(música de paul mc cartney e vídeo de gus van sant)
quarta-feira
ballad of skeletons - uma saudação a allen ginsberg
escrito por
Leo Gonçalves
no dia
22.8.07
assuntos: efemérides, performance, poesia contemporânea, radicalidade
domingo
não macule a minha faca
imperdível. nas terças poéticas: jardins internos do palácio das artes. hilda hilst homenageando letícia féres. letícia féres homenageando hilda hilst. poesia em alta voltagem. samplermusic & videocolagem. julius. frederico pessoa. poesia hoje. queria conseguir dizer mais. mas precisa? vá lá e comente depois aqui comigo, vai.
escrito por
Leo Gonçalves
no dia
19.8.07
assuntos: arte, dica cultural, guerrilha, performance, poesia, poesia contemporânea, prazer, radicalidade, terrorismo poético, vida
segunda-feira
à amada esquiva
dessem-nos tempo e espaço afora
não fora crime essa esquivez, senhora.
sentar-nos-íamos tranqüilos
a figurar de modos mil os
nossos dias de amor. eu com as águas
do humber choraria minhas mágoas;
tu podias colher rubis à margem
do ganges. que eu me declarasse
dez anos antes do dilúvio! teus
nãos voltar-me-iam a face
até a conversão dos judeus.
meu amor vegetal crescendo vasto,
mais vasto que os impérios, e mais lento,
mil anos para contemplar-te a testa
e os olhos levaria. mais duzentos
para adorar cada peito,
e trinta mil para o resto.
um século para cada parte,
o último para o coração tomar-te.
pois, dama, vales tudo o que ofereço,
nem te amaria por mais baixo preço.
mas ao meu dorso eu ouço o alado
carro do tempo, perto, perto,
e adiante há apenas o deserto
sem fim da eternidade.
tua beleza murchará mais tarde,
teus frios mármores não soarão
com ecos do meu canto: então
os vermes hão de pôr à prova
essa comprida virgindade,
tua fina honra convertendo em pó,
e em cinzas meu desejo. a cova
é ótimo e íntimo recanto. só
que aos amantes não serve de alcova.
agora, enquanto pousa a cor
da juventude em ti como na flor
o orvalho, enquanto por
todo poro teu a alma transpira
com urgentes fogos,
entreguemo-nos aos jogos
do amor e, amantes aves de rapina,
antes de um golpe devoremos nosso tempo
que enlagueçamos em seu lento
queixo. enrolemos nosso alento
e suavidade numa só esfera.
e rasguemos prazeres como feras
pelos portões férreos da vida.
assim, se não sustamos nosso sol,
ao menos o incitamos à corrida.
é do andrew marvell (1621 – 1678) to his coy mistress,
e a tradução é de augusto de campos (verso, reverso, controverso. ed. perspectiva, 1978)
sexta-feira
não macule a minha faca - letícia feres e hilda hilst no terças poéticas
tonico mercador homenageia allen ginsberg
terça-feira
segunda-feira
rodrigo chorinho
faço parte de uma geração privilegiada. em belo horizonte, convivo com alguns dos melhores músicos do país. aqui ainda não se tornou um grande pólo como difusão de discos, mas os artistas vivem sendo exportados. kristoff silva, érika machado, vítor santana, regina spósito, dudu nicácio, makely ka e maysa moura, marina machado, o sérgio pererê e o grupo tambolelê. a lista não acaba.
mas hoje eu quero falar de rodrigo torino. fui ontem ver a apresentação que ele fez lá no teatro francisco nunes. no programa, chorinho. principalmente composições dele. mas também: guinga, joão gilberto, maurício carrilho e baden powell.
rodrigo foi o ganhador do prêmio bdmg jovens instrumentistas. faz o curso do mestre maurício carrilho no rio de janeiro, onde aprende a fazer um choro moderno, diferente daquela coisa folclórica que (embora linda) sempre acaba ficando.
o que me pareceu surpreendente foi que, aquele músico tímido que conheci há mais de dez anos se tornou agora um artista completo. um compositor pronto, com senso de grupo e boa regência de toda a música no ato de tocar os arranjos feitos pelo grupo (um amigo me dizia que música só é música quando tocada ao vivo e a cores) – o que se revela principalmente nas composições dele. músicas como “duas saudades” trazem todo um gostinho brasileiro irmão de grandes mestres. há também outras composições como “em três”, onde os acordes delicadamente dissonantes se combinam com o compasso ímpar.
quando o assunto é interpretar, o cara não deixa para menos. me delicio em dizer que peças de baden, guinga e joão gilberto não são as mais bonitas do repertório. mas nelas também se revelam os bons instrumentistas da banda que faço questão de nomear aqui: dudu braga (cavaquinho), alaécio martins (trombone), nilton moreira (flauta), ramon braga (bateria e percussão), a participação especial do baixista italiano tommaso montagnanni e o próprio rodrigo torino (violão de sete cordas). vão dizer que sou suspeito para falar? então tome uma palhinha no my space:
what can i hold you with? (um poema inglês de jorge luis borges)
eu te ofereço estreitas ruas, poentes desesperados, a lua dos subúrbios gastos.
