programa:
1. assistir à peça a virgem dos desamparados na zap 18 (rua joão donada, 18 - bairro serrano) nos dias 04 e 05 de julho às 20h. lotação máxima: 80 lugares. o espetáculo é gratuito, mas tem que retirar senha 30 minutos antes do início da peça.
2. tomar uma cervejinha no bar da rose depois.
sábado
a virgem dos desamparados
sexta-feira
aimé césaire
assim como seu camarada, césaire é uma das melhores cabeças que surgiram no século xx.
na última segunda-feira, dia 25 de junho, ele comemorou seus 94 anos. infelizmente, não o conheço pessoalmente ainda, mas me senti privilegiado em ser contemporâneo dele.
deixo aqui a minha homenagem: a tradução de um poema recente, publicado em um livro chamado "moi, laminaire". saravá césaire (que significa ave caesar)!
palavra-macumba
a palavra é mãe dos santos
a palavra é pai dos santos
com a palavra serpente é possível atravessar um rio
povoado de jacarés
me acontece eu desenhar uma palavra no chão
com uma palavra fresca pode-se atravessar o deserto de um dia
existem palavras remo para afastar tubarão
existem palavras iguana
existem palavras sutis essas são palavras bicho-pau
existem palavras de sombra com despertadores em cólera faiscante
existem palavras Xangô
me acontece de nadar malandro nas costas de uma palavra golfinho
le mot est père des saints/ le mot est mère des saints/ avec le mot couresse on peut traverser un fleuve/ peuplé de caïmans/ il m’arrive de dessiner un mot sur le sol/ avec un mot frais on peut traverser le désert/ d’une journée/ il y a des mots bâtons-de-nage pour écarter les squales/ il y a des mots iguanes/ il y a des mots subtils ce sont des mots phasmes/ il y a des mots d’ombre avec des réveils en colère d’étincelles/ il y a des mots Shango/ il m’arrive de nager de ruse sur le dos d’un mot dauphin
segunda-feira
espetáculo teatral: a virgem dos desamparados
endereço:
rua joão donada, 18 - bairro serrano (siga o mapa que está neste link ou vá de 4403A - zoológico)

quarta-feira
la bitácora (juan na bloguesfera)
uma bitácora, em suas origens era o armário que tinha nos barcos para guardar seus instrumentos, assim como um caderno onde o capitão ia anotando as decisões tomadas em ordem cronológica.confira: la bitácora de juan gelman (www.juangelman.com)
escrito por
Leo Gonçalves
no dia
20.6.07
assuntos: américa latina, bloguesfera, guerrilha, juan gelman, poesia, política
terça-feira
ricardo aleixo & seu laptop zoador no salão do livro
e hoje à noite, no salão do livro, o embaixador ricardo aleixo se apresenta com poemas que ele promete falar ao acaso, sacados na hora do meio de um de seus livros. improviso.
às 21h na serraria sousa pinto, auditório pirandello.
mais detalhes no www.jaguadarte.zip.net
cep 20.000 comemora 17 anos hoje
para quem estiver no rio: o cep 20.000 comemora hoje os seus 17 anos de poevídeomúsicartinvenção.
endereço novo, anota aí:
rua mário ribeiro, 410 (pra quem for de carro)
rua bartolomeu mitre, perto do hospital miguel couto (pra quem for a pé)
hoje, 19 de junho, às 20h.
confira mais detalhes no blogue do chacal: www.chacalog.zip.net
congonhas
quinta-feira
a poesia de juan gelman no brasil (atualizado)


este é um interessante projeto da editora fondo de cultura económica, organizado por heloísa buarque de holanda, jorge monteleone y teresa arijón. o propósito: pensar a poesia como ponte que une mundos. trata-se de uma alentada antologia (537 páginas) que inclui poetas brasileiros e argentinos. na lista: paulo leminski, lamborghini, affonso ávila, bayley e, é claro, juan gelman. a tradução deste está por conta do poeta e tradutor sérgio alcides e nos dá um ótimo panorama das faces do poliedro que é a poesia de juan.

