sábado
quinta-feira
a decisão
domingo
no dia 04 dezembro (atualizado)
hoje, 04 de dezembro, dia de sua mãe oiá-iansã, o escrevinhador deste blogue completa trinta anos. para brindar, caetano veloso. só conheço duas versões dessa canção que o antônio risério considera o mais arrojado oriki que ele conhece. quem quiser ouvir, é só clicar aqui ó. sugiro a versão de gilberto gil, que parece quase um mantra.
senhora das nuvens de chumbo
senhora do mundo
dentro de mim
rainha dos raios
rainha dos raios
rainha dos raios
tempo bom - tempo ruim
senhora das chuvas de junho
senhora de tudo
dentro de mim
rainha dos raios
rainha dos raios
rainha dos raios
tempo bom - tempo ruim
eu sou o céu
para as tuas tempestades
o céu partido ao meio
no meio da tarde
eu sou o céu
para as tuas tempestades
deusa pagã dos relâmpagos
das chuvas de todo o ano
dentro de mim
rainha dos raios
rainha dos raios
rainha dos raios
tempo bom - tempo ruim
nesse mesmo dia, também é aniversário de rainer maria rilke. o namorado da louca lou que nasceu em 1875. exatamente cem anos antes de mim. fiquei sabendo há pouquinho tempo.
eu nem gostava do rilke, mas desde que ouvi o jorge mautner recitando o começo das suas “elegias duinenses” comecei até a achar bom.
vou colocar aqui um trecho da tradução feita pela dôra ferreira da silva. aquele mesmo que o mautner gosta de falar.
quem, se eu gritasse, entre as legiões dos anjos
me ouviria? e mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. pois que é o belo
senão o grau do terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos?
tem ainda um outro chegado que comemora anos no mesmo dia que eu: andrade muricy. esse, tenho certeza, pouca gente conhece. é que ele não era poeta não. era crítico. e os críticos morrem mudos. principalmente no brasil. gosto dele porque foi o corajoso que fez a melhor antologia de poesia simbolista brasileira, levantando nomes conhecidos e desconhecidos e provando pra nós que o brasil é moderno desde o simbolismo. e que os cascorentos parnasianos não conseguiram ofuscar com seu poder positivista o surgimento da “fraternidade de poetas” de que fala octavio paz. a nossa. é nessa geração que surgem os nossos primeiros poetas críticos (tirando sousândrade, que veio antes), porque até então, não éramos mais que pirralhos byronianos ou hugoanos com pobríssimas reflexões mais sérias.
em homenagem a ele, um poema do bom e velho pedro kilkerry. é um soneto com um fantasma no meio. sempre que o leio, penso na patrícia, minha namorada. e hoje tudo o que escrevo aqui é dedicado a ela.
é o silêncio...
é o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
olha-me a estante em cada livro que olha.
e a luz nalgum volume sobre a mesa…
mas o sangue da luz em cada folha.
não sei se é mesmo a minha mão que molha
a pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
penso um presente, num passado. e enfolha
a natureza tua natureza.
mas é um bulir das cousas… comovido
pego da pena, iludo-me que traço
a ilusão de um sentido e outro sentido.
tão longe vai!
tão longe se aveluda esse teu passo,
asa que o ouvido anima…
e a câmara muda. e a sala muda, muda…
afonamente rufa. a asa da rima
paira-me no ar. quedo-me como um buda
novo, um fantasma ao som que se aproxima.
cresce-me a estante com quem sacuda
um pesadelo de papéis acima…
…………………………………………………………………………
e abro a janela. ainda a lua esfia
últimas notas trêmulas… o dia
tarde florescerá pela montanha.
e oh! minha amada, o sentimento é cego…
vês? colaboraram na saudade a aranha,
patas de um gato e as asas de um morcego.
(kilkerry)
segunda-feira
psiu!
eis-me aqui de volta
o coração fervendo a cabeça partida as pernas não bastando os braços ainda curtos demais mas um dia quem sabe um dia
quarta-feira
de acordo com as palavras de um sábio ribeirãopretense
queridos leitores, eis me de volta de doze dias de muito trabalho em ribeirão preto. saí de bh às pressas para trabalhar na feira de livros que estava rolando lá. vender livros. o hábito do cachimbo faz a boca torta, dizia o meu pai. colocados os pensamentos em dia, ansiedade jogada fora, agora é descer do paraquedas e ficar com as palavras de um sábio ribeirãopretense: "não adianta vanguarda sem retaguarda". e que a volta seja redonda.
terça-feira
no ar: a rádio ufmg educativa 104,5 FM
“Na democracia, a comunicação tem a função de abastecer o cidadão com informação de qualidade a que ele tem direito, além de fomentar a participação crítica”eugênio bucci acredita que a abertura da rádio ufmg educativa é fruto de uma mudança de mentalidade da comunicação pública do país. acho que ele tem razão.
segunda-feira
POESIAhoje na BHZIP
道 : o tao não é o tal
é do lao tsé, como não poderia deixar de tser...