(tradução: leo gonçalves)

sexta-feira
festival de inverno ufmg, diamantina - 2007
agoral: poesia e pensamento no centro do agora. domingo
um poema de antônio cícero
guardar
guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
em cofre não se guarda coisa alguma.
em cofre perde-se a coisa à vista.
guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela,
isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela.
por isso melhor se guarda um vôo de um pássaro
do que um pássaro sem vôos.
por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
para guardá-lo:
para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
guarde o que quer que guarda um poema:
por isso o lance do poema:
por guardar-se o que se quer guardar.
terça-feira
39º festival de inverno da ufmg
sexta-feira
belvedere bonito de ver
chacal explica:
belvedere é um lugar que você vai para ver a vista. tinha um no final da serra das araras, na rio-são paulo, onde eu parava sempre que ia para Mendes com a minha família nas férias. naquele tempo, as viagens de carro eram custosas. depois de algumas horas rodando, chegávamos ao belvedere. era a festa. comer, beber, correr. assim é que eu me sinto aqui neste livro. depois de 36 anos de exercício poético e 13 livros publicados, dou essa parada estratégica para ver a vista. espero que você, leitor, possa se alimentar e se divertir, possa ler, ver e ouvir.
acho que cai bem pra ocasião, o penúltimo poema do primeiro livro dele: o muito prazer.
sorte
hoje deu meu número na roleta da vida
escrito por
Leo Gonçalves
no dia
20.7.07
assuntos: mercado editorial, poesia contemporânea, política
programa petrobrás cultural
decidi então que inscreveria o meu "tratado de pequenos crimes". de certa forma já sabia que não seria contemplado, mas achava necessário fazê-lo. politicamente mesmo. para que a questão se fizesse um problema real no ato da escolha. para criar um pouco de dúvidas quanto às regras.
não posso negar que cultivei uma certa expectativa. mas também, não posso deixar de ficar contente pelos poetas que alcançaram a distinção: ricardo aleixo, chacal (o livro dele é uma ficção!), sérgio alcides, rodrigo de souza leão, josely vianna baptista...
recebi a seguinte mensagem da petrobrás na manhã do dia 11:
a grande quantidade de projetos inscritos, a excelente qualidade apresentada e a limitação dos recursos disponíveis para atendê-los tornou extremamente difícil a escolha final. por essa razão, caso seu projeto não tenha sido contemplado, gostaríamos de esclarecer que a abertura de inscrições de projetos para a edição 2007/2008 será anunciada em breve no site da empresa, não havendo qualquer impedimento de re-inscrição de seu projeto.bem, não sei se re-inscreverei o meu tratado. mas acho que o saldo é positivo. fico sonhando que outras empresas também tomem iniciativas desse tipo.
slow food brasil
você sabe o que é fast-food? se não sabe, pelo menos faz uso. o rango rápido é a comida mais consumida nas cidades do mundo. sanduba, pizza pedaço, coxinha, esfirra a $0,59, refri lata, pão de queijo, restaurante self-service. quem é adepto assumido sabe que há um certo prazer tosco de se estar caminhando pela rua e de repente, parar numa lanchonete para pegar um misto quente e ainda por cima sair andando pela rua comendo com a mão esquerda e bebendo uma soda limonada na mão direita.
um mundo mais respirável
mais notícias pela bloguesfera afora
a morte de josé agrippino de paula
passaram-se 40 anos. o teatro oficina do zé celso continua sua luta pela sobrevivência num país que é ainda o túmulo do samba mais possível. e do samba menos possível também.
passaram-se 40 anos e josé agrippino passa dessa para uma melhor. falecido em 04 de julho. sem louros, sem reconhecimento que valha os 40 anos de sua panamérica. silencioso. uma pena. o tempo passa, e a terra continua em transe.
me faz pensar em pound:
"os artistas são as antenas; um animal que negligencia os avisos de suas percepções necessita de enormes poderes de resistência para sobreviver.josé agrippino é mais uma grande mente que se vai. não foi compreendido, mas deixa discípulos.
os nossos mais delicados sentidos estão protegidos, o olho por um alvéolo ósseo, etc.
uma nação que negligencia as percepções de seus artistas entra em declínio. depois de um certo tempo ela cessa de agir e apenas sobrevive".
boa viagem, agrippino.
um título não é um livro
não gosto muito do título desta tradução. no original ele se chama abc of reading. mas não é por isso que eu não gosto, não é por causa da pretensa "fidelidade" ao original. até acho que abc da leitura não ficaria tão elegante. o brasil é um país de analfabetos. se deixassem assim, abc da leitura, poderia acontecer de um político metido a besta querer obrigar as escolas de ensino fundamental a adotá-lo como cartilha básica para alfabetizar a criançada.
mas um título não é um livro.