escrito por
Leo Gonçalves
no dia
14.6.07
assuntos: américa latina, juan gelman, mercado editorial, poesia, poesia contemporânea
sobre a poesia, um poema de juan gelman
haveria um par de coisas por dizer/
que não é muito lida por ninguém/
que esses ninguém são poucos/
que estão todos preocupados com a crise mundial/ e
com o assunto de comer a cada dia/ trata-se
de um assunto importante/ me lembro
quando tio juan morreu de fome/
dizia que nem se lembrava de comer e que para ele não tinha problema/
problema veio foi depois/
é que não havia dinheiro para comprar caixão/
e quando finalmente o caminhão municipal passou para levá-lo/
tio juan parecia um passarinho/
o pessoal do municipal olhou para ele com desprezo ou com desdém/ murmuravam
que eram sempre incomodados/
que eram homens e enterravam homens/ e não
passarinhos como tio juan/ especialmente
porque o tio foi cantando piu piu a viagem inteira até o crematório municipal/
e sentiram-se desrespeitados e estavam muito ofendidos/
e quando davam-lhe um tapinha para calar a boca/
o piu piu voava pela cabine do caminhão e eles sentiam que ouviam um piu piu na cabeça/ tio
juan era assim/ adorava cantar/
e não via por que não cantar depois de morto/
foi para o forno cantando piu piu/ as cinzas saíram e ainda deram uns pios/
os companheiros do municipal se deram com os sapatos cinzentos de vergonha/ bem mas
voltando à poesia/
agora os poetas passam muita dificuldade/
não são muito lidos por ninguém/ esses ninguém são poucos/
o ofício perdeu prestígio/ para o poeta está cada dia mais difícil
conseguir o amor de uma menina
ser candidato a presidente/ ser patrocinado por um mecenas/
que um guerreiro faça façanhas para que ele as cante/
que um rei lhe pague cada verso com três moedas de ouro/
e não se sabe se é porque acabaram as mulatas/ os mecenas os guerreiros/ os reis/
ou simplesmente os poetas/
ou foram as duas coisas e é inútil
quebrar a cabeça com uma coisa dessas/
bonito é saber que a gente pode cantar piu piu
nas horas mais estranhas/
tio juan depois de morto/ eu agora
para que me queiras/
escrito por
Leo Gonçalves
no dia
14.6.07
assuntos: américa latina, juan gelman, poesia, tradução
outras partes
com a derrota a outra parte/
com este animal a outra parte/
os mortos a outra parte/
que não façam ruído/ calados como estão/ nem
se ouça o silêncio de seus ossos/
seus ossos são animaizinhos de olhos azuis/
sentam-se mansos à mesa/
roçam dores sem querer/
não dizem uma só palavra de seus balaços/
têm uma estrela de ouro e uma lua na boca/
aparecem na boca dos que amaram/
passam notícias de seus sonhos/
arrastam suas lágrimas com uma toalhinha atrás como que varrendo o padecer/
como que não querendo molhá-lo/
para que o padecer estale e arda e faça assento aonde se sentar e pensar outra vez/
vamos/ coração/ a outro canto/
é ruim que não possas tirar os pés da tristeza/
embora seja tristeza que beija a mão que empunhou o fuzil e triunfou/
e tem coração e guarda em seu coração uma mulher e um homem passando como tigres pelo céu do sul/
uma mulher e um homem como tigres enjaulados na memória do sul/
beijando filhinhos que nunca mais irão crescer/
companheiros que nunca mais vão crescer a agora cosem
a terra ao ar/ cosem teu coração/ coração/ seus animais/
vamos com esta cadela a outra parte/
não temos direito de incomodar/
nosso único direito é começar outra vez
sob a luz do sol sereno/
os limites do céu mudaram
agora estão cheios de corpos que se abraçam
e dão abrigo e consolo e tristeza
com uma estrela de ouro e uma lua na boca/
com um animal na boca olhando o cintilar
dos companheirinhos que semearam coração
e levantam seu coração ardente
como uma aldeia de beijos/
(tradução: leo gonçalves)
olha aí o original:
otras partes
escrito por
Leo Gonçalves
no dia
14.6.07
assuntos: américa latina, juan gelman, poesia, tradução
leo gonçalves e juan gelman na unipac

escrito por
Leo Gonçalves
no dia
14.6.07
assuntos: agenda, américa latina, juan gelman, performance, poesia, tradução
samba do compositor recebe nei lopes [atualizado]
os freqüentadores do salamalandro sabem o quanto admiro esse sambista lingüista historiador da negritude brasileira, uma das melhores cabeças que já apareceram no país. quando postei esse cartaz da turma do samba do compositor, estava decidido a ir. mas chegado o dia, descobri que infelizmente não vai rolar. muito trabalho a fazer. uma pena.
que os deuses da áfrica tragam de volta uma outra chance boa de vê-lo cantar.
e peço a todos que puderem, que vão. e me contem
imperdível.
salve nei lopes!
segunda-feira
centro cultural banco do brasil itinerante - inscrições abertas para a etapa bh
domingo
notas sobre a vanguarda distraída
1. não se trata de contradição. como vocês puderam notar, a poesia do anderson é mordaz e atenta ao melhor do que acontece ao seu redor. alguém terá notado também que a minha geração cresceu sob o poder daquilo que chamam "cultura de massas" ou "entretenimento" (vulgo xuxa, fausto silva, ana maria braga e outros lixos enlatados). vocês não queriam que eu dissesse: "vanguarda entretida", queriam?
2. jerzy grotowski foi um importante teórico do teatro que nos anos 60 propunha que a ação teatral se fazia graças a uma difícil tensão que ocorre entre o ator e o espectador, sendo que este ocupa um papel opressor por não se ver, na maioria das vezes, preparado para curtir uma peça e sim para consumi-la. no começo dos anos 70, cansado desta tensão, grotowski decidiu abrir mão dela para produzir um teatro total. ao final, ele diz: se vocês quiserem considerar isto teatro ou não, pouco me importa.
grotowski é um precursor da vanguarda distraída.