sexta-feira
programação da zip
SEG 5
De 10h às 22h (CCUFMG):
Videopoemas, áudio-poemas e obras gráfico-visuais de Amarildo Anzolin, André Vallias, Antônio Sérgio Moreira, Beatriz de Almeida Magalhães, Bruno Brum, Guilherme Mansur, Ivana Martinez Vollaro, João Bandeira, Lilian Zaremba, Marcelo Sahea, Marcus Nascimento, Reginaldo Gontijo, Ricardo Aleixo, Ricardo Corona, Roland de Azeredo Campos, Sérgio Fantini, Solymar Cunha, Teresa Labarrère e Wilson de Avellar
De 18h às 22h (CCUFMG):
Feira de Inutensílios (espaço para comercialização de livros, revistas, CDs, camisetas e outros produtos ligados à poesia e à arte em geral)
19h (CCUFMG):
Mesa redonda Belo Horizonte: Zona de Invenção Poesia &
Debatedores: Fabrício Fernandino (escultor e diretor de Ação Cultural da UFMG), Gil Amâncio (músico e ator), Sônia Queiroz (poeta e ensaísta) e Camila de Castro Diniz Ferreira (editora do Suplemento Literário de Minas Gerais), com mediação de Ricardo Aleixo (curador da BHZIP)
21h
TER 6
De 10h às 22h (CCUFMG):
De 10h às 22h (CCUFMG):
15h (LACESJK)
18h (CCUFMG):
Debatedores: Maria Esther Maciel (poeta e ensaísta), Francisco Kaq (poeta e ensaísta, Fabrício Marques (poeta e ensaísta) e Flávio Boaventura (poeta e ensaísta), com mediação de Helton Gonçalves de Souza (poeta e ensaísta)
Performances: Gláucia Machado, Vera Casa Nova e Wagner Moreira
QUA 7
De 10h às 22h (CCUFMG):
De 10h às 22h (CCUFMG):
Mostra Palavras a olhos vendo (e ouvindo)
De 13h às 22h (CCUFMG):
Maratona de Poesia &
Com Alexandre Cappai, Ana Gusmão, Babilak Bah, Benedikt Wiertz, Benjamim Abras, Bruno Brum e Renato Negrão, Chacal, Fabrício Marques, Flávio Boaventura, Chico de Paula e Paulo Thomaz, Francisco Kaq, Waldemar Euzébio, Solymar Cunha, Ricardo Aleixo, Sérgio Fantini, Sônia Queiroz, PexBaa, Makely Ka, Gil Amâncio e Renegado, Poesia Hoje, Kiko Ferreira e João Bandeira
18h (CCUFMG):
Mesa redonda Mercado e contramercado de arte
QUI 8
De 10h às 22h (CCUFMG):
Feira de Inutensílios
De 10h às 22h (CCUFMG):
Mostra Palavras a olhos vendo (e ouvindo)
19h (LACESJK):
Leitura, pela atriz Letícia Castilho, de fragmentos do livro Somos Todos Assassinos, de Sebastião Nunes, seguida de apresentação do grupo vocal Dikanza, formado por integrantes da comunidade angolana de Belo Horizonte
20h (CCUFMG):
SEX 9
De 10h às 22h (CCUFMG):
19h (LACESJK):
21h (CCUFMG):
Maratona de Poesia &
Com Marcelo Dolabela, Kristoff Silva e DJ Rato
TODAS AS ATIVIDADES TÊM ENTRADA FRANCA
quinta-feira
protesto contra a falta de memória urbana
quarta-feira
quinta-feira
lançamento do livro e do dvd da mip (manifestação internacional de performance)
o ceia (centro de experimentação e informação de arte) estará lançando no próximo dia 27 de agosto o livro e o dvd da mip (manifestação internacional de performance), que aconteceu entre os dias 18 e 22 de agosto de 2003. o livro+dvd serão lançados consecutivamente em quatro cidades, a começar por belo horizonte:
bh - 27 de agosto de 2005, sábado, às 14h pça duque de caxias, sta tereza. info: (31) 3412 8445 / 8728 8804
sp - 22 de setembro, quinta-feira, às 21h 15º video brasil - festival internacional de arte eletrônica sesc pompéia - r. clélia 93 pompéia. info: (11) 3645 0516 www.videobrasil.org.br
fortaleza - 7 de outubro, sexta-feira, às 18h programa troca de idéias - auditório do centro cultural banco do nordeste r. floriano peixoto 941 centro. info: (85) 3464 3108
florianópolis - 11 de novembro, sexta-feira, às 17H30 auditório do centro de artes da udesc av. madre benvenuta, 1907 itacorubi. info: (48) 333 4335
para maiores informações e para conhecer melhor o mip, consulte o vírgula-imagem
quarta-feira
terça-feira
o silêncio dos intelectuais
o evento acontece ao mesmo tempo em outras três capitais do país. para maiores notícias, clique qui .
domingo
indie 2005 - mostra mundial de cinema
a mostra mundial de cinema acontece nos cines usina, savassi e humberto mauro. entrada franca. a gente se encontra por lá.
para a programação completa: www.zetafilmes.com.br/indie
quinta-feira
"Whorf dizia que a fala é o melhor espetáculo encenado pelo ser humano. (...) É que a fala – mediando, entremeando e trespassando todas as nossas atividades cotidianas, inclusive os delírios oníricos – aqui e ali se configura de modo distinto, notável, superando a visada meramente pragmática da comunicação técnica imediata. São pontos luminosos, cristalizações sígnicas diferenciadas em meio ao conjunto total das condutas verbais. E assim podemos nos aproximar do – e talvez flagrar o – momento em que a palavra poética brota da palavra prática, desenhando um torneio digno de nota pelo arranjo dos elementos que o constituem. Desse ponto de vista, se a fala é o melhor espetáculo encenado pelo ser humano, ela às vezes apresenta um espetáculo dentro do espetáculo: a poesia. Mas não se pode, por outro lado, reduzir o poético ao poema. o poético pode se encarnar num poema tanto quanto no futebol, em tiradas que ressoam nas ruas, no paleio mais inconseqüente. Ou seja: há um espetáculo dentro do espetáculo, mas que não coincide necessariamente com os limites do objeto “poema”. Ele pode repontar em qualquer comportamento lingüístico, embora seja a marca registrada das artes da palavra.
