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sábado

uma preciosidade dita por pier paolo pasolini que cai muito bem aqui

"estou muito bem no mundo, acho ele maravilhoso, me sinto atado à vida, como um gato. é a sociedade burguesa que não me agrada. é a degeneração da vida do mundo. hitler foi o típico produto da pequena burguesia. mesmo stalin é um produto pequeno burguês. eu sou pela moral contra o moralismo burguês. qual é a diferença? o moralista diz não aos outros, o homem moral o diz apenas a si mesmo."




[io sto benissimo nel mondo, lo trovo meraviglioso, mi sento attrezzato alla vita, come un gatto. è la società borghese che non mi piace. è la degenerazione della vita del mondo. hitler è stato il tipico prodotto della piccola borghesia. anche stalin è un prodotto piccolo-borghese. io sono per la morale contro il moralismo borghese. qual è la differenza? il moralista dice di no agli altri, l'uomo morale lo dice solo a se stesso.]

elogio do ópio

há alguns dias, escrevi algo sobre o filme tropa de elite e, relendo e conversando com algumas pessoas, percebi que não fui exato num ponto: não tenho nada contra drogas. pelo contrário. sou a favor de todos os tipos de embriaguez, de delírio, de loucura, de paixão. não acho que a culpa da violência do tráfico seja da burguesia usuária. isso seria uma injustiça. o que eu queria dizer é que a culpa é uma coisa insossa que não resolve e nem resolverá jamais problema nenhum. quando se toca na culpa, nada tem solução. tudo é um mar de lamentações e pronto. se acabou.

sobre a burguesia e o seu baseado, o que me irrita é o uso burguês disso. como também me irrita ver playboy vestido de punk, barrigudos cervejeiros aprisionando suas namoradas e suas namoradas querendo ser aprisionadas pelos namorados para depois reclamarem que homem não presta, soluções compradas em shoppings centers, headbangers cagões, a vida em saquinhos de plástico e garrafas pet, praticidade vazia de significado, oba-oba que jura de pé junto que o bom da vida é o deixa disso vamo pedir mais uma, acende um fininho aí vira pra lá não é comigo. burgueses pensam que precisam ganhar um prêmio porque adoram fumar o seu caretíssimo baseado.

odeio todas as formas de burrice. mas todo mundo sabe que ela, a burrice, não é mérito de um ou de outro grupo específico de pessoas. aliás, é ela que domina a gorda massa das universidades brasileiras. não vai ser porque alguém curte o seu baseado que ela ou ele vai ser idiota, esperto, filósofo, marginal, poeta, playboy ou udigrudi. seria maniqueísmo (e me desculpem as pessoas que pensam assim, seria burrice) demais da minha parte.

quinta-feira

problemas de educação: ainda no clima "tropa de elite"

ultimamente tenho visto pessoas na televisão e na imprensa comentarem sobre o medo da violência que perpassa o brasil atual. e vejo que as pessoas aventam soluções estranhíssimas, todas repressivas e de coação. "é preciso investir em polícia!", dizem. "tem que instituir pena de morte!", outros respondem. há quem defenda a diminuição da idade penal. há quem ache que a solução é aumentar o salário dos policiais e armá-los melhor.

mas poxa! todo mundo sabe que essas medidas, todas elas, não passam de revidações. fico chocado de ver que ninguém defende a melhoria do ensino. ninguém defende um projeto de nação. o país está há tanto tempo imerso na ignorância e na falta de conhecimento que já perdeu a referência.

por pior que esteja a situação política no país, podemos dizer que esta é uma época de otimismo: nunca a inflação esteve tão baixa e por tão longo tempo, e ela chegou ao patamar que está sem nenhum choque econômico. a petrobrás acaba de descobrir um poço de gás combustível no fundo do oceano que pode colocar o brasil no patamar dos grandes exportadores. a dívida com o fmi chegou ao fim.

estamos nos preparando para sediar uma copa do mundo depois de termos sediado um pan. agora, é hora de dar educação para as pessoas. saber é poder. é a única coisa que pode tirar o país do buraco e acabar, a curto, a médio e a longo prazo, com a violência. eu queria que esse discurso contra a violência mudasse de caráter e de foco. a educação é o que faz a força de um povo. ensinar valores, conhecimentos, lucidez.

