas vinte e quatro anos – encabeçando uma carga de trezentos homens no peru, agora fantasmas sobre desvanecidos cavalos.
eu te ofereço qualquer insight que possa haver em meus livros, qualquer hombridade ou humor na minha vida.
eu te ofereço a lealdade de um homem que nunca foi leal.
eu te ofereço o cerne de mim mesmo que achei de certo modo – o coração central que não aposta em palavras, que não trafega com sonhos e é intocado pelo tempo, pela alegria, pelas adversidades.
eu te ofereço a memória de uma rosa amarela vista ao pôr-do-sol, anos antes de você nascer.
eu te ofereço explanações sobre você mesma, teorias sobre você mesma, notícias autênticas e surpreendentes sobre você mesma.
eu posso te dar a minha solidão, a minha escuridão, a fome do meu coração; estou tentando subornar-te com incertitude, com perigo, com derrota.

(tradução: leo gonçalves)


o borges é um sujeito muito raro. melhor conhecido como prosador, foi também um grande poeta - um marco da lingua castelhana, grande influência de gerações e gerações na literatura argentina. e não só: também produziu bons ensaios sobre o tema, sendo que hoje, um poeta interessado em se aprimorar conceitualmente sobre sua arte perde muito se não tiver acesso às essas reflexões. por outro lado, sua posição conservadora se refletia em sua produção. isso não o impediu de ser um dos mais transgressores artistas do século xx. curioso é que como poeta, a preferência é por uma forma mais tradicional (quem se interessar, publiquei aqui no salamalandro há algum tempo um soneto dele chamado "swedenborg"). voltando de diamantina, tive o desejo de ler poemas dele. qual não foi a surpresa ao encontrar este poema que me parece esteticamente "selvagem", apaixonado e racional ao mesmo tempo. e escrito em inglês! quando eu gosto tanto de um poema assim, fico emocionado e preciso "lê-lo melhor". e "ler melhor" significa traduzir. não quis pôr o original aqui porque o blogspot não oferece muito bons recursos na formatação do poema e com esta trabalheira já basta o poema em português. mas quem quiser conhecer o original (é sem dúvida muito mais bonito que a tradução), é só clicar aqui: www.primrose.com/borges