Em suma, esses jogos verbais – e poesia é isto, para desespero dos “conteudistas”: jogo verbal – permeiam a nossa vida."
Antônio Risério em Oriki Orixá.
terça-feira
article 17 de la constitution française de 1958
"le président de la république a le droit de faire grâce."
sexta-feira
crise nacional: psdb quer roubar sozinho, sem concorrência com o pt
quinta-feira
:: outros bárbaros :: para quem estiver em sampa ::
a mídia de rapina e a ficção (entenda-se, realidade)
terça-feira
ibrahim ferrer cantava com os olhos
mídia brasileira começa a querer a cabeça de lula/ lula oferece a cabeça para a mídia de rapina
domingo
ptm (política tradicional mineira) ou para que serve manter a imagem da tradição?
o jornal estábulo de minas, o grande curral dos mineiros, publicou hoje, domingo, no seu editorial (estampado na primeira página) uma imensa nota repudiando a constante presença de minas gerais entre as listas do marcos valério e no escândalo nacional. eles querem fazer a gente acreditar que a velha tradição política mineira é a grande maravilha do brasil. fazem uma lista que inclui o bias fortes, o antônio carlos e mais uma corja de fedaputas que sacanearam o brasil durante muitos anos achando que isso é alguma vantagem.
sexta-feira
câmara setorial do livro
quarta-feira
] ao meu redor [ andityas soares de moura
E todos os dias parecem reclamar
seu quinhão de sombra e de desassossego,
enquanto nós, com o silêncio de gestos
muitas vezes repetidos, construímos o
torpor, a catatonia de um mundo que se entrega.
tem um comentário do poeta irlandês w. b. yeats sobre pound, onde ele diz: “esse é um poeta de cuja teoria eu discordo completamente, mas que a ele estou ligado por questões que ultrapassam a estética” (estou citando de cabeça). agora já deve ter passado uns oitenta anos desde que yeats escreveu isso, e olhando de outro continente, em outro contexto histórico (livre dos fascismos que iludiram os dois grandes camaradas de que eu falei), posso agora brincar de gente grande e falar o mesmo sobre este meu parceiro. e falarei em forma de relato.
andityas soares de moura é um poeta português, filho de pais brasileiros e nascido em barbacena, interior de minas gerais, estado onde sempre viveu. como estrangeiro que é, onde quer que esteja, vive assumindo em sua poesia uma persona nova, que inclui uma língua e uma forma específicas. mas que ninguém se engane: todas elas transitam num mesmo espaço, onde a realidade é apenas um elemento em meio aos diferentes artifícios aos que ele se apega para os seus versos.
certa vez, num sarau que fizemos numa livraria onde trabalhei há muitos anos atrás, o andityas, tendo lido alguns dos meus poemas, me veio com a seguinte resposta: “estás compromissado com a modernidade”. pouco depois, pude ler o seu primeiro “poemário” (como ele o chama), Ofuscações. achei, e ainda acho, extremamente romântico, deslumbrado com rimbaudismos, traklismos, vangogoghismos, delírio verbal sem artifício, um tanto quanto retórico. pensei: “esse cara está compromissado com o passado.”

lentus in umbra
OS enCANTOS
OS enCANTOS é o livro dele pelo qual tenho maior simpatia. é que nele a ousadia é deslavada. faz jus ao verso de um poema de lentus in umbra: “o estudo me fez espirituoso”. fica numa fronteira idiomática própria de momentos sociais de tensão. guerra. festa. fresta. fantasmagoria. carnaval. é a veia janequiniana do andityas.
daí pra frente, estreitamos a amizade. tive a honra de revisar ponto por ponto a sua inventiva tradução da poeta galega rosalía de castro, o recém publicado a rosa dos claustros (crisálida, 2004). pouco depois, fizemos contínuos trabalhos em torno à poesia de um argentino que ambos admiramos muito (todo mundo já o sabe), juan gelman, grande parceria! o a.s.m. publicou ainda o livreto à boa teta, com poemas licenciosos do século XVI francês.
continua...
FOMEFORTE

a dureza dos poemas é um contrapeso diante de uma coisa incerta que cerceia todo o “poemário”, a insegurança causadora de tensão. como o andityas é um poeta partidário da razão, dá uma puta tentação de enfileirá-lo na turma dos limpinhos e higiênicos poetas da minha geração (não vou citar nomes aqui). mas a verdade é que a poesia desse português das minas (lembrem-se da fama de barbacena torno aos hospícios) respira a uma vivacidade incomodante, misturada com o pedantismo próprio das línguas românicas. pensamento conciliador, o demônio das coisas concluídas e bem arranjadas, a voz dos ofendidos na guerra. vida atual. tempo atual. em cumplicidade com o tempo insistentemente obsoletizante, desobsoletizando-o. contra uma mera moral. a favor de outro tipo de bons costumes.
não é um poeta para escolinhas de adolescentes. não é nenhum partidário da certeza, como tantos. é um cara vivo e atento. antenas viradas para um outro lado sem o grande bocejo da vida dita “real”.