o assunto da educação no brasil é coisa séria. ando pensando muito sobre isso e vejo que são muito poucas as pessoas que tocam no problema. nem mesmo os artistas falam nele. estão todos preocupados com soluções paliativas. por isso, não reparem, voltarei a falar muito sobre isso por aqui.

sexta-feira

tropa de elite: alguém falou em culpa?

muito curiosa a polêmica lançada pelo filme "tropa de elite". parece que ele agradou e, ao mesmo tempo, incomodou a gregos e goianos. os partidários da polícia ficaram chateados, as boas mocinhas acharam que ele faz apologia à violência, os malucos acham que o filme é ufanista, há quem diga que como filme é bom, mas que a violência pesada não justifica. por outro lado, há quem diga que, como filme é ruim, mas que o que é dito ali não pode deixar de ser dito, pois é bem o retrato da polícia. falou-se em problemas educativos, falou-se em pirataria, ouvi reclamações que "meu filho anda cantando a música tema do filme, e eu acho isso muito perigoso".

de minha parte, custei um pouco a ir vê-lo. mas posso dizer que gostei. achei o estilo denso e envolvente, achei que o diretor acertou a mão no tempo da narrativa e nas frases de efeito ("bota na conta do papa" vai entrar pra história). teve gente que andou reclamando que parecia demais com o "cidade de deus" do fernando meirelles. mas cá pra nós: se cinema dependesse de originalidade, hollywood já tinha falido há umas 3 décadas (sendo otimista). eu, pelo contrário, acho mesmo é que o filme será pra sempre um marco no cinema nacional e conquistará, ao lado do "cidade de deus", muitos seguidores.

particularmente não acho que o filme faça apologia à violência. pelo contrário, acho que ele mostra o quanto a violência é nefasta e triste. supor que uma ficção é uma apologia a qualquer coisa é lamentável para um país que se quer "civilizado". seria o mesmo que dizer que o "saló", do pasolini é uma apologia ao nazismo ou que a "ilíada" não deve ser lida por estar vazada de sangue. ora bolas, um bom artista produz coisas que o deixam fora até mesmo da sua moral pessoal, a questão "bem" ou "mal", tão reducionista e tão corrente no país que se diz "abençoado por deus".

por outro lado, não dá pra negar uma coisa: conheço um mundaréu de gente que ao ver o filme ficará muito entusiasmado em sair por aí pregando que a coisa tem que ser por aí. mas não é o filme que ensina isso. todos nós sabemos que ninguém entra numa sessão de cinema para aprender como é a vida. quem quiser saber isso, vai no mínimo procurar um jornaleco qualquer desses que circula a rodo pelo país e que dá as ordens no pensamento dos pretensos "cidadãos". no filme não. não posso responder por todo mundo, mas posso dizer que fiquei orgulhoso de ver que ao menos no cinema, existe a intenção, ainda que seja de um único diretor, de se criar o "mito do policial honesto". até por quê, acho que policial honesto é coisa que não existe em nenhum lugar que pratica tão fervorosa e convictamente a repressão (se você é brasileiro, você sabe do que estou falando).

pois bem, mas eu vi que teve um bando de burgueses maconheiros que também ficou meio nervosificado com a narrativa. imagina, mexer nos vícios é coisa séria. pode levar a conseqüências químicas. e eu sei que todo mundo prefere virar a cara e fingir que não é com ele. medo de ficar sem o seu sagrado baseado. não serei eu a aliviar a barra da burguesada, apenas quero saber se a galera vai ficar aí dizendo "a culpa é de quem?", borrando as calças de medo por só porque viu o próprio retrato na tela.

quer saber a minha opinião? foda-se a culpa. (por que ninguém fala no essencial?) chama o povo na responsa pra fazer algo que preste: ensinai as criancinhas. que saber é poder. entreguem óculos para os garotinhos que não enxergam direito, como o matias queria fazer no filme, e fez. e assistam como elas fazem o que não soubemos fazer, já que fomos educados por professores incompetentes. criar o mito do "ensinar para dar poder". antes que tudo exploda e não tenha volta.

waly sailormoon e a teatralização: trechos de um texto de antônio cícero

uma das publicações mais bonitas de poesia que tive acesso nos últimos tempos é o livro “me segura qu’eu vou dar um troço” de waly sailormoon, publicado em 2003 pela editora aeroplano em parceria com a biblioteca nacional, organizado por heloísa buarque de hollanda e luciano figueiredo. trata-se trabalho do primeiro do baiano que, em 1972 ficou preso no carandiru por causa do porte de uma “mera bagana de fumo”.