"pound, aliás, me salvou do infortúnio de ter que ler vários chatos. me serviu o filé minhon, num livro básico chamado abc da literatura". acho que ele salvou a mim também. acho que se hoje me sinto capaz de dar algum juízo sincero e independente sobre qualquer texto, devo isto ao ezra pound.
li pela primeira vez quando tinha apenas 18 anos e na época não pude assimilar tão bem as coisas que ele diz. recentemente, preparando a palestra "sobre a poesia: juan gelman", que apresentei em uma universidade do interior de minas, percebi o quanto pound contribui para o que se faz hoje.
acho que os mestres da faculdade deveriam dar a este livro o seu devido valor. pound faz nada menos que devolver sentido às coisas. tarefa simples quanto às pretensões, difícil quanto à importância e a responsa.
parece que a única coisa que realmente vale a pena enquanto crítica, a meu ver, é isto: devolver sentido às coisas que o vão perdendo com o tempo, as chuvas e as tempestades. elaborar é dar um ponto de partida, chute inicial.
por exemplo: todos os dias eu vejo uma menina que me deixa de cabeça virada. no entanto, eu nunca pensei a fundo sobre isto. um dia, ela passa com outro. ou seja, sobrei. daí, surge a importância de se elaborar.
a menina passa por mim. decido pensar sobre isto para que eu tenha algo a lhe dizer. pronto. ela pode até me dizer que não quer nada comigo, mas pelo menos terei pensado a respeito e feito algo a este respeito.
o poeta é a antena: mas não basta apenas perceber. é necessário elaborar e tornar palpável aquilo que a percepção anuncia. daí que na poesia se encontre muito mais realidade do que em qualquer flaubert. a poesia exige olhos atentos para o real.
por isso é que o pound tem todo um cuidado, um apego pelos termos bem colocados. para que funcionem. é por isso que ele é um pouco contra a literatura. diz que poesia não é literatura, pois está mais perto das artes plásticas e da música do que da filosofia. e tem razão.
acho que é por isso que não gosto do título deste livro em português. mas não proponho solução possível. um título não é o livro.
escrito por
Leo Gonçalves
no dia
6.7.07
assuntos: anti-academismo, mercado editorial, poesia, política, radicalidade
carta do vidente
"EU é um outro. se o cobre amanhece clarim, não é culpa dele. isso para mim é evidente: eu assisto à eclosão do meu pensamento. eu a olho eu a escuto: meu arco toca a corda: a sinfonia se agita nas profundezas, ou vem de um salto em meio à cena."
"o primeiro estudo do homem que quer ser poeta é o conhecimento de si mesmo, inteiro; ele busca sua alma, ele a observa, tenta, aprende (instrui). a partir do momentoque ele a sabe, ele deve cultivá-la; isso parece simples: em todo cérebro se cumpre um desenvolvimento natural; tantos egoístas se proclamam autores; há também outros que atribuem a si seus progressos intelectuais!"![]()
"o poeta se faz vidente por um longo, imenso e pensado desregramento de todos os sentidos. todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele busca a si mesmo, ele exaure em si mesmo todos os venenos, para então guardar apenas as quintessências. inefável tortura na qual necessita de toda a fé, toda a força sobre-humana, onde ele se torna entre todos o grande doente, o grande criminoso, o grande maldito, – e o supremo sábio! – pois ele chega ao desconhecido! uma vez que ele cultivou sua alma, já rico, mais que todos! ele chega ao desconhecido, e quando, enlouquecido, ele acabaria por perder a inteligência de suas visões, ele as viu! que ele estoure em seu sobressalto pelas coisas inaudíveis e inomináveis: virão outros horríveis trabalhadores; eles começarão pelos horizontes onde o outro se abateu!"há algum tempo atrás, junto com o grupoPOESIAhoje, falávamos muito de rimbaud, pensávamos na parafernalização dos sentidos e nem sequer tínhamos lido mcluhan. procurávamos pela "carta do vidente", famosa carta escrita a paul démeny que nunca encontrei escrita em língua portuguesa. resolvi traduzir.
quem quiser lê-la na íntegra, é só clicar aqui.
quinta-feira
"eu exigiria daqueles que vão contra a ordem comum e as grandes regras, que eles saibam mais que os outros, que eles tenham razões claras, e argumentos que tragam de convicção".
la bruyère
