3 poemas do livro FOMEFORTE
AUDIÇÃO PARTICULAR 2
Violin-Sonate nr: 9 in A-Dur [Opus 47]
já te disse:
lambuza-te de
mel
e terás minha atenção
e t’encontrava
nas plácidas
horas digestivas
(após o almoço)
nada poderia
ferir mais que
a ponta dos joelhos
talvez somente o
1° movimento
da sonata Kreutzer
e tu soavas
a cada gemido
as molas: piano
o gozo: violino
A CAPA DO CRITÉRIO (ESTUDO 2)
mulheres de plástico
é do que precisamos
com seus dedos de plástico
cheiroso transparente (vítreo)
lustroso (vinil) virgem
pisariam as
ruas
haveria delírio frenesi
ruptura
Tiradentes
3.
(excursus)
cravei a memória
do meu sono
neste sino
e perguntei:
é 1 real a entrada?
não, não,
fio,
só si a
pessoa quisé
ajudá
explicit canto
telesur
entrou no ar no último domingo a telesur. a belíssima iniciativa tem sua base na venezuela e estará no ar em toda a américa latina. incluindo o brasil, é claro. o objetivo é uma emissora de tv para uma integração entre todos esses países, facilitando o contato e a irmandade. uma emissora assim já vinha sendo idealizada há muitos anos por intelectuais de grande importância como eduardo galeano (uruguai) e fernando solanas (Argentina). entre os organizadores, tem também o walter salles e o fernado morais. o canal promete. para se ter uma noção melhor da iniciativa, clique aqui. o endereço do site da emissora é www.telesurtv.net
descoberto uso do valerioduto por eduardo azeredo
deu ontem na primeira página do "o globo" mais um furo jornalístico: encontraram documentos que informam sobre o uso do valerioduto na campanha de 1998 para governador do atual senador eduardo azeredo. a notícia não circulou em minas gerais. os jornalistas mineiros têm medo de noticiar qualquer informação que possa denegrir a imagem do atual governador, o nosso queridíssimo aécio neves que tem o displante de conseguir a demissão de qualquer um que se aventurar a fazer isso.
segunda-feira
piores poemas
essas traduções ganharam "menção honrorosa" na bienal dos piores poemas, em 2004. parabéns. os autores? claro, eu, a letícia féres e o anderson almeida.
O Mar Português
Fernando Pessoa
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
.................
Omar, Português
Mar Morto, Mar Mita, Mar Mota
Omar Salgado, quanto do teu sal
Veio salgar meu bacalhau!
Por nos cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantas noivas na mão ficaram!
Quantas moças estão a navegar
Para que fosses o meu Omar!
Foi bom pra você? Se a sardinha não for pequena
Ainda vale a pena!
Quem quer passar a mão no beijador
Tem que pegar no trovador.
Dei, Omar, para o Pedrinho e pro Francisco dei,
Mas como você jamais provei.
.......................
Alma minha gentil, que te partiste
Luiz Vaz de Camões
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alg?a cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
.....................
Ó maminha gentil, que te partiste
Para Glauco Mattoso
Cecil B. DeMilus, Sophia DuLoren, Laurinha Trifil
Ó maminha gentil, que te partiste
Tão cedo deste corpo adolescente,
Lembra da tua irmã, discretamente,
E viva eu aqui, sem ti, em riste.
Se lá no lado esquerdo já caíste
E sonhas em voltar aqui pra frente,
E com vergonha a sua dona, deprimente,
Não tem como esconder e fica triste.
E se ainda quiseres reerguer-te
Pois arranjes reforçado sutiã.
Dou-te com bondade esse macete.
É de graça. Mas já sei, caída irmã,
Que por enquanto só vou ver-te
Indo à puta-que-pariu de rolimã.
Poesia aqui e agora
por Mário Alves Coutinho
Leo Gonçalves, em idade cronológica, é um poeta novo; mas como as vias e os caminhos da poesia são mágicos (mas não só; a poesia é magia, mas realismo também), ele tem um conhecimento e uma sabedoria do mundo que vão além dos anos vividos. Quando ele escreve, num de seus poemas de das infimidades que “um poema bonito/ seria assim assim como um poema conflito”, ele já intuiu, mas provavelmente já deve ter vivenciado, algo que William Blake, já sabia: “Sem opostos não há progresso. Atração e Repulsão, Razão e Energia, Amor e Ódio, são necessários para a existência humana” (O casamento do céu e do inferno).
Para ele, a beleza não existe somente no ideal, no etéreo, no excepcional, mas na realidade, no cotidiano, no dia-a-dia. Leo Gonçalves é daqueles poetas que procuram pensar e falar da sua experiência, por mais pequena e ínfima que seja, e daí extrair conhecimento, sabedoria, música, quer dizer, poesia. Do etéreo, ele também trata, só que com ironia: “Até gosto às vezes/ de brincar de anjo/ do que não gosto/ é da tremenda dor/ que me fica depois/ nas asas”.
Assim é a poesia de Leonardo Gonçalves: minimalista, reduzida ao essencial, preocupado em extrair beleza (e conhecimento) da vida mesma que ele leva, em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Pois, como escreveu Octavio Paz, em O arco e a lira, “o poeta escuta o que o tempo diz, ainda que ele diga: nada”. O tempo pode dizer o amor (“deve ter algo no céu/ da sua boca/ que me faz brilhar”, que lembra outro poema em prosa de Blake, “aquele cuja face não ilumina, nunca se tornará uma estrela”) ou, talvez, o desespero (um poema em que repete os refrões, “e você ria”, “você não vinha”, “você mentia”). Mas o tempo, através de Leonardo Gonçalves, está sempre dizendo que a vida é horror e delícia, claridade e escuridão, noite e dia, tudo junto, inseparável (e é isto que, finalmente, faz a sua beleza): “Quando eu morrer/ favor anotar no final da minha paixão:/ morreu de tanto viver”.