“meu primeiro texto teve de brotar numa situação de extrema dificuldade. na época da ditadura, o mero porte de uma bagana de fumo dava cana. e eu acabei no carandiru, em são paulo por uma bobeira, e lá dentro eu escrevi “apontamentos no pav 2”. não me senti vitimizado de ver o sol nascer quadrado. para mim foi uma liberação da escritura”.

nesta edição, há um belíssimo prefácio de antônio cícero, verdadeiro testemunho de admiração e amizade por um dos poetas mais importantes que apareceram na cena brasileira dos últimos 50 anos. fiz uma pequena edição de um trecho que me toca, especialmente agora, neste instante da vida. espero que o cícero não se importe. segue o texto:

a falange de máscaras de waly salomão


(...)

em 2002, waly resume a relação entre a prisão e a escrita, dizendo que "... ver o sol nascer quadrado, eu repito esta metáfora gasta, representou para mim a liberação do escrever que eu já tentava desde a infância.

se desde a infância ele já buscava a liberação que a escritura de "me segura"viria a lhe proporcionar, então, de algum modo, a vida anterior a essa escritura devia ser por ele percebida como uma prisão ou um confinamento: confinamento do qual o carandiru tornou-se o emblema. de que se trata? são muitas as possíveis prisões. em texto sobre "me segura", intitulado "ao leitor, sobre o livro", lê-se:


sob o signo de PROTEU vencerás.
por cima do cotidiano estéril
de horrível fixidez
(waly salomão)

de que modo a poesia proporciona a liberação a quem foi confinado? o desprezo pela fixidez do cotidiano, a rejeição dos princípios lógico-formais da identidade e da contradição, a vontade de abolir as fronteiras entre o eu e os outros e o fascínio pela metamorfose são características que trazem à mente a noção de carnavalização. mas, não creio que o termo carnavalização seja adequado para caracterizar a obra de waly. na verdade, aquilo que merecia o epíteto de carnavalizante era a pessoa ou a irradiante presença de waly, inclusive na sua atividade de conferencista e nas suas aparições na televisão, mas não a sua poesia. em relação a esta, prefiro empregar o conceito que ele mesmo elegeu: o de teatralização.

“é que eu transformava aquele episódio, teatralizava logo aquele episódio, imediatamente, na própria cela, antes de sair. eu botava os personagens e me incluía, como marujeiro da lua. eu botava como personagens essas diferentes pessoas e suas diferentes posições no teatro: tinha uma agente loira babalorixá de umbanda, tinha um investigador humanista e o investigador duro. o que quer dizer tudo isto? você transforma o horror, você tem que transformar. e isso é vontade de quê? de expressão, de que é isso? não é a de se mostrar como vítima”.

a vítima é o objeto nas mãos do outro. quem aceita a condição de vítima no presente, quem diz: “sou vítima” está, ipso facto, a tomar como consumada a condição de não ser livre. é contra essa atitude de implícita renúncia à liberdade que waly teatraliza a sua situação. ao fazê-lo, ele a transforma em mera matéria prima para o verdadeiro drama, que é o que está a escrever. a vítima passa a ser apenas o papel de vítima, a máscara de vítima. por trás da máscara há o escritor. mas isso não é tudo, pois o que é o escritor senão o papel de escritor? waly sailormoon, o marujeiro da lua, diz que: “chego nos lugares e percebo as pessoas como personagens de um drama louco”. mas não se deve cair no equívoco de supor que a teatralização consista simplesmente em opor ao mundo real o imaginário. não é o delírio ou a alucinação que waly aqui defende. não se trata de opor o teatro ao não-teatro. o que ele julga é, antes, que tudo é teatro. ao afirmar que percebe as pessoas como personagens de um drama louco, waly não quer dizer apenas que as interpreta como tais, mas que se dá conta de que são personagens de tal drama. retomando a idéia do theatrum mundi, originada na antigüidade.
mas, se tudo já é teatro, se até o fato é teatro, qual é o sentido da teatralização? por que teatralizar o que já é teatro? é que o fato social é o teatro que desconhece o seu caráter teatral. o processo que leva a esse desconhecimento ocorre, por assim dizer, “naturalmente”: como a peça que se representa no teatro do mundo parece ser sempre a mesma, os atores ignoram que se trate de uma peça, isto é, de obra humana e artificial; ignoram, em outras palavras, que seja uma dentre muitas peças reais ou possíveis, e a tomam por natureza. longe de reconhecer espontaneamente o teatro do mundo como teatro, o indivíduo, no interior da sua cultura, aceita os papéis sociais como dados ou fatos desde sempre já prontos: o que equivale, como foi dito, a tomá-los por natureza, não por teatro.