3. me diverte muito a idéia de que alguém venha a levar a sério o título que dou aos meus contemporâneos (incluindo-me a mim mesmo). onde já se viu... vanguarda distraída.
4. podia escrever um manifesto. até mesmo porque manifestos já estão fora de moda. por isso mesmo. cairia bem.
5. enganam-se redondamente aqueles que (como o frei betto) ficam por aí dizendo que a minha geração só possui alienados despolitizados que só querem fazer parte do sistema mundial de competitividade proposto pelo capital tio sam. o que nós queremos é comer todo mundo. discretamente, como bons mineiros. numa grande mordida de prazer (se o prato for nutritivo) ou num grande bocejo (se o prato só tiver carboidratos - como o frei betto).
6. fico triste de ver como que toda e qualquer subversão é rapidamente assimilada pelo sistema mundial de consumo. che guevara, lenin, leon trotsky, jozef stalin, marilin monroe, john lennon, jim morrison, bob dylan, cicciolina, andy warhol. todo mundo pode ser tranquilamente jogado na mesma lixeira. por outro lado, vejo que o pessoal até que ganha um dinheirinho com isso. o que não é nada mal. contanto que sobre um pouco também para os poetas. um leitinho de vez em quando, as crianças agradecem.
7. para o meu amigo guerrilheiro, com seu papo de inimigos, eu confesso: fui eu que matei paulo leminski. e enquanto agonizava com ar divertido, ele me explicava a doutrina dos epicuristas e me repetia sempre como num refrão: "distraídos venceremos"
escrito por
Leo Gonçalves
no dia
10.6.07
assuntos: américa latina, arte, arte contemporânea, performance, poética, terrorismo poético, vanguarda
sábado
anderson almeida e a vanguarda distraída
nessa época a gente vivia intesamente este poema dele:
o homem pulou da ponte
e ao erguer a vista
e contemplar o horizonte
amou a vida e não viu por onde
retomar a subida
desde então, a gente cometeu muita vida. um dia ele me aparece com um calhamaço de uns 200 haicais completamente originais e inesperados. o silêncio dele nos últimos tempos me faz pensar neste haicai dele:
como borges era cego
e beethoven era surdo
ele é um dos caras mais originais da minha geração. nunca fez muita questão de mostrar o que escreve. esconde dos holofotes, descansa no liso. ele faz parte de uma vanguarda que chamo de "vanguarda distraída". linguagem urbana, vitalidade em cada vírgula. no meio da distração, ele cisma de vez em quando de enviar um poema para algum concurso. ganha, claro. lembro até que quando o conheci, tinha ganhado um prêmio de honra ao mérito num concurso de poesia latino-americana realizado na alemanha.
depois ele ficou entre os 5 melhores de uma revista chamdada ipsis-literis. quando li os versos que ficaram em primeiro, gostei mas não amei. apenas confirmei a insuficiência desses concursos. os poemas que ficaram em primeiro lugar tinham todo um clima de aplicação das teorias aprendidas na academia, enquanto que nos poemas do anderson (que mereciam de longe o primeiro lugar) parecia que a língua estava acabando de ser inventada, sem compromisso com a história da literatura, sem compromisso com ninguém, originais e consistentes. uma pena eu não estar com eles aqui (no meio de muitas mudanças, meus livros ficaram dispersos e não encontro mais nada).
mas em todo caso, vou deixar dois outros, publicados no jornal estilingue #3 em 2004 enquanto ficamos na torcida para ele lançar logo um livro:
as ruas em alta velocidade se estraçalham em esquinas
as estradas não têm quinas
as ruas e as estradas tentam todos os meios de despitar-se
em curvas, em pontes, em bifurcações
as ruas de mãos dadas
uma rua sem saída é uma rua só
há poemas pobres e planos como ruas
o poema é uma rua fantasma
que atravessa uma cidade fantasma
onde passam navios fantasmas
que deixam garrafas com manuscritos
e que manuscritos
enchem de amantes submarinos
as cidades em ruína
durmo de olhos abertos
meu irmão e seus brinquedos de guerra
minha irmã e suas guerras de brinquedo
disputo com os escorpiões meus sapatos
pendurei o espelho e caíram todos os quadros
vasculho cabides e gavetas
mas nada de meu
infilitra na solidão uma calma cotidiana
chove
moro em um morro forte onde uma árvore grande foi derrubada por um raio
ter uma moto e acelerar sem temer a árvore atravessada
chuva que diz sim em clarões
p.s.: atualmente ele comanda o blogue: periféricos & distraídos
escrito por
Leo Gonçalves
no dia
2.6.07
assuntos: arte contemporânea, mercado editorial, poesia, terrorismo poético, vanguarda
e. m. cioran
"a verdade não sonha jamais", disse um filósofo oriental. é por isso que ela não nos interessa. o que faríamos nós da sua miserável realidade? ela só existe na cabeça dos professores, nos preconceituosos escolares, na vulgaridade de todos os ensinamentos.
mas no espírito ao qual o infinito dá asas, o sonho é mais real que todas as verdades. o mundo não é; ele se cria cada vez que o entusiasmo do começo atiça a brasa da nossa alma.