Aí está toda a magia da poesia, em sua beleza e completude: até mesmo o ato de morrer, pode ser, contradição suprema, uma afirmação, na verdade e ainda um ato de vida. Pois, como escreveu William Blake, “tudo que vive é Sagrado”. Ou, como afirmou Octavio Paz, “poesia, momentânea reconciliação: ontem, hoje, amanhã; aqui e ali; tu, eu, ele, nós”. Poesia, como bem sabe Leo Gonçalves, é conflito, mas também reconciliação.
o mal da imprensa ou o jornalismo transgênico
quinta-feira
literatura de bordel
a boceta filet-mignon da prostituta
aqui tudo pode
(ensaio com 75 poses caras e bocas e perversão)
de longe vem o rugido da horda
alegria um velho safado
consolo no rabo
porta aberta em senhorita lusbel
o guarda no batente se levanta
aponta o cassetete pra fazer seu certo
dá revista completa no sujeito
e termina pagando boquete
o ensaio sai no jornal nacional
nessa orgia deslavada
todo coitado quer meter o pau
repórter mariquita recatada
quis mamar na teta seca dessa vaca
cobriu a batucada na semana passada
voltou prenhe de um casal de maritacas
por aqui, tudo é amor
aqui todos tomam nos cus
seu tião faz sacanagem pura
pra avisar que o que é bom se faz aqui
o buraco não é só embaixo
& a festa é na coluna social
todos os direitos reservados:
conversa de microfone, classe média no mediano
grana jogada de grila, verdinhas, verdinhas e verdões
mas quem mais ganha nessa brincadeira
é a puta e o delegado, o programa do jô e o jornal nacional:
glória à audiência nas alturas,
e putaria aqui na terra, amém.
rapidinhas
mais sobre a imprensa de rapina
terça-feira
imprensa de rapina é o mais inalterável vestígio da ditadura militar ou eu também vou reclamar
as réplicas do marcelino

clique aqui para ler a carta do marcelino (mais um tiro certeiro na cara do jt) publicada ontem no era-o-dito.
segunda-feira
à boa teta
teta nova, mais branca que ovo,
teta de cetim branco novo,
teta que faz a rosa corar,
teta de beleza sem par,
teta firme, não teta, enfim,
pequena esfera de marfim,
no meio da qual se fareja
uma framboesa ou uma cereja,
que ninguém vê, tampouco toca,
mas assim é descrita em doce fofoca.
teta, pois, da pontinha vermelha,
teta que sempre imóvel semelha,
no ir e vir de seu caminhar
ou para correr, ou para bailar.
teta esquerda, teta sozinha,
teta separada da sua irmãzinha,
teta que é grande homenagem
para o resto da personagem.
teta, que desperta em moço e ancião
um grão desejo lá dentro da mão:
de te provar, de te possuir.
mas é preciso refrear o sentir,
o achegar-se assim tem que ser,
senão outras vontades verás florescer.
ó teta nem grande nem pequena,
apetitosa, desenhada a bico-de-pena,
teta que noite e dia implora:
“casa-me, casa-me agora!”
felizardo, eis como se chamará
aquele que de leite de t’encherá
fazendo de teta de donzela
teta de mulher inteira e bela.
poema de clément marot (1496-1544) publicado em à boa teta [tradução de andityas soares de moura]. crisálida, 2005.
cicciolina
you said everything revolves around a certain principal
you said everything depends upon our understanding of the political
my Cicciolina everything is physical
my Cicciolina everything's political
you're the butterfly goddess floating down
streams of love's jetting sperm fountains
everyone wants to consume you cicciolina
why should I be any different?
my cicciolina everything is physical
my cicciolina you fill me with a boa constrictor love
love like a fire
love like a flame
but you eliminate
there she goes again floating down those lovely streams of
those lovely streams of
my cicciolina everything is physical
it's all political
my Cicciolina
é uma musica do machines of loving grace
sexta-feira
cicciolina, la diva futura
sagitariana como eu, a oxigenada escandalizou a itália com uma meia dúzia de deliciosos atentados po(rno)é(ro)ticos. foi presa várias vezes e foi processada inúmeras vezes por atentado ao pudor.
por exemplo: nos anos 70, ela apresentava um programa de rádio onde ela dava conselhos sexuais de deixar qualquer penélope de cabelo em pé. uma noite, recebeu uma ligação de um adolescente que queria aprender a se masturbar. ela deu todas as instruções e a garota teve um orgasmo em cadeia nacional. audiência nas alturas. no dia seguinte, processo por perversão de menores.
cicciolina fundou na itália o partito dell'amore e foi eleita de-puta-da depois de mostrar a boceta pra todo mundo. ela explica que somente através do amor, digo: o amor!, as pessoas vão se tornar mais dignas e a violência diminuirá. "não é verdade que o sexo desperta a violência nas pessoas", ela insiste.
ela também dirigiu alguns filmes. il telephone rosso e la diva futura são dois verdadeiros clássicos. este último, de vanguarda, com maravilhosos elementos porno-dadaístas. quem quiser saber mais, leia a autobiografia dela, o livro confessions.