a atitude de waly é diametralmente oposta a essa. ele nunca esquece que o “fato” social é o teatro que se enrijeceu ou esclerosou a ponto de olvidar a sua natureza teatral: o teatro que se pretende superior ao teatro, que se pretende mais real do que o teatro. na medida em que tem êxito em sua impostura, a “horrível fixidez” daquilo que podemos chamar de “teatro do fato” não somente expulsa ou degrada ao segundo plano as virtualidades ainda não realizadas do presente, que o superam em riqueza, mas, além disso, congela o movimento criativo que, em princípio, exige a abertura permanente a novas possibilidades interpretativas. a teatralização walyniana funciona, portanto, como a água de mnemosune, o antídoto contra a água da fonte de lete, do esquecimento naturalizante e confinante.

(do prefácio de antônio cícero ao livro “me segura qu’eu vou dar um troço”, de waly salomão, publicado em 2003 pela editora aeroplano)

segunda-feira

um trecho do breviário dos vencidos, de e. m. cioran

"os que são afligidos pelas insuficiências humanas, que se deixam entristecer pelo vão escorrer das horas, com que alegria se entregam àquele brilho que projeta sobre as coisas um conteúdo ardente! para uma alma a qual o vazio do mundo atormenta, a obsessão da vingança é um alimento doce e fortificante, um elemento substancial de todos os instantes, uma irritação que engendra sentidos acima do não-sentido geral. as religiões, em seu ódio a tudo o que é nobreza, honra e paixão, inocularam a covardia nas almas, proibiu-lhes a renovação dos frêmitos e dos frenesis. elas não tocaram nada tão duramente como a necessidade que o homem tem de ser ele ao se vingar. que aberração – perdoar seu inimigo, oferecer à palmatória e às cusparadas todas as fauces inventadas por um pudor ridículo, uma vez que nossos instintos nos incitam a pisoteá-lo como um bicho nojento.

é em suas intolerâncias que o homem é um homem. alguém te enganou? nutra o ódio em você, alimente seu rancor secreto, aqueça a bile em suas veias. e se às vezes você sente que a ampla quietude das noites te ganha, não se deixe cair no esquecimento lenitivo da meditação – açoite sem piedade a sua carne amolecida, deixe o seu veneno no corpo do adversário. senão, para quê prolongar uma vida que só servirá de fardo?"


(trecho de "breviário dos vencidos"(îndreptar pătimaş), escrito entre 1940 e 1944, último livro que o romeno escreveu em sua língua pátria. assim como este, o livro está repleto de textos provocadores e cruéis, tratando de diversos assuntos cada vez mais polêmicos, especialmente nessa nossa época de lenitivos e de discursos politicamente corretos).

sexta-feira

a disciplina do ódio

o ódio é como uma criança frágil. é preciso saber que ele te ocupará mais que o amor. você o reitera a cada manhã e é ele que te indica a via a ser seguida a cada dia. é um pacto: a partir de agora o ódio será seu guia sua liturgia. você renderá cultos fenomenais a esse deus insano pois você não poderá mais viver sem ele. acompanha-o o ódio-ao-ódio. pés e mãos atados se arrastando de joelhos como um cristão. ele te surge como a promessa de neutralizar a imensa dor. mas seu verdadeiro encargo é o de ampliar as feridas. e morde com boca ávida a carne viva. o ódio-ao-ódio te redevolve dedicado que é à disciplina do ódio.

* * *
el odio es como un niño débil. hay que saber que él te ocupará más que el amor. lo reiteras cada mañana y es él quién te indica el camino de cada día. es un pacto: desde ya el odio será tu guía tu liturgía. le renderás cultos fenomenales a ese dios insano pues ya no podrás vivir sin él. lo acompaña el odio-al-odio. pies y manos atados arrastrándose como un cristiano. él te surge como una promesa de neutralización del gran dolor. pero su verdadero encargo es el de ampliarte las heridas. y muerde con boca ávida la carne viva. el odio-al-odio te redevuelve dedicado que eres a la disciplina del odio.