imprensa de rapina
só pra fechar, a revista óia se gaba ter sido a heroína que primeiro lançou a bomba sobre o Bob Jefferson. anda dando uma de heroína salvadora da lavoura. ninguém contesta os fatos em torno à corrupção nacional. mas ignoramos a maior parte das entranhas desse assunto. o que não acontece com o movimento literatura urgente. quem estiver afim de saber tudo sobre o assunto, as propostas e tudo mais, tá fácil fácil. então fico pensando cá com meus botões. se com a gente eles fazem isso, não quero nem ver o que fazem para foder a turma lá que já tá mesmo toda suja até o queixo! o brasil está viciado em heroínas!?
ainda sobre ontem...
um último comentário: o texto da veja realmente me deixou chateado. não apenas por causa da maldade inerente aos semanários nacionais, mas porque eu sei que no brasil essas idéias são bastante respeitadas. afinal, esse é um país onde os escritores são funcionários públicos que enquanto ficam morcegando, vão escrever uns livros clássicos aí tipo "a rosa do povo" e "memórias póstumas de brás cubas". eu só fico achando é que a revista dessa vez brincou com fogo, eles não deviam ter feito uma tolice dessas. escritor não é corrupto que fica abusando do dinheiro público não. é gente muito mais perigosa. desestabiliza a ordem. fica brincando... mesmo assim, eu deixo aqui uma nota triste e mudo de assunto.
quinta-feira
povim
só hoje é que fui ver a revista veja que publicou a infeliz matéria sobre o movimento literatura urgente assinada pelo jornalista jerônimo teixeira. o texto só veio comprovar o meu descrédito com a revista. da forma como está dito, faz parecer que o movimento visa um benefício do tipo que anda circulando por "malas" e "cuecas" para uma meia dúzia de escritores que, em sua maioria, não têm nem tanto espaço quanto o desperdiçado pelo ilustríssimo nazista que assinou o libelo. chegando na rede, fiz questão de dar uma olhada geral e ver o que os "acusados" por ele dizem, e gostei. dêem uma olhada aqui e aqui. comentário: nesse país de imprensa marrom não se pode nem ser escritor sem ser visto como um tolo ridículo. para quem não sabe, fomentos nacionais em favor da produção literária são prática salutar e muito bem vista. os mais pacientes, procurem pelas experiências bem sucedidas de países como a espanha, a frança e a irlanda, e me diga o que devemos fazer com jerônimos teixeiras e revistas óia. em tempo: é sempre bom lembrar que a revista veja, assim como todas as revistas brasileiras se encaixa também na lei que a torna isenta de qualquer imposto sobre impressão e sobre o papel onde ela imprime as suas falcatruas. confira na constituição brasileira. art. 150. sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à união, aos estados e aos municípios: VI. instituir impostos sobre: d. livros, jornais, periódicos e o papel destinado à sua impressão.
sexta-feira
projeto sertão mineiro

terça-feira
o bom menino
não saberei desamarrar os sapatos e deixar que a cidade me morda os pés,
não me embebedarei sob as pontes, não cometerei faltas de estilo.
aceito este destino de camisas engomadas,
chego a tempo nos cinemas, cedo meu assento às senhoras.
o longo desregramento dos sentidos me vai mal, opto
pelo dentifrício e as toalhas. me vacino.
olha que pobre amante, incapaz de jogar-se numa fonte
para trazer-te um peixinho vermelho
sob a raiva de meganhas e babás.
poema de julio cortázar. olha aí o original:
el niño bueno
no sabré desatarme los zapatos y dejar que la ciudad me muerda los pies,
no me emborracharé bajo los puentes, no cometeré faltas de estilo.
acepto este destino de camisas planchadas,
llego a tiempo a los cines, cedo mi asiento a las señoras.
el largo desarreglo de los sentidos me va mal, opto
por el dentífrico y las toallas. me vacuno.
mira que pobre amante, incapaz de meterse en una fuente
para traerte un pescadito rojo
bajo la rabia de gendarmes y niñeras.
sábado
céu e inferno (mirabilibus ex auditis et visis)
daí por diante, escreveu uma vastíssima (mais de 40 títulos), obra que fez a cabeça de uma pequena ralé literária: kant, goethe, balzac, dostoievski, william blake, charles baudelaire, w. b. yeats, s. t. coleridge, ralph w. emerson, henry james, august strindberg, é elogiado por paul valéry, aclamado por jorge luís borges e tema de uma das obras principais do poeta polonês czesław miłosz: ziemia ulro/land of ulro. no brasil exerceu influência apenas sobre um único poeta, o mais original dos românticos brasileiros: sousândrade. ele aparece no começo do inferno de wall street.
1. (O GUESA, tendo atravessado as Antilhas, crê-se livre dos XEQUES e penetra em NEW-YORK-STOCK-EXCHANGE; a Voz dos desertos: )
Desceram; o Inca há de subir...