* * *
la haine est comme un enfant fragile. il faut rendre compte qu'elle t'occupera bien plus que l'amour. tu la réitères chaque matin et c'est elle qui t'indique la route à suivre chaque jour. c'est un pacte: désormais la haine sera ton guide ta liturgie. tu rendras des cultes phénomenaux à ce dieu malsain, car tu ne pourras plus le quitter. la haine-à-la-haine l'accompagne. les pieds et les poings liés traînant à genoux comme un chrétien elle t'apparaît comme la prommesse de neutralisation de la grande douleur. mais sa charge véritable est celle d'élargir les blessures. et elle te mord avidement la chair vivante. et la haine-à-la-haine te renvoit dédié que tu es à la discipline de la haine.

* * *
hate is like a weak child. you must to know that it will take you much more than love. you repeat it each morning and it show the way of everyday. it's a pact: since now hate will be your guide your liturgy. you worship amazingly this mad god because you won’t to leave it never more. hate-to-hate follows it. tied by feet and fists crawling like christian folks. it appears as a promise of the great pain's neutralization. but its only charge is to enlarge your wounds. and it bites you on the injuried flesh. and hate-to-hate re-sends you, you devote, to the discipline of hate.

terça-feira

uma senhora festa-poema

tá lá no blogue do marcelo sahea: no dia 23/09 acontecerá o mais longo sarau da história, organizado por Menezes y Morais (que até contactou o pessoal do Guiness Book). é o sarau da primavera que já tem em sua programação 100 horas de poesia. das 20h do dia 19 (quarta-feira) à zero hora do dia 23 (domingo) de setembro, no clube da Imprensa, lá em brasília. lançamentos e relançamentos de livros e cds de autores residentes na capital, além de programação cultural paralela. quem estiver em brasília não pode perder.

segunda-feira

a ditadura militar acabou ou não?

uma cena que não sai na imprensa: um menino de dezesseis anos pega o ônibus para sua casa na periferia de belo horizonte. acontece uma batida policial no meio do caminho. confusão e tiros. um cidadão é atingido. o garoto corre para socorrer e os policiais assustados não querem deixar. o menino nervoso começa a gritar, a insultar. um dos policiais decide: desacato à autoridade. e desce a porrada no menor de idade. assim. em público. na frente de todo mundo. em casa, horas mais tarde, o garoto ouve um sermão da mãe. algumas pessoas dizem que é necessário denunciar, mas a família acha que "essas coisas acontecem", que é melhor "deixar na mão de deus". na verdade, fazendo um diagnóstico, o que deixa a gente revoltado diante dessa situação é que no fundo no fundo, todos estão morrendo de medo. o policial não sabe em quem ele bateu, o garoto não pode denunciar porque a polícia pode ameaçar a família, a família quer entregar nas mãos de deus para não continuar tendo problemas com ninguém, nem com a lei da favela, nem com a do governo. e a revolta só sobe de nível, enquanto quem manda no brasil é uma deusa chamada apatia. até quando, isso é o que eu não sei.

quarta-feira

ballad of skeletons - uma saudação a allen ginsberg


(música de paul mc cartney e vídeo de gus van sant)

domingo

não macule a minha faca

"quem com letícia féres, confere e será querido".
imperdível. nas terças poéticas: jardins internos do palácio das artes. hilda hilst homenageando letícia féres. letícia féres homenageando hilda hilst. poesia em alta voltagem. samplermusic & videocolagem. julius. frederico pessoa. poesia hoje. queria conseguir dizer mais. mas precisa? vá lá e comente depois aqui comigo, vai.

sexta-feira

a morte de josé agrippino de paula

1967 foi um ano chave. glauber rocha lançava terra em transe. zé celso martinez entrava em cartaz no teatro oficina com o rei da vela de oswald de andrade. a tropicália a toda. na literatura: josé agripino de paula lançava o seu panamérica. caetano na vitrola: "panaméricas de áfricas utópicas/túmulo do samba mais possível/novo kilombo de zumbi"

passaram-se 40 anos. o teatro oficina do zé celso continua sua luta pela sobrevivência num país que é ainda o túmulo do samba mais possível. e do samba menos possível também.