Ogni sp'ranza lasciate,
che entrate
Swendenborg, há mundo porvir?
essa obra teológica deu origem à igreja swedenborgiana que, teologicamente, parece ter incentivado as incursões espirituais do francês allan kardec. segue aí o endereço do site brasileiro sobre a obra de swedenborg, organizado pela sua igreja brasileira (sede no rio de janeiro desde os anos 40!). vale a pena conferir: www.swedenborg.com.br
emanuel swedenborg
mais alto do que os outros, caminhava
aquele distante homem entre os homens;
chamava, apenas, por secretos nomes
os anjos. com sua visão mirava
o que não miram olhos terrenais:
a ardente geometria, o cristalino
edifício de Deus e o torvelino
nefando dos deleites infernais.
conhecia que a Glória e o Averno
estão na alma e suas mitologias;
sabia, tal como o grego, que os dias
do tempo são espelhos do Eterno.
em árido latim foi registrando
últimas coisas sem por quê nem quando.
o soneto é de jorge luís borges (swedenborges?). aí está o original:
más alto que los otros, caminaba/
aquel hombre lejano entre los hombres;/
apenas si llamaba por sus nombres/secretos a los ángeles. miraba/
lo que no ven los ojos terrenales:/
la ardiente geometría, el cristalino/edificio de Dios y el remolino/
sórdido de los goces infernales./
sabía que la Gloria y el Averno/
en tu alma están y sus mitologías;/
sabía como el griego, que los días/
del tiempo son espejos del Eterno./
en árido latín fue registrando/
últimas cosas sin por qué ni cuándo./
segunda-feira
cogito
eu sou como eu sou pronome pessoal intransferíveldo homem que iniciei na medida do impossível
eu sou como eu sou agora sem grandes segredos dantes sem novos secretos dentes nesta hora
eu sou como eu sou presente desferrolhado indecente feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou vidente e vivo tranquilamente todas as horas do fim.
20.10.70 torquato netodos sofrimentos cotidianos
Tricas...Nadinhas mil... Ridículos extremos... Enxame atroz que em torno à gente esvoaça. E disto, e só por isto envelhecemos... Nem todos podem ter uma grande desgraça!
poema do Mário Quintana
quinta-feira
Sobre tigres, lobos e cordeiros
Marcelo Coelho
Folha de S.Paulo, 22 de junho de 2005
Indicações de livros são sempre coisa arriscada; a rigor, só deveriam ser feitas a amigos próximos, a pessoas cujos interesses conhecemos bem. Mas quem atualmente se decepciona com o governo, quem já está decepcionado há tempo e quem nunca teve ilusão nenhuma a esse propósito talvez tire proveito de um pequeno e clássico livro de poemas de William Blake (1757-1827) que, pela primeira vez, é traduzido na íntegra para o português.
Trata-se de "Canções da Inocência e da Experiência", livro lançado neste ano pela editora Crisálida, de Belo Horizonte, com tradução de Mário Alves Coutinho e Leonardo Gonçalves.
Alguns poemas de Blake estão presentes em todas as antologias da literatura inglesa. São simples de ler, difíceis de entender e quase impossíveis de traduzir: é o caso de "O Tigre", texto hipnótico, obsessivo, que parece perseguir o seu leitor.
"Tyger Tyger, burning bright,/ In the forests of the night;/What immortal hand or eye,/Could frame thy fearful symmetry?" A estrofe inicial se repete no fim, como que "enjaulando" o poema, e as traduções não conseguem domá-lo completamente. "Tigre, tigre, flamante fulgor/ Nas florestas de denso negror,/Que olho imortal, que mão poderia/ Te moldar a feroz simetria?" – assim era a tradução de Paulo Vizioli, numa coletânea publicada há 20 anos.
Mário Coutinho e Leonardo Gonçalves mantêm a exótica ortografia do original e buscam seguir o ritmo de tambor na selva: "Tygre, Tygre, fogo ativo,/ Nas florestas da noite vivo;/ Que olho imortal tramaria/ Tua temível simetria?".
Melhor; ainda assim, parece mais fácil entender "in the forests of the night" em inglês mesmo, do que acompanhar a pirueta do "nas florestas da noite vivo"...
O poema, em todo caso, continua encadeando suas perguntas: "Que profundezas, que céus,/ Acendem os olhos teus? (...) Que martelo? Que elo? Tua mente/ Vem de qual fornalha ardente?". Em inglês: "In what distant deeps or skies,/Burnt the fire of thine eyes? (...) What the hammer? what the chain,/ In what furnace was thy brain?".
As seis estrofes repetem a mesma inquietação: de onde vem, quem criou, quem forjou esse animal terrível? O tom de ameaça culmina numa última questão: "Did he who made the Lamb make thee?" ("Quem te fez, fez também o Cordeiro?", traduz Paulo Vizioli).
O clima de terror romântico, a concisão e a eletricidade de alguns versos tornam "O Tigre" um poema inesquecível. Mas, de minha parte, sempre me pareceu que havia algo de inconvincente, não sei se de exagerado, de sensacionalista, naquilo tudo... Talvez porque um tigre não me pareça o animal mais terrível, mais demoníaco de toda a criação. A beleza do felino depõe, a meu ver, bastante a favor do Pai Celeste – que talvez não estivesse tão inspirado quando fez o cordeiro. De qualquer modo, um poema sobre o lobo, ou o chacal, talvez funcionasse melhor... Preferências zoológicas à parte, para mim é como se o poema de Blake estivesse tentando dizer uma "outra coisa" que não se revela; sua simplicidade não se entrega, parece fechar-se em si mesma.
Mas "O Tigre" pertence à segunda parte do livro – as "Canções da Experiência". Daí a vantagem da edição completa: é que na primeira parte, as "Canções da Inocência", pode-se ler o poema que faz par com esse. Trata-se, é claro, de "O Cordeiro" e imita a mais boboca e fofinha canção de ninar que alguém possa querer: "Cordeirinho, quem te fez?/ Pois tu sabes quem te fez?/ Deu-te a vida e deu-te pasto,/ Ribeirinho e largo prado;/ Lã macia e sem malícia (...)".