passaram-se 40 anos e josé agrippino passa dessa para uma melhor. falecido em 04 de julho. sem louros, sem reconhecimento que valha os 40 anos de sua panamérica. silencioso. uma pena. o tempo passa, e a terra continua em transe.

me faz pensar em pound:

"os artistas são as antenas; um animal que negligencia os avisos de suas percepções necessita de enormes poderes de resistência para sobreviver.

os nossos mais delicados sentidos estão protegidos, o olho por um alvéolo ósseo, etc.

uma nação que negligencia as percepções de seus artistas entra em declínio. depois de um certo tempo ela cessa de agir e apenas sobrevive".

josé agrippino é mais uma grande mente que se vai. não foi compreendido, mas deixa discípulos.
boa viagem, agrippino.

um título não é um livro






não gosto muito do título desta tradução. no original ele se chama abc of reading. mas não é por isso que eu não gosto, não é por causa da pretensa "fidelidade" ao original. até acho que abc da leitura não ficaria tão elegante. o brasil é um país de analfabetos. se deixassem assim, abc da leitura, poderia acontecer de um político metido a besta querer obrigar as escolas de ensino fundamental a adotá-lo como cartilha básica para alfabetizar a criançada.

mas um título não é um livro.

li na segunda passada no blogue do ademir assunção:
"pound, aliás, me salvou do infortúnio de ter que ler vários chatos. me serviu o filé minhon, num livro básico chamado abc da literatura". acho que ele salvou a mim também. acho que se hoje me sinto capaz de dar algum juízo sincero e independente sobre qualquer texto, devo isto ao ezra pound.

li pela primeira vez quando tinha apenas 18 anos e na época não pude assimilar tão bem as coisas que ele diz. recentemente, preparando a palestra "sobre a poesia: juan gelman", que apresentei em uma universidade do interior de minas, percebi o quanto pound contribui para o que se faz hoje.

acho que os mestres da faculdade deveriam dar a este livro o seu devido valor. pound faz nada menos que devolver sentido às coisas. tarefa simples quanto às pretensões, difícil quanto à importância e a responsa.

parece que a única coisa que realmente vale a pena enquanto crítica, a meu ver, é isto: devolver sentido às coisas que o vão perdendo com o tempo, as chuvas e as tempestades. elaborar é dar um ponto de partida, chute inicial.

por exemplo: todos os dias eu vejo uma menina que me deixa de cabeça virada. no entanto, eu nunca pensei a fundo sobre isto. um dia, ela passa com outro. ou seja, sobrei. daí, surge a importância de se elaborar.

a menina passa por mim. decido pensar sobre isto para que eu tenha algo a lhe dizer. pronto. ela pode até me dizer que não quer nada comigo, mas pelo menos terei pensado a respeito e feito algo a este respeito.

o poeta é a antena: mas não basta apenas perceber. é necessário elaborar e tornar palpável aquilo que a percepção anuncia. daí que na poesia se encontre muito mais realidade do que em qualquer flaubert. a poesia exige olhos atentos para o real.

por isso é que o pound tem todo um cuidado, um apego pelos termos bem colocados. para que funcionem. é por isso que ele é um pouco contra a literatura. diz que poesia não é literatura, pois está mais perto das artes plásticas e da música do que da filosofia. e tem razão.

acho que é por isso que não gosto do título deste livro em português. mas não proponho solução possível. um título não é o livro.