Em inglês, chama a atenção a mesma rima em "ight", que era tão sinistra no caso do tigre: "Little Lamb who made thee/Dost thou know who made thee/ Gave thee life & bid the feed,/ By the stream & o'er the mead; /Gave thee clothing of delight/ Softest clothing wooly bright (...)".
Com esta edição bilíngüe, o leitor pode então apreciar o paralelismo, as simetrias entre os poemas da primeira parte e os da segunda. Nas "Canções da Inocência", lemos versos otimistas sobre um limpadorzinho de chaminés que cumpre, feliz, o seu dever e vai para o Céu. Nas "Canções da Experiência", a realidade é bem outra. O prefácio de Mário Coutinho e Leonardo Gonçalves acrescenta informações importantes sobre aquele ofício, uma das mais horríveis modalidades de trabalho infantil inventadas pelo homem. Só crianças muito pequenas, é claro, podiam entrar nas chaminés para limpá-las; "seus joelhos e cotovelos, usados para subir, sangravam e ficavam em carne viva".
Blake, dizem os prefaciadores, foi sempre considerado um místico, um louco, um ingênuo pelos seus contemporâneos. Há, aliás, uma frase linda da sra. Blake a respeito dele: "Convivo muito pouco com meu marido. Ele está sempre no Paraíso". Gonçalves e Coutinho ressaltam a exatidão convicta com que o poeta denunciava os horrores do capitalismo inglês. Citam, por fim, o crítico Northrop Frye, para quem Blake pode ser lido em qualquer época e parecerá sempre estar se referindo às questões da atualidade.
Questões da atualidade? Não gosto de pensar que a velha "inocência" petista deu lugar à "experiência" destes dias de Delúbio e Marcos Valério. Seria nobilitar, como feitos de maturidade política, os entendimentos estarrecedores do partido com o fisiologismo. Não é também "maturidade", entretanto, o que se elogia quando Palocci e sua equipe recebem o assentimento do mercado? Quem fez Delúbio não fez Palocci?
Mas o poema de Blake, com seus cordeiros e tigres, não me parece vir tão a propósito agora quanto a frase de outro poeta, Paul Valéry: um lobo, diz ele, nada mais é que um cordeiro assimilado.
terça-feira
é bom demais ver os amigos se dando bem
saiu a lista dos vencedores do projeto arte no ônibus. um viva especial para Letícia Féres, Júlio César de Abreu e Silva, Leonora Weissmann e Sílvia Amélia
domingo
olha o blog do POESIAhoje de cara nova aí gente!!!
sexta-feira
a moda da moça bonita
querida mulher
sempre às sete da manhã
cheiro tanto o seu chulé
que às oito em ponto
estou completamente tonto.
nove horas: você me dá um fora
e noves fora
passa as dez e passa as onze
numa armadura de bronze
meio dia e meia
você ainda está de cara feia
e assim passa a sua tarde
com uma cara toda emburrada
enquanto o sovaco arde
decorando tabuada.
chega a hora do recreio
aí você se lembra de mim:
eu sou um cara manero
mas eu fui ao banheiro
e o banheiro estava cheio
uma fila enorme
todo mundo de uniforme.
quando toca o sinal,
é a hora final
pra fazermos as pazes
vou fazendo umas frases
de efeito garantido:
“só vivo contigo,”
“só penso em você,”
“dó lá si dó”
“sol fá mi ré”
“ré ré ré ré.”
mas você não dá bola
nem olha pra mim
um beijo de esmola
que é quase sem fim.
mas nem ligo pra isso
eu sei que você me ama
eu sei que você me quer
e um dia ainda me chama
pra cheirar pra sempre o seu chulé.
quinta-feira
novo porto
o salamalandro acaba de chegar a novo porto. depois de ficar de saco completamente cheio do uol, que cismou que meu blog alcançou o limite máximo, o salamalandro atravessa as barreiras do seu próprio incêndio e vem aportar aqui. mas vamos com calma. tenho ainda que aprender a usar.
quarta-feira
música
ao som de uma música
de haendel
tocar fuga aos quatro ventos
tilintando oratórios e cervejas
num bar
blandir bandolins
numa tarde infinitiva sobre o mar
(oxum cantará para me proteger)
repetir este brilho
aos dedos e raios
dansantes de iansã
pois choverá a cântaros
domingo
assoviando blake [visões]
assoviaria blake por ruas mapeadas/ nas muradas do arrudas/ de concreto armado/ as ruas da cidade têm dono/ as putas da cidade não têm dono/ caminharia pelas ruas/ putas da cidade da moral concreto armado/
diria à mendiga e ao mendigo que eles são amados/ na minha orgia por poetas e baratas/ e eles se levantariam de suas calçadas/ e me beijariam/ e com meu beijo/ se sentiriam nutridos/
orgias de poetas, palavras/ gravadas no papel/ como palavras gravadas nas cascas/ das árvores/ ou como palavras gravadas/ nas cascas do corpo/ ou como corpo gravado no tempo/ ou como o tempo gravado no nada/ como um copo vazio/
assoviaria blake/ solitário/ ouvindo o poeta guarani nascido agora aqui/ há duzentos e cinqüenta anos/ e que não está na história/ não quis se chamar árcade ou clássico ou poeta ou romântico/ ou esdrúxula do gênero:/ mas árvore cético mágico cínico/ ou único libertador/ porque não escrevia a liberdade tardia/ onde o prazer amanhecia e entardecia sem dono/
assoviaria blake pelas ruas sem nome/ aspirando o mesmo lugar dourado/ e um girassol/ limitado-ilimitado/ à margem do rio podre/ sem nunca debruçar sobre sua murada/