carta do vidente

"EU é um outro. se o cobre amanhece clarim, não é culpa dele. isso para mim é evidente: eu assisto à eclosão do meu pensamento. eu a olho eu a escuto: meu arco toca a corda: a sinfonia se agita nas profundezas, ou vem de um salto em meio à cena."
"o primeiro estudo do homem que quer ser poeta é o conhecimento de si mesmo, inteiro; ele busca sua alma, ele a observa, tenta, aprende (instrui). a partir do momentoque ele a sabe, ele deve cultivá-la; isso parece simples: em todo cérebro se cumpre um desenvolvimento natural; tantos egoístas se proclamam autores; há também outros que atribuem a si seus progressos intelectuais!"
"o poeta se faz vidente por um longo, imenso e pensado desregramento de todos os sentidos. todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele busca a si mesmo, ele exaure em si mesmo todos os venenos, para então guardar apenas as quintessências. inefável tortura na qual necessita de toda a fé, toda a força sobre-humana, onde ele se torna entre todos o grande doente, o grande criminoso, o grande maldito, – e o supremo sábio! – pois ele chega ao desconhecido! uma vez que ele cultivou sua alma, já rico, mais que todos! ele chega ao desconhecido, e quando, enlouquecido, ele acabaria por perder a inteligência de suas visões, ele as viu! que ele estoure em seu sobressalto pelas coisas inaudíveis e inomináveis: virão outros horríveis trabalhadores; eles começarão pelos horizontes onde o outro se abateu!"
há algum tempo atrás, junto com o grupoPOESIAhoje, falávamos muito de rimbaud, pensávamos na parafernalização dos sentidos e nem sequer tínhamos lido mcluhan. procurávamos pela "carta do vidente", famosa carta escrita a paul démeny que nunca encontrei escrita em língua portuguesa. resolvi traduzir.
quem quiser lê-la na íntegra, é só clicar aqui.

quinta-feira

"eu exigiria daqueles que vão contra a ordem comum e as grandes regras, que eles saibam mais que os outros, que eles tenham razões claras, e argumentos que tragam de convicção".

la bruyère

comentário que não elimina a responsa acima: eu exigiria daqueles são pela ordem comum e pelas grandes regras, que ao menos saibam o que estão fazendo e que o façam conscientemente. é o mínimo que podem fazer, já que não têm nem parecem precisar de argumentos.

sexta-feira

apontamentos de arte radical

está lá no karl marx: "ser radical é tomar as coisas pela raiz. E a raiz para o homem, é o próprio homem". tomar as coisas pela raiz! pois é. depois vieram os marxistas, os esquerdistas entre aspas e cismaram de usar o termo para designar aquelas pessoas que ficam no polo extremo, de um lado ou de outro. mas radical, não me esquecerei nunca, é tomar as coisas pela raiz. e não gosto mais de gostar de nenhum tipo de arte que não seja radical.

estou falando de arte viva. estou falando de makely ka, renato negrão, ricardo aleixo, marcelo terça-nada! e brígida campbell, zé celso martinez corrêa, juan gelman, marina abramovic. porque ninguém vai me convencer que se faz arte para os mortos. que os mortos governam os vivos. nada disso. mas nesse delírio, encontrei uns caras que vão servir de modelo para a minha arte radical. faço questão de colocar o nome deles aqui.

estou falando de oswald de andrade. eu podia simplesmente não concordar com o pirado do haroldo de campos, que escreveu sobre ele um texto chamado "uma poética de radicalidade". mas o fato é que ele está certo. oswald é o fundador da modernidade no brasil. e como ele já dizia: "só a antropofagia nos une". é ela que nos torna brasileiros. é ela que nos permite essa constante transformação do tabu em totem.

o outro radical é também um antropófago. só que italiano. pier paolo pasolini. sendo ele italiano, a antropofagia tem outro sentido: ela não o une a nenhum italiano, mas a todos os homens que vêm do terceiro mundo. daí existir uma puta relação entre pasolini e um outro radical: glauber rocha. pasolini era socialista roxo, mas não concordava com as concessões em favor de um autoritarismo primitivo que se faziam sempre os socialistas. então ele se lembra da oréstia, de ésquilo:
você leu a oréstia, de ésquilo? há pouco traduzi a peça. o contraste entre um estado democrático - mesmo que toscamente democrático e o outro tirânico e arcaico. o ápice da trilogia é o momento em que a deusa atena, a razão, institui a assembléia dos cidadãos que julgam com direito a voto. mas a tragédia não acaba aí. depois da intervenção racional de atena, as erínias - forças desenfreadas, arcaicas, instintivas, da natureza - sobrevivem - são deusas, são imortais. não podem ser eliminadas, não podem ser assassinadas. devem ser transformadas, deixando intacta a substancial irracionalidade que as caracteriza, istó é, mudando as "maldições" em "bênçãos". os marxistas italianos não se propuseram esse problema, e acho que os russos também não.
e eu concordo com o pasolini. mas hoje estou brincando de citar. e cito outro radical genial, nelson rodrigues: "o ser humano só tem salvação se tomar consciência das suas próprias misérias."